Caracazo e a importância da organização revolucionária

Todos têm histórias para contar sobre o Caracazo. Entre os dias 27 e 28 de Fevereiro de 1989, milhares de venezuelanos saíram à rua para protestar contra o governo de Carlos Andrés Pérez. Um pacote de medidas económicas anunciado foi o rastilho para uma explosão social que deixou profundas marcas naquele país.

Entre as principais medidas, o executivo neoliberal decidiu pedir ajuda ao FMI. Depois, veio a tradicional receita daquela estrutura. Mas mais do que as decisões sobre os juros da dívida ou sobre a política cambial o que arrastou multidões para as ruas foi a liberalização dos preços de quase todos os produtos, o aumento dos preços do telefone, água, electricidade e gás doméstico e, principalmente, a decisão de impor um aumento de 30 por cento sobre o preço dos transportes.

Para o dia 26 de Fevereiro estava previsto que o combustível aumentasse e para o dia 27 que se aplicasse, por três meses, o novo preço dos transportes. Mas, em Caracas, os proprietários dos autocarros estavam contra. Exigiam que o aumento fosse no mínimo de 70 por cento e convocaram uma paralisação. Nesse dia, alguns motoristas preferiram conduzir, impor o valor reivindicado e não reconhecer as tarifas para estudantes.

Foi a faísca que incendiou Caracas. Os utentes dos transportes responderam com a violência. Muitos autocarros foram destruídos e queimados. Poucas horas depois, a capital venezuelana estava totalmente descontrolada. Milhares de trabalhadores e desempregados desceram dos bairros de lata e saquearam lojas, supermercados, oficinas e pequenas fábricas. Mas a revolta também se traduziu em múltiplas manifestações com um forte carácter reivindicativo. Rapidamente, a explosão social espalhou-se às principais cidades da Venezuela.

Uma dessas histórias que me contaram sobre o Caracazo, descreve como centenas de pessoas abandonavam estabelecimentos comerciais com carros de supermercado cheios de comida. Das anedotas mais repetidas, há a do homem que chamou um táxi e encheu o porta-bagagens com carne de vaca. Quando voltou do talho com mais uma peça, o taxista havia fugido.

O mundo olhou com espanto para o que se passava na Venezuela. Como sempre, apesar de todos os sinais, todos diziam não estar à espera que os acontecimentos tomassem tais proporções.  Como se fosse anormal haver consequências para aqueles que durante anos viveram do açambarcamento e da especulação sobre os produtos básicos. Como se fosse anormal que num país tão rico em petróleo os que nunca tiveram nada se revoltassem contra aqueles que sempre tiveram tudo.

A resposta do poder político não se fez esperar. Carlos Andrés Pérez decretou o estado de emergência e mandou o exército para as ruas. Enquanto um representante do Estado venezuelano declarava ante as televisões que o país havia entrado na mais absoluta normalidade, soldados disparavam contra a população. Os dados oficiais indicam que morreram mais de 300 pessoas. Números mais realistas apontam para cerca de mil mortos, a maioria resultado da intervenção das forças armadas. A repressão foi de tal ordem que o mal estar no seio de sectores do exército levaria três anos mais tarde, em 1992, à revolta militar conduzida, entre outros, por um desconhecido tenente-coronel chamado Hugo Chávez.

No que sempre foi um dos bairros mais combativos de Caracas e é, actualmente, um dos bastiões do chavismo, a população organizou-se, sob a experiência das organizações guerrilheiras, para combater a repressão. A ferocidade dos militares contra o 23 de Enero fez muitas vítimas mas também provou a capacidade de resistência dos seus habitantes. Infelizmente, a consciência social e política não era extensível a outras zonas e a falta de movimentos revolucionários com influência em todo o país que pudessem catalisar a revolta popular não permitiu que o Caracazo fosse mais do que aquilo que foi.

Mas aquilo que foi permitiu que se lançassem as sementes do que vive hoje a Venezuela. Sem Caracazo não teria havido golpe militar em 1992 e sem golpe militar Hugo Chávez não teria construído, em conjunto com outros soldados, o movimento que o levou à presidência da Venezuela.

