Na Católica a formalidade, no Ministério da Agricultura é preciso ter estilo

Há milhões de problemas no país e no mundo, mas caraças, agora apetece-me pegar mais nestas cagadas do que fazer uma análise séria sobre uma qualquer medida económica do Governo ou em mais um tiro no pé do Bloco de Esquerda: os códigos de vestimenta que estão a ser implementados na Universidade Católica e no Ministério da Agricultura, Mar,  Ambiente e Ordenamento do Território. Enquanto que no primeiro caso recomenda-se que deixem de utilizar trajes, sandálias, toalhas de praia no ombro, t-shirts do Benfica, porque – ora bolas! – aqueles edifícios são uma universidade e uma instituição da igreja (e um banco BES), não é um local de diversão, é um local de trabalho; no segundo que é um local de trabalho, numa tentativa de, quiçá, tentarem descer ao povo (os agricultores, os pescadores, os marinheiros, os ambientalistas e os que dão umas ordens no e ao território), de poupar no ar condicionado e, mais importante ainda, dar um ‘ar cool’ a este tão desprezado ministério.

Enfim, uma coisa sem importância alguma. Não serve para se organizar uma slutwalk na Católica, nem uma marcha de engravatados lá pelo ministério, nem tal faria sentido. É apenas o ridículo das situações, do regresso à uniformização (já em processo com o traje académico), e da descoberta que a gravata não tem função nenhuma quando se está sentado numa secretária, noutro lado qualquer, e mesmo em pé ainda não lhe descobri nenhuma função.

Mas há aqui outro ponto que incomoda mais (ou absolutamente nada): a universidade ser apenas e só um local de trabalho, em que uma pessoa não se pode divertir. É que a restrição da universidade a um local de trabalho, e não de discussão, de partilha de ideias, pensamentos, conceitos e de ferramentas, é uma coisa que dá jeito (não é, Nuno Crato?). O mesmo serve para o local de trabalho, em que nada disso pode acontecer (e se acontecer, é em nome da produtividade, ora aí está!). Não é novo, já está em curso há bastante tempo, é cada vez mais assumido. E é perigoso e chato este mundo em que estamos a viver.

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29 respostas a Na Católica a formalidade, no Ministério da Agricultura é preciso ter estilo

  1. As T-shirts do Benfica deviam ser consideradas uniformes com a mesma respeitabilidade do traje e das gravatas. Fora isso, o mundo está a ficar chato, está.

  2. JDC diz:

    E se o Jerónimo começasse a ir às reuniões do comité central de havaiana, calções de banho, toalha ao ombro e boné na cabeça?

    • Camarro diz:

      Tem razão. O pessoal do CC quando vai às reuniões é sempre de gravata.

      • Youri Paiva diz:

        A questão não é essa. O uso da gravata serve de pouco, é uma questão formal (que eu não pratico). A questão é a imposição e a decisão de normas de vestuário. É ridículo, sempre foi, e continuamos nisso.

        • JDC diz:

          Mas a questão é mesmo essa! A UCP não impõe o uso de gravata, fato, sapatos de vela ou o que fôr. A UCP impõe, isso sim, a proibição de se frequentar um local de ensino como se da praia se tratasse. É tão simples e óbvio, não é?

          • Youri Paiva diz:

            Não, não é tão simples e óbvio. Sandálias? Está calor, pá. O que me parece simples e óbvio é que a UCP impõe um código de vestimenta absolutamente ridículo. Achares isso normal é sinal dos tempos.

          • JDC diz:

            Mas porque não ir de tronco nú? Porque não ir mesmo nú?

            A indumentária não faz de nós quem nós somos. No entanto, a universidade tem de ser um local sério, de referência. A universidade não pode ser igual à esplanada, à discoteca nem à praia. Isso não faz com que na universidade não possa haver criatividade, alegria, descontracção, troca de ideias, pelo contrário: a chamada de atenção para o facto da universidade ser um local de trabalho (aprender dá muito trabalho! criar conhecimento dá muito trabalho) onde a postura deve ser de trabalho (o trabalho não tem que ser enfadonho!) não é um sinal dos tempos. É um sinal de clareza de espírito.

          • Youri Paiva diz:

            Porque não? Não sei.

            Essa ‹‹clareza de espírito›› (não sei o que é tal coisa) não é uma coisa que partilhe. A universidade um local sério e de referência? E isso vê-se na roupa, não no que se faz e no que se cria nas universidades?

