Quem matou Sean Hoare, a primeira peça do escândalo das escutas? Será preciso exumar Agatha Christie?

Por esta altura o correcto seria dizer-se, no entender da Scotland Yard, porque faleceu Sean Hoare, o jornalista responsável pelo início da denúncia das escutas telefónicas que está a abalar o Reino Unido e o império mediático de Rupert Murdoch? Para uma das mais bem treinadas (e pagas) polícias do mundo, Sean Hoare morreu de forma inexplicável mas não pensam que a sua morte seja suspeita. São estas as palavras precisas: “unexplained, but not thought to be suspicious”. Não é inacreditável?

Mas vejamos a história: Sean Hoare denúncia que o seu editor, Andy Coulson, era uma das pessoas responsáveis pelas escutas às principais figuras da política, da família real, do showbiz, enfim, da socialite dos brits. Com o escândalo na praça pública os nomes vão saltando como pipocas uns atrás dos outros, sendo que dez pessoas já foram constituídas arguidas e Paul Stephenson, chefe da Scotland Yard, já pediu a demissão. Só Rebekah Brooks, mulher de mão de Rupert Murdock para o News of The World, que entretanto fechou portas, esteve 10 horas sob interrogatório. Por seu lado, a News Corporation, que continuou a crescer 8% ao ano no pico da crise financeira, perde concursos e negócios que estavam praticamente garantidos, e David Cameron é acusado de fugir do país para que o terramoto não fira, ainda mais, o seu governo e a sua governação. A Rainha, impávida, não é provável que tenha grandes razões para estar serena.

Sean Hoare, que aparentemente já pouco interessava para o caso, aparece agora morto em sua casa sem que as autoridades digam as razões da sua morte ao mesmo tempo que dão instruções para que se afastem as suspeitas sobre a hipótese, diria que no mínimo plausível, de estarmos perante um eventual assassinato.

A notícia é dada assim, sem grande espanto nem grandes razões para as perguntas que se impõem, numa espiral que tem tudo para fazer mais vítimas mais ou menos colaterais. Jornais, rádios e televisões referem todos os factos citados aqui mas não colocam as vírgulas que se exigem num caso como este. Se Bob Woodward, Carl Bernstein e, à sua maneira, Julian Assange fossem assassinados, tudo isto era relatado num canto de página e na discrição do final dos telejornais? Não, e ainda bem. Porque é assim no caso de Sean Hoare?

Se morreu de causas naturais, quais foram essas causas num homem de meia idade aparentemente de boa saúde? Se foi assassinado, ou sabia mais do que já tinha dito, ou disse à polícia mais do que sabemos (e assim sendo a polícia é a principal suspeita uma vez que é implicada no caso por corrupção, precisamente por Sean), ou era mesmo irrelevante e trata-se de um pérfido golpe de pedagogia? Em qualquer das hipóteses, uma, várias ou todas as figuras citadas nesta posta ou está envolvida ou sabe quem foi o assassino.

Não vos parece elementar?

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