Chamo-me Pedro Penilo e não gosto de fazer cocktails desses

Não tencionava meter-me nesta guerra à volta do cargo do António Figueira. Fui obrigado a isso pelas proporções que tomou, pelos insultos, truques baixos e tristes personagens que mobilizou, mas principalmente porque fui convocado por um interveniente neste desinteressante debate.

Claro que se pode chafurdar na vida de cada um. São tão poucos os que no mundo da comunicação se coibem de certas palavras e gestos… Como não imitar…? Claro que podemos medir a pureza e coerência de quem vive como pode neste mundo cão. Quem tem esse aparelho de medição tão jeitoso certamente adora usá-lo.

Eu vivo rodeado de gente, família e amigos, que, em posições diversas na sociedade, se vê a braços diariamente com a contradição de querer transformar a realidade e ter de fazer no seu quotidiano concessões à realidade que combate. Não acredito que se possa, por exemplo, viver do comentário político na comunicação social, sem estar a salvo da plausível crítica de se estar a participar num sistema de propaganda, desinformação e censura (mesmo misturando nele a  – sua –  verdade). Não acredito que se possa trabalhar num jornal sem calar algumas verdades. Ou estar desatento a elas. Ou fabricar um discurso minimamente articulado que legitime a exclusão de um certo tipo de verdade.

Contudo, nunca me passaria pela cabeça censurar alguém, familiar, amigo ou desconhecido, por trabalhar nos empregos desta vida. Ou por ser privilegiado num mundo de miséria. A crítica política, e mesmo a raiva e a indignação devem ser apontadas ao seu lugar certo. Há zonas da vida das pessoas que devem ficar a salvo. Há muito poucas pessoas neste mundo que me inspirem desprezo. E as que há não são necessariamente meus inimigos políticos.

O que é estranho nesta guerra ao 5 Dias é que os seus protagonistas usam dos exactos processos que dizem criticar: generalizam, passam atestados morais, usam imagens rasteiras dos outros e deturpam o que se diz ou tenta dizer.

É evidente que se trata de um ataque ao 5 Dias, mais do que uma crítica ao António Figueira. Aponta-se o António Figueira, mas oculta-se quem ele é, o que verdadeiramente escreve e pensa, recorre-se a argumentos que tratam o 5 Dias como se tivesse pensamento único e o António como se ele fosse responsável por tudo o que aqui se escreve. O truque é tão básico que só pode decorrer de uma falha momentânea de discernimento ou carácter.

Ora, eu não me lembro de alguma vez o António Figueira ter perpetrado ou interpretado as malfeitorias descritas no post que me implica também a mim, como a outros que aqui escrevem.

Mais ainda: a descrição que é feita do 5 Dias – blogue que não é nem um partido, nem um clã, não tem, portanto, nem coesão nem solidariedade política interna – a descrição que é feita do 5 Dias e da sua pretensa moral, conduta e pensamento só pode ser pouco séria. Eu não fabrico, não congemino cocktails molotov, nem montras partidas. Sou um revolucionário na medida em que desejo a transformação radical da sociedade, e trabalho muito para ela, mas não encaixo no retrato pateta e fácil com que se descreve o 5 Dias. Nem dou a ninguém o direito de o fazer.

Este “não dou o direito” parece não valer muito nos dias que correm. Mas é por isso mesmo que, afinal, para mim, vale imenso.

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20 respostas a Chamo-me Pedro Penilo e não gosto de fazer cocktails desses

  1. Maria Silva diz:

    CHEGA! TENHAM VERGONHA!

  2. rg diz:

    Isto é tudo uma grande palhaçada. O AF foi nomeado, como poderia ter sido pessoalmente contratado ou através de empresa sua ou de outrém. Sendo nomeado viu o seu nome no DR, se tivesse sido contratado seria mencionado no portal de compras. De uma forma ou outra o serviço a prestar é rigorosamente o mesmo. Dezenas de militantes do PS e do BE são contratados directamente por membros do Governo para prestar serviços na área da sua especialidade e ninguém se insurge por causa disso. nada justifica este ataque que não é político mas ad hominem ao AF.
    Justifica-se que os escrivas deste blogue assumam as posições que assumem.

  3. Manuel diz:

    Pedro Penilo:
    De facto, não há melhor maneira de continuarmos empenhados em mudar profundamente o mundo senão alimentarmos as suas misérias.
    Algum dia elas serão tantas que o mundo se autodestruirá, poupando-nos a esforços colectivos e a disciplina pessoal.
    Levantamo-nos então do nosso sofá onde confortavelmente (e interesseiramente) usufruímos dos «bons frutos» deste mundo imundo e partimos com o peito ao vento a rebentar de felicidade para viver o «novo velho mundo», pois levamos a carteira bem recheada

    • Pedro Penilo diz:

      Caro Manuel, dito assim, parece algo que poderíamos todos subscrever. Esse é o problema.