        • Camarro diz:

          Estava a ser irónico… No essencial, estou de acordo com o post.

        • O Eco de Umberto diz:

          A indumentário faz parte do discurso político. Louçã recusa ideologicamtne a gravta. Os deputados do PCP vestem-se de um modo na Ass. da Rep. e de outro modo num comício. Jerónimo não aparece numa reunião do CC, e muito menos diante das televisões, vestido “à Berardo”. Tudo isto são sinais, códigos, éticos e políticos. Se assim fôr, fará sentido que a uma Universidade Católica (católica) repugnem certas indumentárias. Onde estará o problema?

  3. não vejo qualquer problema em existir um código de indumentária. Lembro que se trata de uma instituição privada, livre de colocara as regras que quer. Quem frequentar a universidade sabe as regras e é livre de la´ir ou não.

    • Youri Paiva diz:

      Por ser uma instituição privada não significa que não se critique. Os privados são sagrados, é?

  4. Luís Santos diz:

    Apoio totalmente esse código de vestuario!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  5. fernando andré rosa diz:

    Eu vejo a Universidade, num Estado Democrático (não estou a dizer que é o caso), como uma lugar de livre pensamento, de criatividade, de pesquisa, de desenvolvimento e de autonomia. E deveria ser com isso que o conselho científico e a reitoria se deveriam preocupar, porque o mercado já faz selecções suficientes, não só por referência a graus académicos, mas também, ao género, ao corpo, ao aspecto físico, à roupa, etc etc etc…
    Hoje criam-se escolas para engravatados, amanhã serão para meninos e meninas em separado (que isso de namorar na universidade não é coisa de bem), daqui a um tempo universidades para brancos…

    o que é triste é haver quem ache que isto não é relevante, porque eles são privados, e porque existe uma crise económica que todas as opressões absorve (como se o capitalismo tivesse surgido ontem, e as diferenças culturais fizessem parte de um passado remoto)

  6. a anarca diz:

    Estou-me nas tintas para como as pessoas se vestem
    mas que é
    deprimente ver pés terriveis de chinelos, é
    barrigas a sair das t-shirts, idem
    pessoas vestidas de dia como se fosse noite tb.
    imprimir bom senso é um acto caridoso 🙂

  7. Zé Maria diz:

    Imagem inicial : 20 valores.
    Escrita em tom irónico e com alguma comicidade: 15 valores.
    Tentativa de introduzir críticas que nada têm a ver com o assunto no último parágrafo: 5 valores.

    De facto o que as pessoas vestem não tem nada a ver com o que fazem. Já resolvi muito problemas no chuveiro e se bem me lembro estava nú. Nisto, tenho de concordar com o autor. No entanto, o último parágrafo é simplesmente descabido.

    “a universidade ser apenas e só um local de trabalho, em que uma pessoa não se pode divertir” – Anh? Ainda estamos a falar da mesma coisa? Mesmo que estivessemos – A faculdade é de facto um local de trabalho. Trabalho e diversão não são mutuamente exclusivos e muito menos é a troca de ideias, pensamentos, etc… (pergunto-me que Universidade é que o autor frequentou para ter tais questões).

    “…é uma coisa que dá jeito (não é, Nuno Crato?)” – Digo-lhe apenas que não conhece o individuo. Recomendo-lhe que se dê ao trabalho.

    Por pouco ia caindo no erro de lhe dizer que esse final lembra os discursos eruditos dos representantes da esquerda portuguesa. Não quero que pense que deu um tiro no pé.

    • Youri Paiva diz:

      Agradeço a avaliação, sempre é mais profunda do que um ‘like’ no Facebook.

      Quanto ao que dizes: meter as coisas em caixinhas é o primeiro passo para deixar tudo como está. A universidade é um local de trabalho, não nego isso, mas dar-lhe apenas esse nome é demonstrativo do caminho do ensino em Portugal – pensar que o ensino só serve para integrar pessoas numas profissões. Obrigar (ainda que o comunicado da UCP seja apenas isso, um comunicado) as pessoas a terem um código de vestuário (que até excluí coisas normais, como sandálias), porque na universidade não se pode divertir (só se pode trabalhar, pelos vistos), é um caminho na mecanização da universidade, do ensino. Parece que andamos para trás em tudo.

