Flash Paredes de Coura 2011

O festival de Paredes de Coura tem um encanto especial. Está situado numa vila que recebe os visitantes com simpatia, tem um palco principal situado num anfiteatro natural idílico e uma acústica e uma logística de som impressionantes. Por outro lado, não há uma ambição desmedida de fazer o espaço rebentar pelas costuras e, salvo alguns pormenores (o défice de caixas multibanco, por exemplo), dá boas condições aos festivaleiros e, em comparação com outros festivais, não lhes exige sacrifícios para ouvirem as bandas que lhes interessam. E, pasme-se, permite mesmo que se ouça música com qualidade e não se preocupa em criar um campo de férias ou um parque de diversões. Tratando-se de um festival musical, faz diferença. Por outro lado, o público que se desloca a Paredes está genericamente interessado nas bandas e, apesar de ser exigente, sabe respeitar o que se passa no palco, independentemente das variações de ritmo e de estilo que por lá vão passando.

A juntar a isto e depois de alguns cartazes bem fraquinhos, a proposta deste ano era de uma riqueza impressionante, pelo que tudo se encaminhava para uma um fim-de-semana (e mais uns pozinhos) memorável. O resultado confirmou todas as expectativas: um dos grandes festivais de sempre em Portugal e, por muito, o melhor em que alguma vez já estive.

Eis breves notas sobre alguns concertos:

Omar Souleyman  – O mestre de cerimónias da Síria tem uma mística própria, comunicando com o público por gestos enquanto interpreta os seus temas. Existe um speaker para compensar o desconhecimento do inglês de Omar. As batidas e os teclados orientais que o acompanham são tão parolos, quanto irresistíveis. No fundo, terá sido por concertos como este que surgiu a expressão “dar a volta”. ****

Wild Beasts  – Embora visto ao longe, pareceu interessante o espectáculo da banda britânica, marcado pela voz peculiar de Hayden Thorpe (com alguma semelhança com Patrick Wolf) e por um som que se aproximou bastante de uns Arcade Fire mais calmos e sem violinos. Contudo, foi prejudicado pela loucura instalada minutos antes por Omar Souleyman. ***

Crystal Castles – Acredito que quem tenha visto o concerto mais perto tenha uma outra impressão, mas como isso foi extraordinariamente difícil para muitos (talvez o maior erro da programação, colocar um nome com tanto hype no palco secundário, no dia do warm up), o efeito da voz estridente e diria demasiado descontrolada da frenética Alice Glass acabou por prejudicar bastante a electrónica forte e frequentemente ruidosa dos Crystal Castles.**

Crystal Stilts – Algures entre os Suicide e os Joy Division, entre a no wave nova-iorquina e o post-punk britânico, a banda americana mostrou-nos temas rock carregados de nervo e intensidade. Contudo, a falta de carisma do vocalista Brad Hargett (pode ser estilo, mas até para isso terá faltado atitude) diminuiu um pouco o impacto do concerto. ***

Twin Shadow – Com um soundcheck feito a minutos do início do concerto, notou-se demasiado nos primeiros temas algumas falhas de som (uma raridade ao longo do festival). Depois, em crescendo e com o requinte electro-pop 80’s de Forget a adquirir uma surpreendente cadência mais rock, com guitarras em franco destaque,  o resultado tornou-se irresistível e o primeiro grande momento do palco principal. ****

Warpaint – Dentro do fenómeno festivaleiro pop/rock, só em Paredes as Warpaint poderiam mostrar a sua sonoridade emotiva, próxima do post-punk mais melancólico, com o público globalmente em silêncio e respeitando os momentos mais introspectivos. Só foi pena que as vozes das 3 meninas (baterista à parte) tivessem tantos efeitos. De forma natural, teria sido ainda mais mágico e facilmente teríamos desculpado uma ou outra desafinação mais notória. ****

