OUTRA VEZ, CONTINUEMOS…: “Mais ce qui est liquidé, il faut encore le détruire”: é isto e não outra coisa que está em causa em Londres

Certamente o sistema continuará sem prazo, sem fim doravante, nem mesmo o do seu apocalipse. Uma vez que o apocalipse já lá está instalado desde dentro, sob a forma de inexorável liquidação de toda a civilização, talvez mesmo da espécie. Mais ce qui est liquidé, il faut encore le détruire. E o pensamento e o acontecimento partiram ligados através desse acto de destruição simbólica. (Baudrillard)

É isto e não outra coisa. Quem quiser que continue a gritar e a chorar em defesa do “estado social”. É o pior que agora se pode fazer: é a tarefa do Arrastão, Jugular e quejandos. Não de quem pensa (e tenta pensar).

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20 respostas a OUTRA VEZ, CONTINUEMOS…: “Mais ce qui est liquidé, il faut encore le détruire”: é isto e não outra coisa que está em causa em Londres

  1. Jorge diz:

    são revoltados, não revolucionários. isto para ser simpático porque não sei se estes motins não são tipo o reichtag em chamas. destas merdas sem sentido ou com um sentido estético para quem vê aceleramentos onde as massas vêem pretexto
    para guinarem-se para a extrema direita só dá um resultado: dez passos atrás

  2. Jorge diz:

    naturalmente. daí a tua análise estar invertida.

    • Carlos Vidal diz:

      Não estou a entender como gostaria.
      Comecemos do princípio:
      O que é que, substancialmente, distingue Watts de Londres/2011 ?
      Watts era a Califórnia e LA que tudo prometia, mesmo com apartheid. Londres/2011 (Cameron) é a retirada de tudo (como diz Baudrillard, noutro tema: é a retirada da própria civilização – por Cameron e amigos).
      Então Londres até está mais justificado que Watts……
      (Continua)

  3. Jorge diz:

    volto a insistir. a tua análise está invertida. a reacção de “londres” é espectacular. os incendiários já leram debord.

    • Carlos Vidal diz:

      Os incendiários ou nós?

      Ou será que queres dizer que os incendiários de Londres já “leram” as consequências de Watts?
      Terão mesmo “lido”?
      (Tentei mostrar que as situações não são comparáveis.)

  4. Jorge diz:

    devem ter lido e os que não leram pelo menos cresceram vendo o big brother e afins. sabem bem como funciona o espectáculo. mas ainda não deixei de parte a hipótese de sabotagem por parte do poder. que esse sim, leu o debord de certeza

    • Carlos Vidal diz:

      Há aqui uma incompreensão de raiz, julgo eu.
      Textos revolucionários e de emancipação social existem desde Saint-Just, Proudhon ou Marx, não é preciso avançar até ao último meio século, a Debord. O que vem de Debord (que relê Feuerbach e Marx) é o conceito de “espectáculo”, prolongamento do conceito de fetichização da mercadoria marxiana (Marx que diz neste processo “não existir um átomo de verdade”, como se sabe). De Debord vem o conceito de espectáculo junto a uma atenção e leitura erudita de todos os clássicos da estratégia, desde Gracián a Klausewitz (mas também Tucídides, etc.). Agora, coloca-se aqui um problema, a que eu atrás chamei de incompreensão: todas as revoltas sociais a aparecerem, aparecem agora depois de tudo isto que eu referi (ou, se quiseres, referimos, conhecemos). O que é que isto significa?
      Que as lutas de emancipação parem?, porque os poderes, paradoxalmente, estão cada vez mais bem informados pelos teóricos radicais e críticos? Se os motins de Londres ou, há poucos anos, de Paris são suspeitos por serem reduzidos ao “espectáculo”, não residirá aí uma suspeição genérica por todo e qualquer tipo de insurreição?
      Portanto, portanto, como se sai disto??

