Feios, porcos e maus

Não posso estar mais em desacordo com a condenação que o Sérgio Lavos  faz do que sucede em Londres.
Em primeiro lugar porque fá-lo repetindo a ideia veiculada pelo discurso dominante que as manifestações estão a ser convocadas através de uma dispendiosa marca de telemóveis. A coisa é repetida incessantemente nos media com o intuito de descredibilizar o carácter de classe do protesto, como se de um facto se tratasse. Quem pense um pouco perceberá que, uma esmagadora maioria dos que estão nas ruas não terão rendimentos para o referido telemóvel. No Egipto ou na Tunísia também se propagou a ideia que a revolução tinha sido feita no Twitter, mesmo quando a percentagem de cidadãos com acesso à internet era baixíssima. A internet e os telemóveis serão instrumentos, nunca o centro da revolução.
Quanto à pouca politização do protesto, não me parece nada de muito surpreendente. Depois de muitos anos de religiosa despolitização, descredibilização do papel dos sindicatos e com a falta de uma organização política de classe em que se possam rever é absurdo pensar que os protestos pudessem ser muito politizados. Ao invés, a batalha pela sua politização está no terreno. Deve ser feita nas ruas e não com prudentes demarcações.
Esta não é a minha revolução tal como o 25 de Abril não seria, mesmo com cravos e com poucos tiros, caso não tivesse existido o PREC ou Spínola tivesse conseguido manter o poder. Uma revolução define-se pelo que constrói, não pelo que destrói.
Entretanto, durante os próximos dias serão divulgados inúmeros relatos de cidadãos injustamente afectados pela fúria destruidora dos manifestantes. Gente que, pela primeira vez, terá antena aberta para denunciar os que, tal como os próprios, pouco têm a perder. Durante os próximos dias não será notícia os bancos e demais agências do grande capital destruídos. Os anúncios da McDonald’s darão lugar, por uma vez, à história do precário restaurante destruído onde trabalhava uma família. É o capital à procura da solidariedade dos desesperados.

É claro que seria muito mais simpático uma revolução sem chamas nem vidros partidos, de gente bonita deitada na relva a tuítar do seu iPad mensagens eroticamente politizadas.
Mas é o que temos. Nem todos podemos ser bonitos ou fazer a revolução com a tecnologia que desejamos.
A esquerda que quer construir uma sociedade mais justa não se deve colocar à margem destes movimentos. Por mais violentos, lumpenizados ou despolitizados que se manifestem.

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