As minhas 4 exposições de Agosto (na “Sábado”)

PEDRO CABRITA REIS  (I)
Museu Colecção Berardo, Lisboa (até 2/10)
Cabrita Reis mostra-se em duas grandes exposições: uma alargada revisão, em termos de obras e meios convocados, de cerca de 30 anos de trabalho pictórico, escultórico, instalativo, videográfico, de imagens, em suma (Museu Berardo); cerca de 400 desenhos na Fundação Carmona e Costa, obras desde os anos 70. Lembro-me de uma frase do autor, dos anos 80, que continua a validar esta longa trajectória: “Entre o Destino e a Pintura a diferença é o Homem”. Ou seja, nem a Pintura nem o Homem se acomodam ao Destino, uma vez que há no Homem-Artista uma espécie de demiurgia que, inevitavelmente, rivaliza com Deus. Trata-se, acima de tudo, de uma aspiração e não de uma realidade. Para P. C. Reis não faz sentido o artista se lançar na obra com outro pensamento. Esta concepção não é megalómana, é clássica, e é a essência da criação artística. Na medida em que a arte sempre aspirou à representação do irrepresentável: os sentimentos, a vida, a morte, o mundo e os espaços da divindade (a Madonna de Giotto, um Cristo de Caravaggio, os enigmáticos retratos de Velázquez…). Deste modo, P. C. Reis recorre a todos os materiais que encontra e constrói todo o tipo de obras: pinturas, esculturas, casas, arquitecturas, paredes de luzes, redes tridimensionais de aço… E também desenhos, o centro da sua arte e do seu pensamento. (“Sábado”, 4/8)

RICARDO JACINTO
Chiado 8 (até 14/10)
De circulação recente, mas com vasto currículo, Ricardo Jacinto deixa transparecer nas suas obras elementos da sua formação: arquitectura e música, seja: espaço e mutações perceptivas. Na presente exposição, os objectos e construções anteriores dão lugar exclusivo às imagens projectadas (e sons). Mas a disposição dos elementos é arquitectónica. Temos duas salas ligadas por um corredor (o título da exposição). Em cada sala, ou topos e prolongamentos do corredor, temos uma projecção vídeo. A parede de fundo de uma sala liga-se assim à outra oposta (pelo corredor). A obra que medeia estes dois filmes (dos topos) é um conjunto de vozes e um filme de difícil discernimento. É o centro da obra/instalação, onde desaparece a clareza das significações. A total obscuridade deste espaço é “iluminada” pelas imagens provenientes dos filmes: uma experiência científica sonora, cenas de uma festividade vimaranense (interessante alusão ao colectivo, perante um espectador aqui isolado na obscuridade da exposição) e filmagens de atletas de natação sincronizada (o colectivo organizado). A narrativa dos filmes não é linear, mas o espaço que tudo isto liga e nos envolve é contínuo. O espaço resulta das imagens, único ponto de apoio (o resto é o vazio absoluto) – estas iluminam e permitem (condicionam) a movimentação do espectador. (“Sábado”, 11/8)

JOÃO PENALVA
Centro de Arte Moderna, Lisboa (até 9/10)
Com longa trajectória, Penalva representou Portugal nas Bienais de S. Paulo, Veneza e Berlim. Comecemos então pelo princípio. Nas suas pinturas do início dos 90, Penalva apostava em soluções compósitas, diversificando materiais pictóricos, escalas, composição fragmentada, por vezes instalativa (combinando sabiamente várias unidades). Tinham contudo uma matriz excessivamente retiniana, por vezes decorativa. Mas o trabalho de Penalva sempre buscou a interdisciplinaridade. Como bailarino trabalhou com Pina Bausch. Certamente com ela aprendeu a construir histórias com fragmentos que, cada um, são uma unidade sem relação de causa-efeito entre eles. Daí a sua obra ser ao mesmo tempo visual, textual e ficcional. Em 1993, apresenta uma enorme instalação na Alfândega do Porto (um seu opus magnum): abriu-lhe os arquivos, iluminou-os, criando um teatro de rara intensidade. O “arquivo” tornou-se uma paixão: em 1997, inventa um coleccionador (Ormsson) e apresenta-lhe a colecção. Verdade e ficção sempre lhe foram indistintas, como vemos aqui. No entanto, muitas obras parecem sofrer de excessivo requinte, de um cansativo design. (“Sábado”, 18/8)

