A CORAGEM na Política

Entre as explicações para a resignação com que o povo português aceita o roubo dos salários, do subsídio de Natal, a subida de impostos de consumo, o desemprego estrutural, a transferência de recursos públicos do sistema público para o privado, a mendicidade dos bancos alimentares e dos RSIs, a escola pública abandalhada, os hospitais com filas de espera, a promoção dos medíocres e a penalização dos que trabalham, está a falta de formação, a homogeneização social, o peso da Igreja católica, a válvula de escape da emigração, o estado-família que paga a parte do salário que não é paga pelos patrões, a instabilidade laboral, a burocratização dos sindicatos, a dependência financeira dos partidos de esquerda do aparelho de estado, a estabilidade das fronteiras nacionais, e… a falta de coragem.

A política não vive sem moral, sem ética, e não há moral em quem não enfrenta os seus medos. Cada hesitação do cobarde é um tiro no corajoso. A história é feita de homens, de carne e osso. A coragem outrora ocupou um lugar na política.

«É preciso arrancar alegria ao futuro. Nesta vida morrer não é difícil. O difícil é a vida e seu ofício».

Dedicado por Mayakovsky a Iessienin, depois deste ter-se suicidado.

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32 respostas a A CORAGEM na Política

  1. nuno mateus diz:

    Não posso deixar de manifestar o meu acordo total.
    Acho que é mesmo essa a grande questão.
    É preciso começar a juntar os corajosos.
    NCM

  2. Vasco diz:

    A culpa da resignação é dos sindicatos e dos partidos de esquerda? Genial, srª «historiadora». Se o seu berloque de esquerda caviar é dependente do Estado até acredito, mas fique sabendo que o meu PCP (mau, feio, stalinista q.b., etc, etc) tem a maior parte das suas receitas provenientes da contribuição voluntária dos seus militantes e simpatizantes e da realização de iniciativas próprias. Quanto à coragem, por cá temos bastante – combatendo nas empresas, ao lado dos seus colegas, por salários e direitos, arriscando processos de despedimento e outras pressões e perseguições. Não temos o monopólio da coragem, evidentemente. Mas acredite que essa por cá não falta!

    • Miguel Lopes diz:

      Eu cá sou do Benfica. Na luz há coragem a rodos e o glorioso é eterno!
      Avante, avante p’lo Benfica,
      Que uma aura triunfante Glorifica!

    • Raquel Varela diz:

      Como sabe a coragem do PCP não está aqui em causa. Têm nesse aspecto, pelo menos a velha guarda, o quase monopólio dela, foram os que mais anos e de forma mais brutal sofreram nas prisões de Salazar.
      Falta coragem é às pessoas para romperem com os partidos cujos funcionários dependem das autarquias, do Parlamento e dos sindicatos.
      Eu não sou do Bloco de Esquerda, embora seja uma daquelas pessoas, para vivacidade deste blog :), que acha que as asneiras do BE são inócuas ao pé das asneiras que faz quem dirige e influencia os sindicatos. Quando batemos em alguém a força do murro conta. E o BE tem a força de uma andorinha.

      • JMJ diz:

        Então porque não tenta a Raquel e os seus amigos formar um partido, um sindicato e organizar a luta?

        Porque continuam a Raquel e seus amigos a fazer o papel dos velhos dos marretas, sentados na plateia, a falar mal de tudo e todos, quando são quem sabe, quem tem a coragem e quem é “independente e puro”?

        Shakespeare falava de “Canseiras de amor baldadas”, que aqui serão “sermões revolucionários baldados”;

        Haja quem saiba o caminho Raquel, pena que as massas, inquinadas pela água da torneira não liguem patavina. Liderar os processos revolucionários é tão mais dificil que irmos a correr saltar para as cavalitas de quem luta…

        • Raquel Varela diz:

          Não sei de que amigos está a falar caro JMJ. Tenho amigos que não saem de casa, outros são a favor do FMI, e tenho camaradas, na Rubra, no Rossio, que estiveram em todas as manifestações e greves deste ano, incluindo nas que foram chamadas pelo PCP e até nas que foram chamadas pela CGTP às 3 da tarde, num dia semana, uma hora que os burocratas parecem adorar para fazer manifestações. Mas JMJ não o vi nas duas manifestações maiores que houve até hoje contra o FMI, na Av. da Liberdade, em Junho? Este lá, às cavalitas de alguém?
          Estavam lá 1000 pessoas de uma vez e 500 da outra, a cantar «É o banqueiro quem deve aqui dinheiro!».
          Veja, uma coisa é afirmar que as teorias revolucionárias não chegam às massas, isso é lamentável, prova da nossa incompetência mas obviamente verdade; outra bem diferente e insultuosa é dizer que o PCP luta e outros andam «às cavalitas». Tenha paciência!

