Noruega: um aviso

Estou entre aqueles que não mistifica a classe trabalhadora – quando se ergue pela emancipação ultrapassa o inimaginável em coragem e abnegação; quando se acanha é mestre no medo, na cobardia, na brutalidade, no desamor. Como Trotsky escreveu se não fosse o Partido Bolchevique e Lenine a Rússia podia ter inaugurado o fascismo, com Kornilov, primeiro do que a Itália. O capitalismo embrutece, Jack London chamou-lhe nesse retrato magnifico do fascismo, O Tacão de Ferro, escrito em 1905, o «povo do abismo», o povo degenerado: «Veja em que espécie de abismo a burguesia te vai lançar se não acabares com ela!», escreve Trotsky no prefácio à obra de London, em pleno ascensão do fascismo alemão, em 1937.

Soube-se que o atentado na Noruega foi feito por um fascista. Um marroquino, taxista, entrevistado hoje em Oslo disse à RTP 1, «Estava preocupado, queria saber quem tinha sido, foi um alívio». Foi um alívio para os resistentes islâmicos, árabes, povos do médio oriente, oprimidos pelo imperialismo europeu; foi um alívio para todos os imigrantes que estão hoje na Europa; foi um alívio para todos aqueles que acham que é da luta e da organização colectiva, mais do que de actos isolados, que nasce a saída; foi uma derrota para toda a extrema-direita europeia e uma machadada na perseguição aos islâmicos e outros radicais. Foi mais um dos sérios avisos que a luta de classe nos vem fazendo: socialismo ou barbárie, Lenine ou Kornilov, revolução ou contra-revolução. Foi um aviso sério: o povo do abismo ergue-se e do capitalismo pode nascer a igualdade, a emancipação ou a barbárie.

Registo as palavras de um social-democrata, primeiro-ministro norueguês: «que este acto bárbaro não intimide nenhum jovem que quer fazer a diferença».

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8 respostas a Noruega: um aviso

  1. Von diz:

    Quando um acto terrorista, onde morrem mais de 90 pessoas, gera um sentimento de alívio, então a sociedade apodreceu. Apodreceu seja qual for o livro sagrado que segura, a doutrina que cita ou o suspiro que deixa escapar. Um sentimento de alívio é aquela bala que ficou no carregador. E por isso, citar Trotsky, ou mesmo se fosse Malcolm X ou Madre Teresa de Calcutá, como bálsamo ou pretexto, é a prova que a vida humana perdeu o valor, ou vale de acordo com a bolsa que cada ideologia política professa. Olhar um ou 90 mortos, com a nublada visão de qualquer cartilha, é também fazer parte da sociedade apodrecida.

    • Raquel Varela diz:

      Caro Von,

      Certamente que me expliquei mal uma vez que você não iria entender mal…
      O atentando não foi um alívio, foi uma barbárie, alívio foi saber que não foi feito pelos perseguidos do costume.

      • Von diz:

        Mantenho que não gosto de alívios neste tipo de enquadramentos. Eu percebi e a Raquel percebeu que eu percebi (parece plágio…).

        • Raquel Varela diz:

          Se fosse uma mulher de lenço na cabeça a viver na Alemanha, na Holanda, talvez percebesse porque eu percebo o alívio. Dê uma olhada no Courrier Internacional de Maio, uma jornalista disfarçou-se em França e tapou a cabeça, como uma islâmica.

          • Von diz:

            Não duvido da dificuldade, do preconceito e da intolerância nos casos que citou. O mesmo se passaria com um europeu em certas zonas do Afeganistão ou derivados. A intolerância não maior por se passar à nossa porta. O problema é a intolerância parecer maior quando é infligida pelo ocidental. E medir intolerâncias, ou aplicar-lhe graus, não me parece sério. Da mesma forma, que por vezes neste blog, a violência é justificada e em outras inconcebível.

  2. Aquela classe trabalhadora que não estava ajustada à revolução

    E que o Lenine massacrou durante o terror vermelho

    Pois a sociedade revolucionária precisava de outra massa?

    Ou aqueles trabalhadores que nos anos 20 foram deixados morrer à fome à força de requisição de géneros?

    Ou que foram para os proto-gulag’s que anos depois Estaline conseguiu tornar num sucesso proletário?

  3. Um Giles de Rais ou Guy F. à base de nitratos

    ou um Vlad empalador nascem em todas as eras e culturas

    o estado soviético produziu um canibal socialista que de 1970 até 1990 comeu e matou mais de 80

    logo mais gente mais meios mais messias alienados

    e mais migrações de deserdados da sorte

    dão nisto …sejam red’s ou reed’s sejam nacional socialistas ou anarquistas

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