      Os únicos nomes citados são o meu e o seu. Quanto a mim, posso assegurar já que me encontro sem trabalho no preciso momento. E, em consequência disso, a carteira não está cheia.

      Luto contra políticas que sustentam o sistema de exploração e os seus responsáveis. Creio que é nesse plano que a luta política deve ser feita.

  4. Kid Karocho diz:

    Mais um laranja encapotado

  5. xana diz:

    Sinceramente, foi o post mais decente q li sobre este assunto.
    Espero reencontar-te em breve 😉

  6. De diz:

    Pedro Penilo:
    Um óptimo post.Parabéns
    E passemos à frente que isto já enjoa.
    Porque é nesta teia pegajosa que nos querem enredar.
    A todos.
    Ao 5 dias.
    A cada um de vocês individualmente
    Enquanto lá na Líbia se dão prémios pelas cabeças sob a batuta de tropas especiais inglesas,
    ou no Chile onde se vive uma jornada histórica.
    e por cá se corta no transporte dos doentes.

  7. LAM diz:

    Pedro Penilo, vamos por partes. Se há alguém, enquanto blogger do 5dias, que sempre defendeu as suas opiniões sobre qualquer matéria com a maior correção foi o António Figueira, que não me lembro nunca de ver insultar ou recorrer a golpes mais baixos nos seus argumentos. Ou seja, se há alguém (e sem desprimor para mais uns quantos), que não devia ser confundido com alguma deriva trauliteira que às vezes passa por aqui, esse alguém é o António Figueira.

    Mas há o outro lado e é isso que tem levado a que, legitimamente em minha opinião, o 5dias seja responsabilizado como um todo por outros bloggers: as tais derivas super-híper revolucionárias de urinol, de demagogia e insulto fáceis e patéticos, de alguns dos seus membros a outros bloggers ou comentadores (como é exemplo entre outros o caso de D.O. em que sistematicamente, por parte desses membros do 5dias, é tratado o trabalho e a profissão como uma colaboração activa com o inimigo de classe), nunca teve a desaprovação dos outros membros do 5dias. Às vezes por apoio explícito, outras por omissão objectivamente cúmplice, nunca os outros membros do 5dias intervieram a demarcar-se quando as coisas (e são muitas vezes) atingem essas proporções.

    Pode-se argumentar que não têm de se pronunciar sobre o que outros escrevem, mas não se pode de deixar de notar o espírito de irmandade surgido agora, que um dos seus membros, ou a opção profissional (ou política até, não é isso que está em causa agora) foi posta em causa, em que surgem em fila a defender a honra do estabelecimento. Se alguns desses membros do 5dias tivessem acordado mais cedo, e se se tivessem lembrado antes dos argumentos éticos que agora invocam para a defesa de um dos seus, de certeza que a imagem do 5dias não teria ficado associada aos poucos que a denigrem.
    É a vida, “quem com ferros mata…”

    • Pedro Penilo diz:

      Caro LAM

      Creio que estou de acordo consigo e não acrescentaria mais nada de verdadeiramente essencial.

      Entretanto, embora pareça um subterfúgio, a minha vida de facto não é isto e cansa-me dedicar o meu pouco tempo a discussões de má qualidade. Não sou, de facto, obrigado a pronunciar-me sobre tudo o que aqui se diz. E estaremos de acordo que, não sendo um blogue um partido, o meu silêncio não pode ser interpretado como concordância ou discordância.

      Falo apenas por mim. Este meu post tem como intuito único impedir um ataque genérico e simplista a mim e a quantos aqui defendem pontos de vista diferentes, embora num campo político determinado. Nunca escrevi posts de solidariedade com ninguém, pois acredito que, por princípio, os que decidem escrever publicamente a si se bastam e devem responder por aquilo que são e afirmam. Não teria escrito este post se: a) não tivesse sido incluído pela crítica geral ao 5 Dias; b) se os ataques ao Figueira não tivessem atingido uma escalada e um tom absurdos, ainda por cima baseados em pressupostos falsos, como o LAM reconhece.

      Mas aceito que a qualidade do 5 Dias deve e pode melhorar. Eu também deveria contribuir para isso.

      • Carlos Vidal diz:

        LAM, vamos a ver:

        Quando me lê sobre artes, ou quando me pede para republicar textos meus sobre artes em determinados lugares,
        está a pedir “derivas super-híper revolucionárias de urinol, de demagogia e insulto fáceis e patéticos” ??

        Já agora, refere-se a quem?
        É que se aqui há “hiper-revolucionários de urinol” não são de urinol, não senhor. Qualquer texto “hiper-revolucionário de urinol”, neste blogue, que eu tenha dado por isso, é sempre fortemente fundado.