          • JMJ diz:

            Cara Raquel,

            eu não disse que todos os outros andam às cavalitas e que não lutam.

            O que eu disse foi (cito): “Liderar os processos revolucionários é tão mais dificil que irmos a correr saltar para as cavalitas de quem luta…”

            Se enfiou a carapuça, a culpa não é minha pois não?

            Eu até valorizei o facto da Raquel estar tão convicta da justeza do caminho que propõe.

      • Vasco diz:

        «Asneiras de quem dirige e influencia os sindicatos»? Refere-se a quem? Ah, deixe-me adivinhar: aos comunistas, esses mauzões (fora os corajosos dos «velhotes», que suportaram torturas e prisões…). Pois olhe, com todos os defeitos que terão os que «dirigem» e «influenciam» os sindicatos, como diz, são eles (com outros sem partido, evidentemente) que mobilizam os trabalhadores para a luta e que, muitas vezes com grandes prejuízos pessoais, combatem nas empresas o agravamento da exploração. Não é suficiente para a gravidade da situação? Evidentemente que não. Mas é das pequenas lutas que nascem as grandes.

        Quanto às autarquias, não sei de onde a Raquel é ou deixa de ser, mas eu – que sou da Margem Sul, devo muito às autarquias CDU pelas condições de vida que me proporcionaram, apesar de não ser de classes particularmente favorecidas. Mas isso não deve ter, para si, grande importância, presumo. Até porque o Trótski não deve ter dito nada sobre isso. Adeusinho.

        • Vasco diz:

          Ainda sobre as autarquias: trata-se de uma conquista da revolução de Abril (aquela que ia direitinha para o socialismo não fossem os malandros dos comunas, ’tá a ver qual é?…) assumida pelos trabalhadores e pelas populações dos locais em que esses mesmos “comunasmalandros” tinham mais influência. Chegou – como o resto da revolução – até onde foi possível e hoje sofre recuos, como aliás o resto das conquistas revolucionárias. É a luta de classes…

    • Bolota diz:

      “…e da realização de iniciativas próprias…” Como por exemplo as sandes de coratos na festa do avante.

      Festa que qrrilia muitaaaaaaaaaaaaaaaa gente até o berloque

      Abraços

  3. Raquel, este mundo não está como você quer, estamos juntos; as coisas estão feais e os caminhos para lhes dar um pouco de cor parecem obstruidos, estamos juntos; o paraíso dos nossos sonhos mora longe, vai ficando cada vez mais distante e deformado, estamos juntos; mas a saida não é o desespero e a teoria do tornado, mas a ventania, estamos juntos?

    • Raquel Varela diz:

      Caro José,
      Estamos juntos, para a ventania, não para soprar velinhas mágicas que se reacendem passados 5 minutos.
      Saudações

      • Vasco diz:

        Velinhas mágicas?…

        «No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista a força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…)

        A definição dos objectivos fundamentais de uma dada etapa é indispensável, por um lado, para jamais perder de vista a tarefa principal, não a sacrificando aos objectivos mais imediatos (como faz o oportunismo de direita); por outro lado, para prevenir, alertar, não ceder à tentação de ‘queimar etapas’ e de ver só os objectivos últimos da revolução (como faz o oportunismo de esquerda).»

        in Álvaro Cunhal, ‘O radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista’

        Lembrei-me disto, não sei porquê… :

        • Miguel Lopes diz:

          Aplique essa citação àquilo que estamos a discutir.

          • Raquel Varela diz:

            Exacto Vasco, a minha concepção, aprendida na militância trotskista, é a de que não há etapas «burguesas» no caminho. Todas as revoluções do século XX são objectivamente anti capitalistas (prognóstico marxista que se revelou um facto depois da I Guerra), falhando o elemento subjectivo (Partido e a Consciência, Lenine e Lukacs).
            É uma longa discussão, a que voltaremos certamente – a produtividade impõe-se e tenho que trabalhar. Como a decadência nacional está aí, os anos d’ouro acabaram, a revolução voltará a estar na ordem da discussão, imposta pela realidade.
            Publico-lhe o comentário quando tirar as «sugestões», directas ou indirectas sobre o meu trabalho, feitas nas últimas linhas. A política é luta política. Sou persistente, e não gosto de métodos de calúnia, velada ou não.
            Saudações

          • Vasco diz:

            Eu respondi-lhe, Miguel Lopes, mas fui censurado. Sorry.