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16 respostas a Caracazo e a importância da organização revolucionária

  1. Dédé diz:

    Pois é Bruno, mas por Inglaterra quem dá o mote para o povo miúdo massacrado pelas politicas austeritárias e amedontrado com os protestos, parece ser a extrema direita:
    O fascismo é uma minhoca que se infiltra na maçã. Ou vem com botas cardadas ou com pézinhos de lã.

    • Bruno Carvalho diz:

      Não sei se isso é tão claro assim. Parece-me que os sectores mais marginalizados da sociedade são os protagonistas da explosão social e haverá uma parte dos sectores populares que estão amedrontados com o que se passa. Verdadeiramente borrados de medo está a burguesia e a pequena-burguesia. O que me parece, no entanto, é que sem uma organização revolucionária qualquer revolta ficará por isso mesmo. E se a extrema-direita ganha apoios junto da classe trabalhadora isso também se deve à falta de organizações de esquerda consequentes. Em França e em Itália, isso aconteceu com a perda de influência e prestígio do PCF e do PCI.

  2. De diz:

    Parabéns pelo seu texto Bruno

  3. TC diz:

    Com a independência definitiva em 1830, instalou-se no novo país um clima de instabilidade governativa, com sucessivos golpes de Estado e com regimes ditatoriais como regra de governação. A primeira constituição aprovada, de 1831, é ainda uma constituição muito conservadora, censitária e onde os direitos humanos não estão consagrados.
    Posteriormente e até à actualidade mais constituições são elaboradas e vamos assistir a um gradual desenvolvimento em questões como os direitos humanos e a implantação de um regime democrático , bem espaldado por uma constituição.
    No inicio do Século XX são descobertas grandes reservas de petróleo e de imediato a realidade venezuelana altera-se, sendo que desde aí o petróleo tem sido o principal produto, e quase único, que a Venezuela exporta. Representa cerca de 80% das exportações.
    O regime ditatorial mantém-se até 1958 altura em que, mais uma vez através de um golpe de Estado, vai ser implantada a democracia e dá-se neste país um fenómeno curioso, o Punto Fijo.
    Depois de décadas de ditaduras e de falta de liberdade, o novo poder instituído assume a defesa do regime democrático como ponto fundamental na vida política venezuelana. Deste modo os principais partidos, à altura existentes, resolvem realizar um acordo inovador e de certo modo raro de observar. Com o intuito, já aqui referido, de preservar o regime democrático, decidem que, independentemente de quem vença as eleições periódicas realizadas, de acordo com a constituição de 1961, as politicas seguidas só o serão se existir acordo entre os dois partidos (AD e COPEI). Entramos assim num regime em que dois partidos dominam as eleições e que vença quem vença, as politicas a seguir são sempre de acordo com o que pensam os líderes dos dois partidos. Deixa assim de haver oposição real, desta forma é preservado o regime democrático. Podemos falar de um regime de bipartidarismo não concorrencial. Mas embora não existisse uma oposição, tal como nós europeus a concebemos, foi desde esta altura, e até aos dias de hoje, que a Venezuela viveu num regime democrático.
    Esta situação, de controlo absoluto por parte destes dois partidos, iria ter uma influência na própria organização do Estado. A forma centralizadora de organização foi a imagem de marca e que perdurou ate 1989.
    Esta mesma centralização, o clientelismo que a pouco e pouco foi tomando conta dos dois partidos que partilhavam o poder, a corrupção existente e evidente, levou a um cada vez maior descontentamento da população venezuelana , culminando com a reforma descentralizadora que viria a transformar de forma radical o sistema político deste país.
    Mais uma vez o regime venezuelano responde aos apelos dos seus cidadãos, em 1989 procede a uma reforma profunda, descentralizando as competências que até essa data estavam todas concentradas no poder central. Esta reforma vai permitir que, numa primeira fase a nível local, surjam novas associações políticas e movimentos, com o intuito de conquistar o acesso às competências que tinham sido descentralizadas. Vão ser estes movimentos e associações o embrião dos novos partidos que irão surgir na vida política da Venezuela, levando à sua transformação e permitindo a acesso ao poder, por exemplo, do actual presidente, que era líder de um movimento formado precisamente como consequência dessa reforma descentralizadora.
    Em 1999, corolário da descentralização, Hugo Chávez Frías, líder à altura do MVR (Movimento V República) vence, de forma contundente, as eleições presidenciais, dando inicio a uma nova era na vida política venezuelana.
    Pelo exposto podemos inferir que Chavez sabe muito bem o que lhe acontecerá se tentar (e ele tenta…) instaurar um regime autoritário.