PEDRO CABRITA REIS  (II)
Fundação Carmona e Costa, Lisboa (até 8/10)
Quatrocentos desenhos (bruscos, rápidos pensamentos), referentes a 40 anos de trabalho. Assim é esta exposição, acompanhada de um excepcional álbum com todas as obras e um texto do autor, que as pontua. Numa das páginas: “quando se começa, queremos trazer tudo connosco. ao longo da viagem vai-se aprendendo que basta apenas caminhar”. Logo, não se trata de escolher os “melhores” desenhos, mas os desenhos como “companheiros” (de todos os géneros) de uma obra: retratos, paisagens despretensiosas, todas as formas e estilos, experiências automáticas, estudos preparatórios de esculturas. Uma coisa sublinho: o autor expõe-se na intimidade e revela os fundos das gavetas. Desde há 40 anos temos aqui um caos inevitável. Já numa recente exposição na Galeria Miguel Nabinho, PCR mostrava uma série de fotos suas (com legenda) viajando, na intimidade e trabalhando. O que é aqui importante é ver que esta exposição é fria e sistemática, mais do que narcísica. Como se o autor dissesse que tudo vai acontecendo: erros e acertos. E expor-se às claras afasta-o de paradigmas míticos e românticos. Por isso as duas últimas mostras de PCR são importantes: para nós e para o próprio. (“Sábado”, 25/8)

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9 respostas a As minhas 4 exposições de Agosto (na “Sábado”)

  1. João Valente Aguiar diz:

    «A narrativa dos filmes não é linear, mas o espaço que tudo isto liga e nos envolve é contínuo. O espaço resulta das imagens, único ponto de apoio (o resto é o vazio absoluto) – estas iluminam e permitem (condicionam) a movimentação do espectador.»

    A imagem “pura”, a imagem como único referente de “aproximação” à obra, também não será igualmente vazio absoluto?

    «PCR mostrava uma série de fotos suas (com legenda) viajando, na intimidade e trabalhando»

    Concordo plenamente quando dizes que não se trata de algo propriamente narcisista. Contudo, gostava de te perguntar se mais do que o artista em si mesmo, é a obra de arte como tema auto-referente para a própria arte que ganhou espaço central nas últimas 5, 6 décadas.

    São apenas duas interrogações, possivelmente sem grande sentido, da parte de um leigo.
    Um abraço

    • Carlos Vidal diz:

      João, vamos a ver se eu consigo dizer algo interessante sobre o que sugeres.
      Na exposição (ou, porque não?, “teatro instalativo” – não tinha pensado nisto) de Ricardo Jacinto, eu não falo em “imagens puras”. Digo que algumas delas nos falam directamente de um sujeito colectivo (o vídeo com imagens de uma festa em Guimarães), e de um sujeito “individualizado” – mas este é um sujeito perdido, digamos, na obscuridade da instalação. O que quer dizer que, ao se sentir perdido, ele parte da imagem para se “encontrar”, para ser “algo”, uma coisa, aquilo que é, quem é. Logo, estas imagens (“as” imagens) estão contaminadas.

      Stanley Cavell, o filósofo que muito bem escreveu sobre cinema (a par de Deleuze), falava do cinema (e eu creio que o vídeo levanta problemas muito semelhantes, no caso de autores que eu acompanho como amigo como o João Onofre, isso é evidente; noutros que eu acompanho como admirador, o Pedro Costa, também é evidente, essa contaminação/semelhança entre o cinema e o vídeo), falava do cinema, dizia eu, como arte, por via técnica, “automatista” (por via do “medium”).
      Neste sentido, creio que só há, na imagem, “pureza” nesse momento – o da captação, da duplicação, do espelhamento “automático” do mundo. É um instante sem medida, ínfimo, pois, seguidamente, esse efeito desmorona-se e, recorrendo a termos conhecidos, o significante (puro) torna-se de imediato significado (impureza). Claro que eu estou a contar com o trabalho do espectador (como diria Duchamp: são os espectadores que fazem a obra; o que também levanta questões curiosas: fazem a obra ser “obra” ou fazem-na significar? Dão-lhe apenas aura ou mais alguma coisa? Duchamp deixou, pois, o enunciado incompleto, sem resposta).
      Por mim, o vídeo é tecnicamente espelhamento e, conceptualmente, duplicação (do mundo, do real, etc.). Nessa terminologia, o espelhamento é “puro”, mas esse é um momento logo de seguida ultrapassado – não apenas na exibição, mas desde a edição/produção/pós-produção da obra.