      • Jorge diz:

        é esse o ponto fulcral da questão. e agora sim a discussão pode tornar-se interessante. Quanto à análise do Debord sobre os acontecimentos de watts, parece-me uma tentativa esforçada de colar o seu aparato teórico a acontecimentos reais, neste caso os motins de watts. no entanto não deixa de ser quanto a mim um exercício idealista, esquerdista até. para quem luta sinceramente contra o capitalismo tem sempre uma espécie de contentamento quase pavloviano quando insurreições deste tipo afrontam os poderes instituídos. No entanto a minha ingenuidade já deu muito do que tinha a dar. O Kurt Cobain dizia numa cantiga “lá por seres paranóico não quer dizer que não andem mesmo atrás de ti”.
        O grande problema das revoltas espectaculares (nos anos 60 o problema já se colocava, agora então, com a perversidade crescente do capitalismo, não podemos mesmo fingir não ser um problema, temos antes de colocá-lo como contradição fundamental a resolver) é serem cada vez mais um espectáculo dentro do espectáculo, o grande espectáculo incendiário da revolta (debord românticamente dizia, os revoltados incendeiam edifícios para iluminarem a sua festa).

        Perante toda uma revolta caótica (na sua aparência) é hoje muito fácil (facílimo!) dominar as suas consequências em favor da ordem estabelecida. É aliás o que está a acontecer agora com os acontecimentos em Inglaterra e antes em França.

        A questão estratégica de alcançar uma unidade o mais alargada possível que permita revoluções que derrubem de facto o capitalismo dá dez passos atrás com estas espectaculares e aparentes revoltas. Daí eu dizer que sim, tenho uma suspeição genérica por este tipo de insurreições espectaculares. Dividem mais do que unem, reforçam a opressão mais do que a subvertem.
        Como se sai disto? é uma variante da famosa pergunta “que fazer?”.
        Como marxista – leninista respondo que só poderemos avançar seguindo três orientações fundamentais 1- organizar 2- organizar 3- organizar. É da luta organizada que poderão surgir revoluções firmes. Não é por acaso que esta tipo de luta verdadeiramente revolucionária nunca se deixa espectacularizar, ou pelo menos o poder nunca a espectaculariza porque também ele sabe que ao fazê-lo estaria a correr grandes riscos. Por isso esta luta avança lentamente mas firme.

        • Carlos Vidal diz:

          Também eu acho que é este o ponto fulcral da questão: a estratégia, a organização, a eficácia. Mas também a mobilização, o desejo (um tema dos anos 60) de mobilização e a urgência no acordo de não apenas reformar, mas mudar e, sobretudo, como gosto de dizer e terá de ser assim acordado, transfigurar a sociedade (o mundo).
          Sabemos entretanto os dois que Lenine não disse “organizar, organizar, organizar”, mas antes “estudar, estudar, estudar” – de onde saiu precisamente, desse estudo intenso, o “Que fazer?”.
          Agora, parece-me que tens de saber distinguir entre uma revolução ou insurreição espectacular e uma insurreição espectacularizada, que é o caso de Londres (ou França), porque, como diria Debord, “o espectáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autónomo do não-vivo”, o espectáculo é a sua própria finalidade, o seu autoconsumo: assim sendo, tudo é espectacularizado, além da vontade dos intervenientes, e se tudo se torna espectáculo, tudo se torna não-vivo, ineficaz. Daí a minha questão, refazendo Lenine, “como sair disto?”
          É organizando, certo, também eu vou por aí, e pelo marxismo-leninismo, pois já aqui tentei demonstrar (em polémica com um indivíduo do “Vias de Facto”) que o marxismo sem leninismo (sem o hífen de que não abdico) é uma forma esvaziada de messianismo, uma redução da transformação social à fantasmagoria (sempre e em permanência adiada – uma espectrografia, que o Marx também admitiu essencial no Manifesto, mas não um factor único, e talvez tenha sido esse o erro do livro de Derrida sobre Marx).
          Concordando nós dois no essencial, há uma questão que gostaria de colocar: em termos de “informação” prestada aos poderes, o que diferencia o romantismo de Debord do proposto por Lenine?
          Ambos os trabalhos e estudos chegam às sedes do poder, não é verdade?
          Aí, entra Badiou: o acontecimento, a produção do inédito, daquilo que chega ao poder, à ciência, às ciências humanas, às polícias, mas ao qual nada responde, o conhecimento não acede.
          Teorias evenementais (ou teorias que são “acontecimentos”) em Badiou: precisamente, o “Que Fazer?” e “Sobre a justa solução das contradições no seio do povo” de Mao.
          Badiou não cita o texto de Debord, não o cita. Mas este também não era um texto organizacional: era um texto de análise e de análise da organização. O de Lenine era de análise e de organização.
          Mas a minha questão mantém-se: ou se produz (involuntariamente) o inédito (o PREC foi isso mesmo, ele não estava escrito ou prescrito pelo 25 de Abril, o PREC foi o verdeiro 25 de Abril!), ou tudo o poder pode espectacularizar e descodificar em seu proveito.
          Ou não será assim??