      • a anarca diz:

        estudar é ginastificar a mente é só por si aliciante e divertido…

        Se come na maioria das vezes com talheres
        à mesa bebe por um copo
        limpa-se ao guardanapo e não na manga de alguém que esteja ao lado …
        toma banho
        lava os dentes
        nos transportes levanta-se para dar lugar aos mais velhos
        imagino que não fala ao tlm num transporte publico

        logo executa uma data de acções que são livres mas as executa porquê ?

  8. José diz:

    Instituir regras de vestuário num universidade parece-me algo ridículo e ultrapassado.
    Veremos se a prática chegará perto das intenções…

  9. Zé Maria diz:

    Penso que o problema em Portugal é que a maioria dos debates são feitos a extremos.

    O ensino não deve formar apenas pessoas para o mercado de trabalho, mas também não se deve (como se tem feito nos últimos anos) formar jovens para o desemprego. Eduque-se até ao 9º que a partir daí o jovem sabe procurar as informações que pretende. Aproveite-se os anos seguintes para lhe dar ferramentas para conseguir sustentar-se o resto da vida.

    Eu gosto de ler. Nem me custou perder horas a fim a fazer a “caracterização física e psicológica de todas as personagens dos Maias” (sim todas, incluindo as secundárias). Mas pergunto-me se não fazia mais sentido que o programa de português do curso cientifico-natural fosse direccionado a questões mais relevantes para o meu futuro: Relatórios, Dissertações, Apresentações Orais ou mesmo uma coisa tão simples como escrever um texto formal. Aumentar a capacidade de comunicação dos alunos de modo a que não se veja vergonhas como as que eu vejo diariamente e que provavelmente os outros vêem em mim.

    Em vez disto, o que se ensina nas escolas portuguesas é a fingir que se sabe. Recentemente verifiquei o estudo de um aluno do 10º que tinha feito 5 páginas de exercícios de matemática. Quando lhe perguntei como fez o primeiro a resposta foi a que esperava: “Vi nas soluções!”. A ele só lhe exigiram que fizesse 5 páginas de exercícios…ele fez!

    Quanto à questão do vestiário na UCP… Não conhecendo o caso pessoalmente, sei de muitos professores universitários que não aprovam que os seu alunos assistam às aulas com ar de quem veio da praia (em muitos dos casos, é de onde eles vêem). Provavelmente este comunicado é reflexo das queixas que alguns docentes apresentaram sobre o tema, não é uma tentativa de censura ou supressão de liberdades. Nem é noticia de jornal.

    • Youri Paiva diz:

      A maioria dos debates são feitos a extremos? A maioria dos debates é sempre igual, sem extremos nem radicalismos, sem berros nem contras.

      Formar jovens para o desemprego? Então o desemprego é um problema da formação, e não daquilo a que se chama ‹‹mercado de trabalho››.

      O português servir para textos formais? Então e o resto? A literatura não é relevante, o que interessa são relatórios.

      Acho que há vários problemas no ensino, mas vires com um exemplo de um estudo de um aluno de um 10º ano qualquer, deixa-me que te diga, é bastante pouco académico.

      Os professores não aprovam o vestuário? Mas têm que aprovar vestuário? A UCP é uma escola de moda?

      • Zé Maria diz:

        Devemos ver debates diferentes. Até as mais consensuais das medidas têm a oposição de alguém neste país. Nem que seja do canto do costume: os senhores do contra.

        Claro que grande parte do desemprego é um problema de formação! Qual é o sentido de investir na formação de milhares de jornalistas (por exemplo) sabendo que muitos deles vão trabalhar para pingo doce? Por outro lado temos falta de médicos, engenheiros, … (para referir apenas formação universitária…porque temos falta de trabalhadores em áreas técnicas também).
        Atribuir este problema ao mercado de trabalho é ridículo. Criar mais meios de comunicação social só para empregar as resmas de jornalistas que temos desempregados? Nem os psicólogos arranjam trabalho e malucos não nos faltam!

        Literatura é relevante, mas não posso concordar que seja parte do currículo da escolaridade não-obrigatória. Quem está num curso de cientifico-natural é porque quer perseguir uma carreira nessa área. Pode, ou não, ter interesse em Fernando Pessoa, mas já conheceu o tema na escolaridade obrigatória e se o quiser aprofundar já tem capacidade para o fazer no seu tempo livre. Se não tiver interesse, também não o vai ganhar por o obrigarem a ler os seus textos apenas para conseguir manter a média.
        Mais: Qual é a lógica de que os seus conhecimentos sobre a Aparição sejam contabilizados para a nota de entrada em Medicina? Ridículo.