      Quanto à obra referente de si mesma: isso leva-nos a temas tratados por gente tão diferente como Greenberg (o primado do óptico, do meio “puro”) e Foucault (a associação entre a obra referente de si mesma e o “autor”, para separar a obra das coisas banais, “quotidianas”). Claro que a tua primeira questão está ligada à segunda.

      Bom, este tema também tem bifurcações: por um lado diria que a auto-referencialidade não é coisa nova: já está presente no cubofuturismo russo, no Impressionismo (que é um discurso da cor, uma poética livre nos “Nenúfares” de Monet), e, porque não?, no quadro-janela renascentista de Alberti (ora, não é a perspectiva linear uma arbitrária matematização do mundo??).
      Este é, portanto, um atributo da obra de arte (Baudrillard, que aprecio noutros âmbitos, aqui falhou por completo: viu nesta “autonomia” o princípio de uma fraude, a hipótese de um complot, como sabes).
      Entretanto, isto complexifica-se: o minimalismo quis ser auto-reflexivo, mais tarde (e antes) houve outras linhas de trabalho que criticaram e tentaram superar esta auto-reflexividade, politizando os discursos e as formas (alguma arte conceptual, Hans Haacke…) ou reclamando para as formas a hipótese de serem referências ao corpo (feminismos, body art, Marina Abramovic…).
      Creio que, em suma, uma análise atenta das obras e dos autores pode ultrapassar certos impasses. E é provável que não exista “arte pura”.

      • João Valente Aguiar diz:

        Obrigado pela tua pachorra e pelo que avançaste na tua paciente explicação. Vamos falando.
        Abraço

        • Carlos Vidal diz:

          Claro, pela Festa e na sessão de Lisboa (FBAUL).
          Na Festa será apresentado o número actual do “Caderno Vermelho” do sector intelectual do partido, Lisboa (onde escrevo sobre arte e sociedade – um tema que é nosso conhecido).
          Será sábado à tarde (ainda não tenho detalhes).
          Abraço. CV

  2. ezequiel diz:

    Prof Vidal

    um dos próximos numeros do Social Research deverá interessar-lhe, suponho eu.

    cumps
    Z

    http://www.newschool.edu/cps/socres/forthcoming-issues/

    • Carlos Vidal diz:

      Refere-se o meu caro ao número sobre a Imagem ou sobre “política e comédia”?
      (este, “política e comédia”, para 2012, é sugestivo.)

      Cumps sempre
      CV

  3. ezequiel diz:

    Refiro-me ao numero sobre imagem em acção, imagem na acção.

    Numero sobre Deleuze, provavmt.

    + :

    http://www.telospress.com/main/index.php?main_page=index&cPath=3_4

    http://www.telospress.com/main/index.php?main_page=product_info&cPath=17_18&products_id=414

    Cumprimentos
    z

  4. Gostei dessa do homem é a vida, a vida é o homem mais a iarte, do arquitecto experimentalista das sincronias do colectivo, do bailarino-designer cansado-arquivista e da parte dois do homem é a vida viajando pela intimidade ego-grafogoilógica.
    Continua o cemitério da metáfora, a sucata conceptual da nossa elite e as importâncias atentas do grande Carlos Vidal. Sodades mestizas de México.

    • Carlos Vidal diz:

      Bem vindo e bem regressado, como sempre, tu, ó homem habituado aos mares do sul que desta feita te tornaste um Bartolomeu Dias dos mares do norte (se é que isso existe, esse Bartolomeu). Ou foste antes um Colombo que rumou a ocidente julgando avistar praias do oriente. Tudo é possível. Como vês, até mesmo em crítica e tal. Coisas da vida, é o que é.
      Vai amanhã ao Avante que eu estou lá, à tarde.
      Combinado?
      Ou ainda no tereceiro mundo ??

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