Blonde Redhead – Depois do tiro no pé que foi a frieza electrónica de Penny Sparkle, a léguas da beleza etérea dos discos anteriores pela 4AD, temia-se um pouco por este concerto. Contudo, com um alinhamento equilibrado, incluindo uma incursão pelo passado mais cru e vários temas de 23 e Misery is a Butterfly, e os temas novos a resultarem melhor ao vivo do que se esperava, o resultado foi bem mais intenso e menos insosso do que se poderia desconfiar. Ainda assim, pena que a vocalista Kazu Makino aparentasse estar tão ausente e desligada da música. ***

Pulp – Efeitos de laser, mensagens ridículas para o público antes da entrada em palco, o  irresistível humor freak de Jarvis Cocker, os parabéns a Aphex Twin… O concerto dos Pulp podia ser um mero desfile imparável de êxitos, mas não: teve também uma forte componente de espectáculo. E depois, com a qualidade de temas como “F.E.E.L.I.N.G.C.A.L.L.E.D.L.O.V.E”, “Mis-Shapes”, “Babies” ou “This is Hardcore”, o regresso da lendária banda britânica dos anos 90 só poderia ser inesquecível. ****

Delorean – Enquanto não apresentam temas novos, os bascos voltaram a mostrar o poder dos temas de Ayrton Senna e Subiza e porque são o lado mais vibrante do chillwave (já o faziam muito antes do rótulo ser inventado). Pena que muitos ainda estivessem na ressaca do grande concerto dos Pulp, óptimo para os que fizeram rapidamente a transição para o After Hours, a tempo de se deixarem levar pela enorme cumplicidade entre público e banda (destaque para o teclista), a culminar um dia musical inesquecível. ****

Battles  – A banda podia-se ter ressentido da saída do vocalista e guitarrista Tyondai Braxton, mas não. Gloss Drop é um excelente álbum e ao vivo a banda esteve impressionante, atacando cada instrumental de forma frenética, com destaque para um baterista do outro Mundo. Foi pena apenas que os temas com a voz projectada de Makino (Blonde Redhead) e Matias Aguayo não tenham resultado tão bem, principalmente com os pouco eficazes improvisos finais. Compensado pelo bombom “Atlas”, o tema de  Mirrored que marcará para sempre o percurso da banda. ****

Deerhunter – Era um dos concertos mais aguardados do festival e não defraudou as expectativas. Com um alinhamento dividido entre os vários discos, incluindo passagens pelo início de carreira mais experimental, a banda de Bradford Cox teve uma prestação irrepreensível, quase shoegaze em termos de som. Contudo, quando terminam uma versão longuíssima e deliciosa do fabuloso “Nothing Ever Happened”, que incluiu travos de versão de “Horses” de Patti Smith, abandonam o palco de forma surpreendente. Tinham passado apenas 40 minutos desde o início, deixando um certo amargo de boca por ter sido tão curto. ****

Kings of Convenienc – O público de Paredes não é só um público rock, é gente que gosta e/ou respeita a boa música. Isso foi evidente em muitos momentos, mas principalmente na actuação dos Kings of Convenience. O concerto não é tão intimista como se pensa, porque a acompanhar a música da banda norueguesa há o dom de comunicação nerd de Erlend Oye (não tão delicioso como no Coliseu, há dois anos). Todavia, acredito que a fragilidade folk dos 3 discos dos KoC, a que se juntou a já habitual versão de “Corcovado” de Tom Jobim, seria facilmente desprezada noutro festival. Muito bonito e o momento espiritual Paredes 2011.  ****

Metronomy – Que furacão e que contraste com o concerto dos Kings of Convenience. Aquilo que os noruegueses tiveram de beleza absorvente, os britânicos tiveram de festa e dança irresistíveis. Não só nos temas mais electrónicos de Nights Out (estava difícil, mas estou convertidíssimo a este disco), mas também no lado mais pop de Verão do último The English Riviera, como se sentiu em “The Bay” ou em “The Look”. Se acrescentarmos uma cumplicidade com o público ainda superior à dos Delorean no dia anterior, temos entrada directa para a lista dos concertos do ano em Portugal e o fim de mais um dia imaculado em Paredes.  *****

