Sabia que a nota de euro portuguesa é de «escudo»?

Os defensores dos eurobonds não gostam da palavra imperialismo e encontraram este eufemismo: «falta de solidariedade europeia». Espantam-se porque o Deutsche Bank livrou-se dos títulos portugueses e do sul, o que levou à classificação lixo.

A falta de «solidariedade» é isto: a Alemanha está num período de super acumulação de capital, graças às exportações que faz com o euro, que é um marco a que estão agarradas outras moedas que não flutuam. Eles nunca exportariam em marcos se nós comprássemos em escudos, porque simplesmente não teríamos dinheiro para comprar nada. O superavit alemão é igual à soma dos défices da periferia europeia, o crescimento alemão é feito à custa do decrescimento periférico, como no passado o crescimento europeu dos anos 60 foi feito à custa dos países coloniais. Pagar a dívida – que é uma correia de transmissão de dinheiros públicos para o privado – significa continuar esta «solidariedade imperialista».

A Grécia renegociou ligeiramente a dívida. Em troca garantiu que as privatizações iriam parar às mãos das empresas alemãs, o que significa que os menos 1% de juros passam agora a mais 2, 3, 4% traduzido em saída de capital de Atenas directamente para Bona. A Portugal também desceram os juros, em troca a EDP vai para a burguesia alemã.

Quando o Euro desaparecer, porque a burguesia alemã não é «solidária» vamos ter as nossas notas – cada uma delas é marcada como «euro de Portugal», através de uma marca – de volta, a valer nada. Talvez aí nos lembremos de nacionalizar a banca, reduzir o horário de trabalho sem reduzir o salário, ter de volta as empresas lucrativas que são do povo.

Digo burguesia alemã, porque os EUA inundam o mundo de títulos, Dilma queixa-se do mar de liquidez, o défice espanhol e italiano é impossível de ser absorvido pelos alemãs e o desfecho da crise de 29 foi a II Guerra Mundial. Estávamos em 1941 quando os EUA recuperaram os índices de emprego de 1929– não foi o New Deal que fez o capitalismo americano sair do fosso foi a guerra, as linhas de produção foram transformadas em linhas de destruição e os desempregados em soldados.

Os trabalhadores alemães são neste cenário dramático mas não totalmente improvável os mais interessados em que não paguemos um euro de dívida. A burguesia não é solidária, é brutal, carnívora, vive em cima de tanques de guerra e só a classe trabalhadora, com uma política absolutamente independente em termos de classe, rompendo com todas as amarras de economia nacional, burguesa,  pode evitar a catástrofe.

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17 respostas a Sabia que a nota de euro portuguesa é de «escudo»?

  1. mário martins diz:

    Junto a minha à tua voz.
    Nunca seria capaz de dizer tão bem.

    Um abraço,
    mário

  2. Gualter diz:

    Excelente análise, já partilhei por aí.

    Infelizmente (ou felizmente), a acumulação de capital que a Alemanha actualmente faz, à custa da exploração (ou “Raubwirtschaft”, pilhagem para usar palavras que lhes são queridas) das periferias, não tem um paralelo exacto com o que se passou noutros períodos de acumulação.

    Neste momento, além da acumulação tradicional dos centros (em termos geopolíticos) e da burguesia (em termos de classe), há um fenómeno de escassez energética global (curva de Hubbert, pico do petróleo) – aquele que foi, desde o início da industrialização (e do capitalismo), o motor do crescimento económico.

    Ou seja, há verdadeiramente uma corrida ao osso das últimas reservas energéticas capazes de sustentar a continuidade do capitalismo. A compreensão da base material e ecológica que sustenta (e começa a deixar de sustentar) o crescimento económico é essencial para criar um combate e alternativas eficazes à contínua acumulação de capital, que hoje em dia só é possível com uma cada vez mais acentuada Raubwirtschaft.

  3. Diogo diz:

    É falso que sejam as grandes empresas alemãs ou os bancos alemães que estão a empanturrarem-se com a miséria dos países do sul.

    Quem o está a fazer é o oligopólio (monopólio) bancário internacional. É ele que possui todos os bancos e controla toda a grande indústria a nível mundial.

    • Raquel Varela diz:

      Caro Digo,
      Consegue provar o contrário?
      No artigo deixei dois links onde os Estados português e grego assumem publicamente que as privatizações vão parar à mão de empresas alemães.
      Não acho que exista uma coisa chamada «finança internacional». As empresas têm sede real (para além da sede fiscal), conservam a maioria do capital. A WW é alemã e nunca vai deixar de o ser, a Halliburton é norte-americana e nunca vai deixar de o ser, a não ser quando forem expropriadas pela vontade colectivas dos povos.

  4. Rui F diz:

    Raquel

    Consegues provar com números “…O superavit alemão é igual à soma dos défices da periferia europeia, o crescimento alemão é feito à custa do decrescimento periférico, como no passado o crescimento europeu dos anos 60 foi feito à custa dos países coloniais…”?

