Dá o povo funções de seu representante a esta gente…

O discurso de vitória de António José Seguro é desastroso.
A anunciada “liberdade de voto” dos deputados socialistas fará com que Vitalino Canas aprove o Orçamento de Estado se beneficiar as empresas de trabalho temporário, os advogados e juristas da bancada poderão votar livremente em função dos interesses dos seus escritórios e este deputado, de profissão “Gestor de empresas” e detentor de “Licenciatura em Engenheiro”, fará as negociatas que lhe aprouver com o seu voto.
Na sequência desta “liberdade de voto”, a recusa de Seguro em participar numa eventual revisão constitucional apenas significará que o deputado não se sentará à mesa deste acordo e que cada deputado do PS é livre de fazer o que bem entender com a Constituição.

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3 respostas a Dá o povo funções de seu representante a esta gente…

  1. André Salgado diz:

    Não sei se o Tiago Mota Saraiva baseou a sua reflexão no conhecimento que tem do grupo parlamentar do PCP e na conta em que o partido terá os seus próprios camaradas, subentendidos como mentecaptos que não podem ser deixados à solta, necessitando, como tal, da tutela férrea da disciplina de voto. Cada um saberá o que tem em casa…
    Presumir que os deputados socialistas (e já agora, de qualquer grupo parlamentar, todos legitimamente eleitos pela vontade do povo) são um bando de oportunistas e bandidos que, sem a rédea curta da disciplina de voto, apenas estariam no plenário da assembleia da república a votar os seus interesses particulares, não só demonstra uma visão muito peculiar da democracia, como nem chega a ser um insulto. É apenas idiota.
    E é, também, revelador da relação dífícil que o Partido Comunista Português continua a ter com o exercício da liberdade não tutelada.

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      André, é sempre um prazer voltar a lê-lo.
      Eu percebo que, para um fiel discípulo de Sócrates, é sempre difícil perceber que a política se deve fazer a partir de decisões colectivas e não a partir de uma ou outra negociata limiana ou cedência a grupos de interesse.
      Será com gosto que gostaria de saber um pouco mais sobre esse “exercício da liberdade não tutelada” no PS de Sócrates. Seriam os proscritos Carrilho ou Cravinho? Ou aqueles deputados que, quando o PS era governo, votavam que “sim” ao “não” que haviam declarado no dia anterior? Terá havido um grupo parlamentar tão ferreamente dependente do que decidia o “querido líder” como o do PS na legislatura passada?

  2. André Salgado diz:

    Tiago, a política é feita de compromissos e de responsabilidade, individual e colectiva, não do pressuposto – que é o seu – de que os deputados, se deixados à solta, como bandidos ou crianças irresponsáveis, só tratam de negociatas e interesses pessoais, sejam eles socialistas, sociais-democratas ou comunistas.
    Já conheci mais secretários-gerais do PS que o Tiago secretários-gerais do PCP. Fiel discípulo, só do que me é dado a aprender todos os dias, dentro mas muito mais fora da política.
    Tanto quanto eu saiba, Carrilho e Cravinho são homens livres que nunca tiveram qualquer restrição à liberdade de dizer o que pensavam, dentro e fora do PS, assim o tenham desejado, tal como nunca sentiram necessidade de abandonar o partido a que pertencem por vontade própria, o que outros partidos talvez não possam dizer dos seus.
    Se bem percebi o seu raciocínio – e olhe que não é fácil – se um grupo parlamentar está sujeito a uma disciplina férrea, é mau porque está dependente do que decide o “querido líder” (como classificará o Tiago, então, a disciplina do grupo parlamentar do PCP?); se um grupo parlamentar não está sujeito a uma disciplina férrea, é mau porque os deputados se vão dedicar a fazer negociatas em proveito próprio. Em que ficamos? Liberdade ou disciplina?

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