        Viu aqui outro tipo de coisa, foi? Ausência de fundamentos?
        Ou fala assim porque discorda?
        E se discorda, chama a tudo o que discorda de “urinol”?

        Espero esclarecimentos.
        C Vidal

        • LAM diz:

          Não entendo o que uma coisa tenha a ver com a outra mas confirmo o que diz sobre os seus textos sobre artes: aprecio muitos deles a pontos de já lhe ter pedido para os replicar noutros lugares e ser, tanto quanto tenho acompanhado, um leitor não de alguns mas creio que de todos aqui publicados.

          O Carlos doeu-se, compreende-se.

          O problema nem estará na verdade ou inverdade do que às vezes é publicado e que criou e estendeu essa imagem a todo o coletivo do 5dias. Que verdade haverá numa opinião para além da indesmentível verdade do seu autor? Nem nos fundamentos que levam à escrita do post. São as extrapolações desmedidas e acintosas que, perdendo a noção da (muitas vezes justa) raiz política que os motivou, descambam em associações injuriosas à integridade dos visados, da sua profissão ou ganha pão. (Não me peça para catar os casos em que isso aconteceu – deus me livre!). É esse Carlos, é esse ímpeto juvenil (p.f. tome isto como um cumprimento), que às vezes borra a pintura.
          E isso, como saberá melhor do que eu, tende a escorrer pelos comentários e o Carlos também aí, embalado, tem tendência a tomar partido pelas caixas de ressonância que afinam pelo mote dado (não pela conversa mas pelo insulto e arrogância), vetando os comentários de quem lhes entende responder, como se recordará, razão pela qual desde aí e fazendo tanta falta como uma viola num enterro, deixei de comentar em qualquer post seu (tudo bem).

          Voltando ao urinol, Carlos: quando um gajo mija de chuveirinho dificilmente deixa de molhar as próprias calças e sapatos. Foi isto que aconteceu ao 5dias e que, apesar da ginástica e esforço de rins tentados há uns posts atrás pelo Nuno R. Almeida, torna complicado, agora que era preciso, algumas justificações.

          cumprimentos.

          • Dédé diz:

            LAM
            O tipo de intervenções do Vidal não é melhorável, mesmo que ele tentasse arredondá-las perdia todo o interesse: É amá-las ou deixá-las.

            Pedro
            Ainda há por aí muita gente na fila para vir defender o Gravilo Princip português?

          • Carlos Vidal diz:

            Não percebo nem quero perceber a última parte:
            parece que não se deve defender uma mudança total da sociedade (ou seja, “mijar de chuveirinho”), mudança e não “reforma”, disse eu, porque podemos vir a precisar de qualquer coisa e depois tramamo-nos, é isso?
            Então, o melhor é meter a viola no saco e calar (ou falar baixo). OK! Percebo.

            De qualquer modo, repito, a “revolução hiper de urinol” pertence a muitos, é desejo e programa de muitos desta casa. E é fundamentada e não gratuita na sua formulação.

            E discordar dessa revolução não permite, automaticamente, chamá-la de “urinol”.
            Etc.

          • LAM,
            Com todo o respeito, não percebo a alusão ao golpe de rins.
            1. O post do Daniel e a campanha do Arrastão é obscena, pq pretende a pretexto da profissão do António Figueira desqualificá-lo como pessoa e, de passagem, eliminar o 5 dias.
            2. Os argumentos Ferreira Fernandes que se alguém se opõe ao capitalismo tem de viver numa comuna socialista no deserto, fabricar o seu pão e fazer as suas roupas são pouco sérios.
            3. Não gostando eu do exercício da violência verbal em certos posts, acho que isso pode ser discutido sem colocar toda a gente no mesmo saco.

  8. Pedro Góis Nogueira diz:

    O António Figueira foi trabalhar para o Relvas e por inerência para este Governo. Ponto. Não dêem mais cambalhotas. Só se enterram. Já só vos falta dizerem que ele não se vendeu por dinheiro nem nada. Para o Relvas, caramba. Repito, para o Relvas…

    • Ibn Erriq diz:

      Não perca tempo, para eles é igual até podia ir trabalhar para a Merkel, usariam os mesmos argumentos!

      Já estão habituados ….. Se necessário for até defendem a teoria do geocentrismo, com a mesma candura e falta de vergonha!

  9. closer diz:

    Já vinha pouco a este blog. Com este lavar de roupa suja, a vontade é cada vez menor…

    Quando quiserem discutir alguma coisa com interesse, telefonem-me…

    • Pedro Penilo diz:

      Closer, espero que perceba que este “lavar da roupa suja” não partiu do 5 Dias. E espero que perceba que as pessoas que aqui escrevem têm o direito de se defender.

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