    • Bruno Carvalho diz:

      Aqui está a visão burguesa da história venezuelana. O Chávez é que está a tentar instaurar um regime autoritário mas para o TC democracia é isto, leiam só: “Deste modo os principais partidos, à altura existentes, resolvem realizar um acordo inovador e de certo modo raro de observar. Com o intuito, já aqui referido, de preservar o regime democrático, decidem que, independentemente de quem vença as eleições periódicas realizadas, de acordo com a constituição de 1961, as politicas seguidas só o serão se existir acordo entre os dois partidos (AD e COPEI). Entramos assim num regime em que dois partidos dominam as eleições e que vença quem vença, as politicas a seguir são sempre de acordo com o que pensam os líderes dos dois partidos. Deixa assim de haver oposição real, desta forma é preservado o regime democrático. Podemos falar de um regime de bipartidarismo não concorrencial. Mas embora não existisse uma oposição, tal como nós europeus a concebemos, foi desde esta altura, e até aos dias de hoje, que a Venezuela viveu num regime democrático.”

      • De diz:

        Ou seja..regime democrático sim,desde que as políticas sejam sempre as mesmas.
        O ideal da democracia para qualquer “país” que se preze
        E repetido à exaustão,tantos são os exemplos que por aí( e aqui) seguem.

      • TC diz:

        Era um regime democrátrico tanto quanto é o actual regime de Hugo Chávez.

        • Bruno Carvalho diz:

          TC, não se enterre mais. Todas as eleições durante o processo bolivariano foram validadas pela dita comunidade internacional – que não simpatiza lá muito com Hugo Chávez – e em algumas delas a esquerda perdeu. Lembra-se de haver alguma carnificina como a do Caracazo durante a última década?

        • De diz:

          Olhe que não,olhe que não
          Este é um regime democrático que mudou alguma coisa.
          Uma chatice,hein?

  4. Rocha diz:

    Bruno, talvez tu me possas ajudar a responder a uma grande questão. Quem é Hugo Chávez?

    Por comparação com a nossa Revolução de Abril:
    – Será Chávez o camarada Vasco Gonçalves que manda expropriar a burguesia?
    – Será Chávez o Otelo que muda de referência ideológica a cada viagem que faz (a Cuba, à Europa, ao Médio Oriente, à China, etc…)?
    – Será Chávez o Melo Antunes que se alia aos piores fascistas (a santa aliança do Capital PS-PSD-CDS-CIA) para destruir em Novembro as veleidades revolucionárias do “papão comunista”?
    – Será Chávez o Jaime Neves que ataca raivosamente os revolucionários?
    – Será quem…?

    • Bruno Carvalho diz:

      Bem, o Hugo Chávez é o Hugo Chávez. Um produto da realidade venezuelana e dos momentos que protagonizou. Chávez nunca poderia ser o Vasco Gonçalves porque o Vasco tinha uma consciência social e política, na minha opinião, bem mais avançada. E tinha a noção da necessidade do povo português como sujeito colectivo da revolução. Também não é o Otelo. Embora ideologicamente ande à deriva como o Otelo. O problema do Hugo Chávez, em parte, é ele próprio ser a base ideológica do processo bolivariano. Não dá espaço para que haja uma direcção colectiva e revolucionária do processo. Para além de se ter rodeado de gente muito duvidosa. Também não é o Melo Antunes, apesar de às vezes enojar com as alianças com a Colômbia fascista e os apoios às propostas dos golpistas hondurenhos. Simplesmente, é ele próprio e não pode ser comparado com a nossa revolução, onde não havia um líder e onde havia uma direcção bem mais colectiva e revolucionária. O que permitiu que em dois anos se avançasse bem mais do que na Venezuela numa década.