          • Jorge diz:

            as conquistas feitas com o 25 de abril foram precisamente o resultado de anos e anos de organização, de uma luta que se fez por etapas, organizando e consciencializando dirigentes e massas em torno do objectivo de “tomar o poder” e “construir o socialismo”. A reforma agrária é um belo exemplo disso e muitos outros haveria a dar.

            Houve muita minagem, muito dos atrasos deveram-se precisamente à espectacularização e à histeria protagonizadas pelas minorias esquerdistas cúmplices dos interesses da direita (uns por ingenuidade outros por orientações concretas).

            Não concordo portanto com a tua tese de um PREC involuntário. Foi o contrário.

            Agora lenine e debord. Penso que existem diferenças substanciais. o debord sempre se pôs à parte, numa tentativa por ele assumida de tentar influenciar organizações revolucionárias sem se conspurcar com as dificuldades inerentes à organização. Produziu material teórico e colocou-se de fora de qualquer organização à espera. Envaidecia-se até ao dizer que não tinha deixado nenhum manual para qualquer espécie de totalitarismo (não serão estas as palavras, mas não devem andar longe).
            O lenine é de outra estirpe. Produziu também imenso material teórico mas a sua tarefa fundamental foi organizar a acção prática, não de fora, mas no centro das organizações e movimentos revolucionários. É outro tipo de coragem mas isso cada um dá o que pode dar.
            No lenine nunca entrevi qualquer romantismo nas suas análises, erradas ou não. Mas é possível que se encontre, ninguém está livre de tais males.
            Em relação à informação prestada aos poderes, bom, não me parece que muito haja a fazer, c’est la vie, nós também lêmos o fukuyama, richard florida e afins. estamos em guerra, temos de saber como pensa o inimigo.

            E de facto o messianismo que pode transformar-se o marxismo sem leninismo, é precisamente uma das grandes críticas que faço ao movimento (ou como queiras chamar) situacionista. Há sempre qualquer coisa de os “grandes eleitos” escolhidos pela razão no tom de uma boa parte dos seus protagonistas e aí talvez o debord seja o que melhor se tenha defendido deste mal (apesar do seu “Panegírico” e outras soberbas).

            Voltando à vaca fria, do como sair disto. Organizando, participando activamente na organização de uma unidade alargada em torno de objectivos concretos. Em Portugal isso faz-se com o PCP.

            O desejo da mobilização, da urgência. Também eu tenho esse desejo, quanto mais rápida for a transformação melhor. Mas do desejo idealizado à matéria concreta com que se fazem as revoluções há uma distância grande que teremos de percorrer com mais e cada vez mais unidos.