        Um exemplo é exactamente isso. Um exemplo. Posso listar aqui muitos, muitos mais. O principal problema da educação em Portugal é exactamente ter sido gerida por académicos sem exemplos. Não sabem do que falam. Não conhecem o terreno.

        Escola de moda…teve piada :). Pressuponho portanto que não haverá qualquer problema que um aluno vá apenas de roupa interior para a escola? Ou que imite uma conhecida cantora internacional e se cubra de carne e chame a isso roupa?
        Há limites sobre aquilo que é aceitável como vestuário na sociedade e em ocasiões especificas. Cada um tem os seus limites mas todos os temos. Até os naturistas se queixam quando têm gente vestida nos seus espaços.
        Apesar de, pessoalmente, não me incomodar nada ver gente de chinelos e calções a cheirar a maresia (que até me agrada) numa sala de aula, não me choca quando um professor de 60 anos (habituado ao tempo em que se ia de fato e gravata para um exame oral) sente que esse aluno o está a desrespeitar. Já se ele viesse coberto de carne…saia porta fora (é que o cheiro deve ser terrível).
        Viver em sociedade passa por respeitar os outros e há gente que não respeita os seus professores. Daí a recomendação. Não é nada de mais. Não é ditadura. É apenas uma recomendação para os mais distraídos. Fazer disto mais do que isso é folclore.

        Queria apenas acrescentar uma coisa sobre o tema da educação: Eu percebo a necessidade de educar as pessoas sobre temas “não-produtivos”. Literatura, música, pintura, formação cívica, educação física, etc…. Tudo isso é essencial para a formação de melhores portugueses e consequentemente de uma melhor sociedade. Mas é importante que, quando se debate este tema, se tenha em conta que mais importante do que tudo isso é formar as pessoas para o mercado de trabalho. Esse é o objectivo primário para os alunos e pais. Até do ponto de vista do estado, esse deve ser o objectivo principal.
        Na minha opinião, deve-se apostar na formação geral do individuo durante a escolaridade obrigatória (9º ano). Até aos 15 anos de idade, o aluno deve saber um pouco de tudo e ter uma visão alargada sobre a sociedade. A partir daí estamos a falar de alunos que continuam a estudar porque querem ter formação para arranjar um emprego. Quem estuda mais do que o 9º ano não é porque quer apenas continuar a molhar o pincel nas diferentes cores. Quer saber de alguma coisa em concreto. Quer aprender qualquer coisa que lhe providencie para o futuro.
        Isso não invalida que os alunos continuem a aprender outras coisas fora do espaço da escola. Muitos, muitos alunos procuram conhecimentos extra-curriculares e em muitos casos acabam por optar por seguir uma carreira associada a esse caminho (não vou dar exemplos, para não dizerem que é pouco académico).
        O que é ridículo não darmos soluções a alunos que querem (e precisam) de ter competências para encontrar um lugar no mercado de trabalho.

        Idealismo é muito bonito, mas tem de ser compensado com algum realismo. Senão dá no que se vê.

        • Youri Paiva diz:

          A questão do desemprego tem uma base que não é a do ensino. Dizer-se que a taxa de desemprego existe porque se formam mais pessoas em determinadas áreas é um tiro no pé: o mercado está virado para outras coisas actualmente.

          Quanto a um aluno de Medicina ter Literatura Portuguesa nunca foi algo que eu tenha dito. Uma coisa é ter isso como opção, outra coisa é fazer parte do programa dessa área. Mas a especialização tem os seus problemas, por mais que forme pessoas a ter uma capacidade específica, limita o campo de acção das pessoas.

          Mas concordo que o problema das Ciências da Educação é a falta de noção do que se passa, de não estar em contacto com as pessoas que estudam. A teoria por si é perigosa. Mas isso não significa que vamos meter a pedagogia no caixote do lixo.

          Não estamos a falar de pessoas nuas nem com vestidos feitos de carne. Estamos a falar de coisas banais: chinelos e t-shirts. Não vejo propriamente aqui um desvio de código, e uma recomendação pode ser chantagem. Gosto particularmente do apelo à bufaria nessa recomendação. Quanto ao respeito pelos professores, se vamos pela t-shirt e os chinelos não me parece que mude muita coisa nesse campo.

          De acordo com o penúltimo parágrafo. Mas digo: aprender dentro e fora da escola e o estudo não ser apenas preparação para exames atrás de preparação para exames (e os exames em si, claro).

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