      • Fernando Valente diz:

        Entao o problema da Revolução Bolivariana é o comandante Chávez? Não quero imaginar da desgraça que seria para a Venezuela e a América Latina se o comandante não se recuperasse da doença que o afecta. É bom que entendam isso. Se é uma debilidade da Revolução depender da figura altamente carismática e popular do seu líder? Certamente, mas há que aprender a viver com isso. Mas atenção, o povo venezuelano não tem hoje a mesma consciência revolucionária que tinha em 1998. Hoje é um povo profundamente politizado. Por vezes ligo o canal estatal VTV e vejo aquele povo a expressar-se com uma combatividade e consciência ideológica invejáveis.

        Aos que sistematicamente questionam a liderança do comandante deixo aqui uma pergunta: se não tivesse sido a rebelião militar de 1992 teria sido possível a conquista do poder por parte das forças progressistas? É que com a rua a ferver, a esquerda eleitoralista da altura, incluindo o PCV, tinha resultados confrangedores. E até apoiou Rafael Caldera, para a presidência da república em 1993, acção que ainda hoje lhe causa enorme embaraço.

        • Bruno Carvalho diz:

          Você contradiz-se. Questiona se Chávez é o problema do processo bolivariano para depois confirmar que é uma debilidade que ele dependa do presidente venezuelano. Não sei se há alguma coisa a aprender com isso, Fernando. Uma coisa é certa, quando você diz que não sabe a desgraça que seria para a Venezuela e América Latina se Chávez morresse está precisamente a tocar na ferida. Não sabe a desgraça que seria precisamente porque o processo bolivariano não soube encontrar uma forma de ter uma direcção colectiva e popular. Aqui não questiono a direcção de Chávez, questiono que ela não venha acompanhada de uma efectiva participação popular ao nível do PSUV e das estruturas de base. E se não quer ver as decisões graves que se têm tomado é porque a sua perspectiva não é lá muito revolucionária, Fernando.

          Já agora, deixo-lhe uma nota. É certo que o PCV não tinha grandes resultados mas não é justo que o ataque por ter apoiado o Rafael Caldera. Isto porque o PCV apoiou o Rafael Caldera por duas razões fundamentais: porque ele prometeu libertar Hugo Chávez (coisa que cumpriu) e porque prometeu libertar a Venezuela do FMI (coisa que não cumpriu). Ao PCV não lhe causa nenhum embaraço ter apoiado o Rafael Caldera, não sei onde é que foi buscar isso. Mas sei que o Hugo Chávez, como o Fernando Valente, atacou o PCV por ter apoiado o Caldera. O que é bastante rasteiro e nojento, uma vez que uma das razões tinha, precisamente, a ver com a sua libertação. Aliás, quando o PCV decidiu não apoiar alguns candidatos regionais do PSUV, em 2008, o Chávez fez uma campanha abjecta contra os comunistas venezuelanos (“vamos esmaga-los”, “vamos faze-los desaparecer da face da Terra”, etc). Tão abjecta que se temeu que os chavistas atacassem os membros do PSUV. Como sempre, era só palavreado. Como com o Uribe, que era o “cachorro do imperialismo” e uns meses depois “era o irmão e amigo Uribe”.

          • Fernando Valente diz:

            O PCV ainda hoje se vê obrigado a emitir comunicados a explicar o seu apoio a Caldera, é manifestamente embaraçoso que tenha apoiado um presidente que colocou o país num estado caótico, com níveis de inflação em 3 dígitos e um nível de pobreza inacreditável.
            Não fiz nenhum ataque ao PCV, longe disso, cumpre o seu papel positivamente crítico com a direcção do processo, mas a sua implantação na sociedade venezuelana é manifestamente débil (muito muito longe da que por exemplo tem o PCP aqui).

            E concordo quando refere que é necessário avançar no sentido da direcção colectiva, e isso está a ser feito com a criação do Pólo Patriótico. E se é verdade que algumas decisões do comandante no que se refere à relação com a Colômbia e à extradição de membros da luta armada tenha gerado polémica nos últimos tempos, inclusivamente no PSUV, que ninguém confunda isso com uma guinada à direita no processo.

            O que se passa na Venezuela é demasiado transcendental para a correlação de forças na América Latina e inclusivamente no mundo. Que não se percam energias em discussões muitas vezes enviesadas e de purismo ideológico, porque o inimigo é poderoso, tem muitíssimos meios ao seu dispor e não hesitará em repetir um 11-A se as condições forem propícias.

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