          • Carlos Vidal diz:

            Eu falei numa produção involuntária do inédito e disse que o PREC não estava escrito nos pressupostos do 25 de Abril. Talvez devesse ter dito “produção de desfecho imprevisível”. De resto, concordo com o facto de se ter caminhado para o PREC depois de muita luta organizada.
            Mas o alcance do PREC teria de ser imprevisível, não podia ser adivinhado/gizado em todos os seus contornos. Isso é tarefa do termidoriano: antecipar a sequência de acontecimentos (ou “o” acontecimento). Foi isso que fez Mário Soares: com o apoio da CIA (que, hoje, sem vergonha, claro, usa na lapela) disse que as movimentações populares iriam acabar de certa maneira (no jargão dele: no “totalitarismo”). Quem trai o acontecimento, antecipa-o, mente e diz “vai ser assim”. Quem está no acontecimento, junta o seu saber à luta do momento. Imprevisível. Não há futurologia/astrologia certa na luta pela emancipação.

  5. Justiniano diz:

    O que aqui o caro Jorge diz “Perante toda uma revolta caótica (na sua aparência) é hoje muito fácil (facílimo!) dominar as suas consequências em favor da ordem estabelecida.” é bem verdade, mas esquece aquilo que o nosso amigo Debord aprendeu (como a sociedade, o Governo e as polícias) dos motins de watts e de muitos outros em outros lugares deste mundo próspero e desenvolvido economicamente (Caro Jorge, não confundamos o Debord com um ingénuo vendedor de fantasmas). O ponto, verdadeiramente, relevante neste caso, e em França recentemente, é a reacção quase recognitiva daquilo que se produz hoje em dia. Da desistencia em pensar, em dissimular, em desacreditar e em iludir!! Prendam-nos, matem-nos, isso é um problema de extermínio da escumalha!! A redutora mediocridade alcançou o “standard” do pensamento contemporaneo!! A “nossa” reacção vai muito para além da misantropia admissível, atinge a pura e absoluta capitulação, sucumbencia, aparentemente!! O discurso crítico acerca da produção deste “espectáculo” é de puro desdém. Algo a que nem o fascismo concederia!! É um absoluto vazio, um clichet medonho!! Matem-nos, façam-nos desaparecer!!
    Será assim!? Estarei a exagerar!?

    • Carlos Vidal diz:

      Não creio que o Justiniano esteja a exagerar minimamente, nada mesmo.
      Ao ver hoje, num telejornal, uma suposta e autodenominada brigada de “autodefesa” (composta por holligans que já destruíram talvez mais numa hora de magia futeboleira que estes insubmissos em três dias) dizer ao que vinha, percebi imediatamente isso: matem a escumalha, porque eles não aceitam o que para nós é vida (submissa) – porque nós, os da autodefesa, temos uma noção de vida única, de obediência única de que não abdicamos, nem abdicamos da nossa miséria, de poder cantar em coro nos estádios, etc., etc.
      É a imbecilização planetária a triunfar a toda a velocidade.
      E é aqui que os insubmissos fazem a diferença. Mesmo desorganizados, ou por isso mesmo.

      • Justiniano diz:

        Pior doque isso, caríssimo Vidal!! Ouvem-se tiradas (sempre se ouviram, é verdade, mas com algum constrangimento, diga-se), não das “autodefesas”, mas, à boca cheia, da chamada “classe média proletária”, burguesia proletária ou não, de “fazedores de opinião”, proletarizados ou não (não sei nem me interessa), à descarada, desembraiados, desmedidos, arrotadores de sentença desmeditadas, que, verdadeiramente, dizem o mesmo, pensam o mesmo e, mais grave, sentem o mesmo!!

        • Jorge diz:

          Daí estas insurreições (desorganizadas? organizadas? desorganizadas por quem? organizadas por quem?) serem uma prenda para a extrema direita. Ainda ontem a meio de uma média numa taberna aqui da minha cidade, dois trabalhadores conversavam sobre o assunto. a sua posição era contra as acções dos “insurrectos”, não a percebiam. Marx dizia também que nenhuma geração renega as condições materiais e bens tecnológicos até aí alcançados. Que sentido faz incendiar fábricas? o socialismo, o comunismo, não vão precisar delas? é difícil explicar isto, é difícil partindo destes exemplos mobilizar pessoas para a luta. Daí eu falar de dez passos atrás. Só nos servirá de consolo a frase de brecht “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.

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