    • Raquel Varela diz:

      Caro Rui,
      Estive este fim de semana no acampamento contra o pagamento da dívida onde um economista mostrou os gráficos. Entregou os gráficos em papel mas aguardo os digitais, que nos disse enviar dentro de dias, para postar.
      De todas as formas deixo-lhe uma entrevista de um ex vice-ministro das finanças alemão onde ele diz exactamente o mesmo.
      http://zelmar.blogspot.com/2011/07/entrevista-ex-vice-ministro-de-financas.html

      • Rui F diz:

        Raquel

        Uma coisa é a opinião do senhor Alemão (que até concordo em grande parte) outra é dizer que o superavit da Alemanha é a soma dos déficits dos PIGS por exemplo. O Senhor não faz demonstração disso.
        Além disso não me parece (nem pouco mais ou menos) que o nosso déficie tenha sido feito à conta de importações da Alemanha (excluindo os submarinos, Mercedes e BM´s e outros luxos a crédito ).
        Ou acha que outro tipo de bens (por exemplo equipamentos para a industria) fomos obrigados a engolir?
        Independentemente dos gráficos que apresentar – podem-se fazer dezenas de interpretações estatisticas sobre o mesmo assunto – acho que essa afirmação da divida e do superavit demasiado superficial e tendenciosa. Desculpe lá.

        Agora se me disser que os Alemães nos ferraram (e aos Espanhóis) com os tomates e pepinos e outras frutas, OU que são bastante “picuínhas” quando à exigência que fazem do material que importam do Estrangeiro, concordo. É complicado penetrar na Alemanha. Sei do que falo porque trabalho numa empresa que exporta para a Alemanha 40% do que produz.

  5. -pirata-vermelho- diz:

    Excelente argumento, Raquel, com uma parte de verdade em si mas! atente aos oportunos comentários do Diogo e do Rui F.

    Consegue? Demonstrar…
    a integridade do seu argumento.

  6. Portela Menos 1 diz:

    e assim?:
    Existe um “trade-off” entre o superavit alemão e os dos défices da periferia europeia …

      • Rui F diz:

        Raquel

        A Alemanha é uma nação exportadora.
        Só “Importa” quem quer, quem pode ou quem não consegue.
        Por muito que doa à Esquerda é assim que funciona a economia, na Europa e em quase todo o mundo. A menos que queiramos sair da Europa pelo nosso próprio pé e arranjar outros aliados para comercializar…

        Se os Alemães são muito, pouco ou nada generosos com o resto do mundo, é outra questão.

  7. Justiniano diz:

    Cara Raquel, eu creio que o mais interessante a retirar dos dias de “hoje” (o que inclui, obviamente, os últimos dez anos, diria até mais…) é que, verdadeiramente, o mundo em desenvolvimento “aprendeu” a ortodoxia financeira, monetária e fiscal!! Algo a que nos julgávamos dispensados de acautelar!! E quem nos apela agora à contenção, à correcção e ao equilibrio!!??
    (Não vamos confundir o caso Italiano ou o Japones com a chamada periferia, uma vez que aqueles conseguem com os seus excedentes sustentar internamente os seus deficits e é essa capacidade que se deve assinalar nestes tempos de hoje e de sempre.)
    De outro modo, quando todos parecem querer a correcção estarão todos, verdadeiramente, preparados para a correcção!?

  8. l'outre diz:

    Está a sobresimplificar a questão. O problema das economias periféricas não é a compra de mercadoria alemã. O problema é a destruição da indústria exportadora (que foi deslocalizada para o extremo oriente) e a consequente falta de crescimento económico. Uma moeda forte acentua esta destruição mas não é o único responsável por ela. Nem é o contribuinte alemão responsável pelos maus investimentos e fraco crescimento das economias periféricas (embora, como europeísta, entenda que o contribuinte alemão tem o dever moral de auxiliar, na medida do possível, os povos europeus em dificuldades).

  9. Frederico diz:

    O superavit alemão é igual à soma dos défices da periferia europeia, o crescimento alemão é feito à custa do decrescimento periférico, como no passado o crescimento europeu dos anos 60 foi feito à custa dos países coloniais.

    Essa frase tem duas afirmações altamente discutíveis.
    Mais correto seria afirmar que o superavit (comercial) alemão é feito à custa do trabalho, inteligência, rigor alemães. E um pouco também à custa da disciplina salarial que conseguiram aplicar na última década e que, agora nestes tempos de crise, se transformou numa vantagem competitiva para a indústria exportadora alemã. Não é feito à custa de outros povos.

    O crescimento europeu dos anos 60 praticamente nada teve a ver com os “países coloniais” já que foi um crescimento assente na indústria. As poucas colónias que os países europeus ainda possuíam à época apenas forneciam algumas matérias primas. No caso português em particular, nos anos 60 as colónias deram mais prejuízo do que lucro (por causa da guerra).

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