Kurt Vile – Apesar do início mais lento (a solo), a música de Kurt Vile revela-se bem mais ruidosa em concerto do que a mistura de country, folk, blues ou rock dá a entender em disco. Há um baterista em destaque e a voz de Vile é impressionante, mas fica a ideia que a música do nativo de Filadélfia funciona melhor em casa do que ao vivo. Ou isso ou a sensação teria sido outra se Kurt Vile tivesse actuado no palco principal.  ***

Two Door Cinema Club – Os irlandeses não têm o talento nem a vibração de uns Vampire Weekend, nem sequer aquele lado irresistivelmente (e falsamente) teenager de uns Pains of Being Pure at Heart no seu primeiro disco. Ao vivo, também não são das coisas mais espectaculares do Mundo. Mas o concerto acabou por ser divertido e fez as delícias de uma grande legião de fãs que cantou e saltou com temas como “What You Know” ou “I Can’t Talk”. ***

Mogwai – O festival estava ser inesquecível, com uma boa mão cheia de concertos brutais. A liderar a minha lista, talvez os Metronomy… até ao concerto dos Mogwai. Entre o ruído melódico (é mesmo verdade) de “Rano Pano”, o lado mais etéreo e tão tão bonito de “2 Rights Make One Wrong” ou “Killing All Flies” (com a deliciosa vocalização com vocoder), a beleza sonora e visual de “How to be a Werewolf” (com a projecção do vídeo) ou a explosão final com “Mogwar Fear Satan” ou “Batcat”, o arrepio emotivo foi constante, a magia passou pelo palco e a banda escocesa mostrou porque é ímpar a reinventar o post-rock. Se não superou o espectáculo da Aula Magna de 2009, foi porque a duração mais curta não o permitiu *****

Orelha Negra – Depois do Sudoeste 2010 e Alive 2011, os Orelha Negra voltaram a um grande festival. Tendo-os visto das duas vezes anteriores, já não há grandes surpresas no alinhamento, o que não significa que o impacto da música do grupo português diminua. Entre os travos soul, funk e hip-hop dos originais e os samples (de Beyoncé a Prodigy) deliciosamente reciclados (seja através de adulteração directa, seja acrescentando baixo e bateria), foi um belo fecho para Paredes 2011. ****

        Algumas notas finais:

– Para além dos concertos anteriores, houve também os para mim demasiado pesados Trail of Dead, Death From Above 1979 ou No Age, que pouco ou nada vi. Pelos elogios que ouvi, fiquei com particular pena de não ter espreitado sequer os No Age no palco secundário. Terá também havido algumas boas surpresas entre os nomes menos conhecidos.  Destaco Esben and the Witch. Vi apenas 10 minutos, entre dois concertos do palco principal, mas pareceu-me bem interessante o som próximo de umas Warpaint mais góticas e menos melodiosas e com um timbre muito bonito da vocalista.

– Do ponto de vista da programação do festival, poucas são as criticas a fazer. A mais clara diz respeito aos DJ sets, completamente desfasados do espírito do festival. Colocar cenas ultra-fortes, mas com interesse musical perto de nulo (fica na memória as remisturas de “Otherside” dos Red Hot ou “Smells Like Teen Spirit” dos Nirvana – arrepia de mau só de pensar nisso), ainda para mais após concertos tão incríveis quanto os de Delorean, Metronomy e Orelha Negra, não faz nenhum sentido. Como a programação dos DJ sets foi paralela, é fácil perceber onde esteve o problema e tentar resolvê-lo em futuras edições. Para triparia sem nexo, já basta o “bar do trance”.

– As abelhas até ao final da tarde, que praga impressionante…

– Como referi, não tenho dúvidas que este foi o melhor festival em que estive presente. Mesmo comparando com a outra vez em que estive em Paredes de Coura (2009), este foi inequivocamente superior (o cartaz desse ano era fraquinho). Fica o meu voto que a aposta na qualidade se mantenha em 2012. Ao contrário do público genérico de outros festivais, o de Paredes sabe reconhecer esse esforço.

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