  4. jpm diz:

    Ao Maiakovksi não lhe faltava lata…

  5. Ash diz:

    Se a citação de Mayakovsky no fim do post serve para qualificar o suicidio em geral como acto de cobardia política, então essa citação é um acto de cobardia intelectual. Um “revolucionário” que não saiba discernir no derradeiro acto de um suícida o mais genuíno gesto revolucionário não percebe nada da vida nem do seu ofício, será contudo um potencial especialista na gestão dos batalhões de cadáveres adiados que procriam.

    • Raquel Varela diz:

      Caro Ash,
      Calma, eram amigos, M. ficou chocado. Ie era o um dos poetas mais interessantes da sua geração. E sim, desistir não é o caminho.

      • jpm diz:

        Não deixa de ser estranho que o próprio Maiakovski tenha dado um tiro nos cornos. O que faz do aforismo dele como que, digamos, desastrado.

  6. Pingback: O Ataque das Patentes! « O Insurgente

  7. Vasco diz:

    Claro que a revolução voltará a estar na ordem do dia, cara Raquel. Mas não por obra e graça do espírito santo ou por declarações inflamadas da parte de alguns «revolucionários». Voltará a estar na ordem do dia na sequência de muitas lutas, pequenas, médias e grandes, nas empresas e locais de trabalho, nas ruas, pelos salários, pelos direitos, pelo emprego. O que chama de velinhas mágicas. Será, de uma vez, a revolução socialista (e que socialismo, já agora?)? Ou haverá antes etapas (não burguesas) antimonopolistas, em que a classe operária, os agricultores, intelectuais, a pequena burguesia e sectores da média burguesia? Seja como for, será sempre para o socialismo que se caminhará. A fórmula «socialismo ou nada» é apelativa a certo ouvidos mas não servirá, em determinados momentos, para desviar a atenção das lutas concretas que se travam? Fica para reflexão…

  8. Vasco diz:

    Trotskismo 1:

    «Para onde vai a União Soviética de Gorbatchov? Excluamos, antes de mais, a
    eventualidade de uma restauração do capitalismo na URSS. Da mesma forma que o
    capitalismo não poder ser gradualmente suprimido, tão pouco pode ser gradualmente
    restaurado.»

    Ernest Mandel: Où va l’URSS de Gorbatchev? Ed. La Brèche, Montreuil, 1989, pp. 20 e 23.

    Trotskismo 2:

    «O objectivo principal das lutas políticas em curso [na Rússia de 1989] não é a restauração do capitalismo. O que está em causa é ou o avanço em direcção à revolução política antiburocrática ou a supressão parcial ou total das liberdades democráticas que as massas conquistaram durante a glasnost. A luta principal não opõe as forças pró-capitalistas às forças anticapitalistas, mas a burocracia ao povo.»

    Mandel, Inprecor, n.° 295, 16-29, Outubro de 1989, p. 20.

    Trotskismo 3:

    «Na actualidade, o reformador Boris Iéltsine representa a tendência que é favorável à redução do enorme do aparelho burocrático. Deste modo, ele segue as pegadas de Trótski.»

    Mandel, Financieel-Ekonomische Tijd, 23 de Março de 1990: Ernest Mandel: «Gorbatchev is te vergelijken met Roosevelt en De Gaulle».

    • Raquel Varela diz:

      Vasco,
      Reconheço o esforço de pesquisa.
      Veja, que eu não sou mandelista – seria o mesmo que eu enviar-lhe uma nota que em vez de um texto de Álvaro Cunhal tivesse um de Santiago Carrillo.
      Agora o Mandel é um dos grandes teóricos do século XX e, como vejo que tem tempo, aconselho-o a ler a obra dele. Enganou-se na caracterização de uma economia soviética demasiado separada do resto do capitalismo (afinal a URSS não sobreviveu à crise de 80-84), enganou-se no guerrilheirismo e no apoio às correntes intelectuais, mas «uma águia pode voar tão baixo como uma galinha, uma galinha nunca pode voar tão alto como uma águia» (cito Lenine a propósito de Rosa Luxemburgo.
      E sim, aquilo que objectivamente estava em causa na URSS era, como o Trotsky escreveu, uma revolução do povo contra a burocracia ou a restauração do capitalismo com métodos de tipo acumulação primitiva (a máfia russa que o diga). Para onde as energias do povo são canalizadas é o tema que vale a pena discutir, e no caso de 89 já não havia oposição de esquerda nem bolcheviques para liderar o povo, só havia estalinistas e burocratas, que rapidamente perceberam como acumular.
      Saudações

      • Vasco diz:

        Enganou-se em tudo, como poder ser um grande teórico? No Leste houve restauração capitalista e Iéltsine era da ala mais radicalmente defensora do capitalismo (o próprio Mandel compara-o, de certa forma, a Trótsky, mas eu não vou tão longe).

