Lixando a vidinha à gente

 

Em parte, parece que a Moody’s viu uma evidência. Afinal, não é necessário ser nenhum génio matemático ou contabilístico para concluir que a dívida pública portuguesa tem que ser re-escalonada, por ser impagável nas condições em que foi contratada.

Sobretudo aquela assumida nos últimos dois anos a juros surrealistas, na patética tentativa de sobrevivência política do anterior governo, procurando adiar o inevitável com tespestades de areia para os olhos, não dos tais de “mercados”, mas dos eleitores.

Isto porque os tais “mercados”, é claro, não estão ali para assegurar um simpático e seguro juro das suas aplicações financeiras (ou não se transaccionariam acções por preços que tornam miserável o dividendozinho anual, comparado com o rendimento noutros sítios onde pôr o dinheiro), mas para comprar e vender com lucro – ou seja, numa palavra de que não gostam, para especular.

Para os tais “mercados” (desculpem-me a evidência, mas é necessário repeti-la, já que os decisores políticos e económicos, seguidos de comentadores e media, regurgitam a vulgata marginalista mainstream que se ensina nas escolas onde os peões e barões dos “mercados” estudaram), é pouco relevante o valor real daquilo que transaccionam, ou o risco envolvido.

Se o valor intrínseco daquilo que compram e vendem fosse relevante (mas a teoria económica que partilham dogmaticamente diz que isso não existe, que só há valor no mercado), não teria acontecido a crise de 2008, de que andamos a pagar os prejuízos que eles tiveram.

Se os juros de dívida pública subissem por causa do maior risco de não se ser reembolsado e por ninguém o querer assumir, os tais de “mercados” não se acotovelariam para comprar cada emissão de dívida pública portuguesa, acotovelando-se tanto mais quanto maior for o juro que consigam sacar, suspostamente por ser maior o risco de incumprimento.

Risco pouco credível, aqui entre a gente, pois não imaginam a União Europeia a deixar cair um país do Euro em simples incumprimento de pagamento, mesmo que para isso tivesse que adoptar aquelas medidas óbvias que, chatice, tirariam aos bancos alemães e franceses em busca de re-capitalização este maná tão lucrativo – e, por isso, não foram até agora adoptadas.

Mas isso de o risco ser pouco relevante para os tais “mercados”, é uma forma de dizer. Passa a ser uma coisa muito relevante quando serve para fazer subir o lucro a ganhar – se for dívida, o juro e as condições de transacção nos mercados secundários. É a comezinha lógica de “quanto mais eles estão à rasca, mais caro lhes podemos vender o dinheiro”. Acompanhada de “quanto mais dissermos que é arriscado e mais exigirmos vender caro, mais eles ficam à rasca”.

“Acalmar os mercados” é, por isso, a maior das imbecilidades politico-económicas repetidas à exaustão no último ano. Os tais de “mercados” não querem ser acalmados, querem abocanhar este maná nas mais lucrativas condições possíveis. Querem razões de nervosismo – ou porque não se faz nada contra o seu ataque, ou porque se aceitam medidas recessivas que pioram a situação, em evidente desespero de quem está à rasca.

Claro que me chateia que, no meio disto tudo, não haja como criminalizar as “agências de rating” que servem de desculpa e instrumento a isto, e os decisores que nos meteram e mantêm no buraco que continuam a cavar. Mas adianta resmungar?

Parece-me que a coisa tão pouco passa por resmungar a evidência de que esta mesma Moody’s (e todas as congéneres) classificavam como AAA a Lehman Brothers e a Islândia, na véspera de falirem.

Também já não passa pela única coisa que teria evitado a situação, há um ano atrás – o resgate massivo, pelo BCE, de dívida pública dos países vulneráveis, antes vendida a juros incomportáveis. Mas, claro, como se iriam então os bancos alemães e franceses recapitalizar nestes tempos difíceis?

Por cá, passa certamente pelo rápido re-escalonamento da dívida.

E passa, caso a União Europeia queira estancar a hemorragia que é cada vez mais sua (não falemos de coisas esquisitas, como solidariedade, construção europeia e outras ideias ingénuas) pela urgente emissão de dívida pública europeia.

Nada de novo, como ideias. Mas não são mais evidentes a cada dia que passa?

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