        Aconselho-a (perdoe-me a audácia) a ler “O socialismo traído”, de dois investigadores norte-americanos sobre as causas da derrota do socialismo na URSS… Não, não houve nenhum levantamento “antiburocrático” tão ao gosto do trótskismo, como o mesmo não sucedeu nos anos 30 e 40, quando a URSS caminhava na direcção do socialismo. É, aliás, e estranhamente (então ele não tinha dito que não era possível construir o socialismo num só país?), o próprio Trótsky a reconhecer, em 1934, que «só idiotas manifestos seriam capazes de acreditar que as relações capitalistas, ou seja a propriedade privada dos meios de produção incluindo a terra, podem ser restabelecidas na URSS por via pacífica e desembocar num regime de democracia burguesa. Na realidade, se isso fosse possível, o capitalismo só poderia ser restaurado na Rússia em resultado de um violento golpe de Estado contra-revolucionário, que
        exigiria dez vezes mais vítimas que a Revolução de Outubro e a guerra civil.»

        Trotski: L’appareil policier du stalinisme, Ed. Union générale Editions, 1976, Collection 10-18, p. 26.

  9. Vasco diz:

    Trótskismo 4 (pelo chefe himself…):

    «Só uma insurreição do proletariado soviético contra a tirania infame dos novos
    parasitas pode salvar o que ainda subsiste das conquistas do Outubro nos fundamentos
    da sociedade».

    Assim falava Léon Trótsky em 14 de Novembro de 1938. Claro como água: os nazis estão no poder na Alemanha e ameaçam a URSS. E o grande revolucionário que faz? Apela ao derrube do governo soviético (os «burocratas»). Obrigadinho, pá…

    • António Paço diz:

      Em 1937, Estaline tinha-se dedicado a decapitar e fuzilar o Exército Vermelho: Tukhatchevski (marechal e vice-comissário da Defesa), Yakir (comandante da região militar de Kiev), Uborevitch (comandante da região militar da Bielorússia), Eideman (chefe da organização da defesa civil), Kork (chefe da Academia militar), Poutna (adido militar em Londres), Boris Feldman (chefe da Administração do Exército Vermelho), Primakov (segundo comandante da região militar de Leninegrado) e outros.
      Em 1938, tratou de decapitar o que restava da velha guarda bolchevique (Rykov, Bukharine, Krestinsky, Rakovsky e outros, juntando-lhes Iagoda e alguns dos seus sabujos que tinham feito o seu trabalho sujo nos processos anteriores, para que nunca pudessem vir a revelar o que sabiam).
      Em 1938, derrubar este ‘governo soviético’ era pois uma medida elementar de sanidade e autodefesa da nação soviética.
      Mas o «grande organizador de derrotas» não ficou por aí: em 23 de Agosto de 1939 assinava o Pacto com Hitler, que desorientou, desmoralizou e desarmou politicamente todos os partidos que continuavam a segui-lo. Um ano depois, conseguiria finalmente matar Trotsky, no México, depois de já ter morto os seus filhos.
      A URSS sobreviveu a Hitler e deu enorme contributo para derrotá-lo, mas 20 milhões de soviéticos nunca chegaram a sabê-lo, pois pagaram com as suas vidas a resistência ao nazi-fascismo e os desmandos criminosos desse génio que era o Pai dos Povos, mais interessado em matar antes da guerra todos os que pudessem ainda vir a fazer-lhe sombra, que em preparar o país – e a Internacional – para o grande combate que se avizinhava.

      • Vasco diz:

        Os 20 milhões de soviéticos mortos pelos nazis também foi o Stáline, António Paço? O livro negro do comunismo não diria melhor… E a direcção do PCUS não teve qualquer responsabilidade na vitória? Foi o povo e o Exército, certo. Mas quem os dirigiu? Alguém deve ter sido…

      • Vasco diz:

        Além disso, «Stáline» (e a direcção do PCUS) dedicaram-se, nesses anos, a muito mais do que isso: a colectivizar a agricultura, a desenvolver a indústria, a construir a base material do socialismo – o mesmo que Trotsky garantiu ser irreversível. Era isso que se fazia nessa época, António Paço, construía-se o socialismo, sistema que saiu vitorioso da guerra contra a Alemanha nazi.

      • Vasco diz:

        Quanto à “velha guarda” (a mesma que TRótsky primeiro combateu e depois veio «defender»), Molotov, Kirov, Kaganovitch, que participaram activamente na Revolução de Outubro, foram chamados à direcção. Também são “velha guarda”, apenas ficaram com o Partido e não contra ele.

  10. Vasco diz:

    Quanto ao tempo, terei tanto como a Raquel…

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