Uma esperança moderada

Num governo que se prevê de direita ultra-liberal, tenho contudo algumas esperanças na área educativa, pela presença de Nuno Crato. Confio que, fiel ao que que foi defendendo publicamente, haja um contributo para a promoção do mérito e da exigência nas escolas e para a luta contra a pedagogia de cordel e o ensino do faz-de-conta que tem dominado o sistema educativo português nos últimos anos. A introdução de exames no 6º ano, a limitação do uso da calculadora nos primeiros ciclos de ensino ou a revisão do fecho de centenas de escolas são para já medidas interessantes.

No entanto, algumas (várias) questões se colocam e que fazem com que a esperança de evolução não possa ser mais do que moderada. Destaco duas. Por um lado, fica a dúvida se o ministro conseguirá contrariar o forte lobby dos “eduqueses” e gente das ciências da educação, que, com as suas lógicas construtivistas pseudo-modernas, mina a existência de um sistema sério e de qualidade. Por outro, estando num governo tão liberal, que despreza tanto o bem público e que se mostrou tão de acordo com os absurdos contratos de associação e com o escandaloso apoio a colégios privados, muitas vezes dotados de lógicas de funcionamento bem perversas, fica a dúvida sobre qual será o posicionamento do Ministério da Educação nesta matéria.

O futuro o dirá…

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30 respostas a Uma esperança moderada

  1. João Valente Aguiar diz:

    Esperança no Crato??!! Achas que o Crato foi escolhido por estar supostamente à esquerda do governo? O gajo é totalmente contra a escola pública. Deixa-te de lirismos e de inocências. Sinceramente não sei se o que escreves é pura ingenuidade ou centrismo político. Se calhar, as duas coisas…

    Torgal, com todo o respeito, escreve antes sobre música alternativa, sobre os grandes The National, Radiohead ou Interpol. Ou então deixa esse lado moderadozinho na avaliação de gente que simplesmente não quer saber para nada dos professores e dos alunos. E do povo.

    • Youri Paiva diz:

      João Torgal, aqui está algo que não esperava ler por aqui. Este Nuno Crato vai contra toda e qualquer ideia de um ensino que tenha outro objectivo para além de formar uns carneirinhos. É a continuação da caminhada para o definhamento do ensino, sem qualidade, só para alguns, e sem interesse.

      Parece-me que aqui está muito sobre esta perigosa personagem: http://olhequenao.wordpress.com/2011/06/23/o-examinador/

      Mas, aparentemente, temos outras preocupações.

      • Discordo de tudo ou quase tudo do que está escrito nesse post. Sim, acho que deve haver mais exames. Não, não acho que isso signifique um ensino elitista, porque só com exigência haverá igual oportunidades para todos. Sim, li o “O ‘Eduquês’ em discurso directo” e não poderia concordar mais com grande parte do que aí é referido. Sim, acho de uma inutilidade tremenda grande parte do que é apresentado (e com grande poder) pelas gentes das ciências da educação (a pedagogia no abstracto não é pedagogia, é o vazio total). Estão para mim na mesma escala que, num outro contexto, os psicólogos de recursos humanos de muitas entidades empregadoras. Querem padronizar tudo e o resultado só pode ser desastroso.

        • Youri Paiva diz:

          Pois, sim, eu percebo que acredites nisso que escreveste. Acho é que não faz sentido nenhum. Existirem pessoas que pensem para que serve o ensino, como se ensina, para que serve a pedagogia e que ao mesmo tempo questionam o sistema em que vivemos, parece-me absolutamente pertinente. Não sou contra a ciência, e a educação ser vista como uma parece-me fazer sentido. Mas é uma ciência social, por isso mesmo é que a abundância de exames não faz qualquer sentido. A existência de formulários, a mera preparação dos alunos para preencherem formulários, parece-me pouco interessante, imaginativa, interrogativa e crítica. A educação não é uma ciência exacta em que 1+1=2, por isso é que não é igualitária pela exigência – mas por pensar-se que existem pessoas e não plantas (bem, elas existem, mas não são elas que estão na sala).

          • Eu acredito na ciência e na sua importância, mas não em ciências esotéricas, cuja importância é bastante discutível. Dificilmente voltarei a “aprender” conteúdos mais inúteis do que no 1º ano de mestrado em ensino. Trivialidades psico-pedagógicas disfarçadas de conhecimento científico rigoroso. Quem muitas vezes vê os alunos como plantas (ou como peças de uma fábrica) são precisamente as Ciências da Educação, que teorizam tudo, sem terem muitas vezes qualquer noção do que se passa na realidade. Só o facto de ensinar a ensinar, quando nunca se deu aulas numa escola e não se tem nenhum conhecimento científico válido para ensinar, não é desde logo um enorme paradoxo?

            Numa dessas disciplinas educativas que tive, bastava cumprir as tarefas, independentemente da qualidade do trabalho, para que se tivesse 19. É essa a noção de exigência que depois se tem e que está por trás de propostas bárbaras como o fim das reprovações.

          • Youri Paiva diz:

            Desculpa lá a demora em responder ao teu último comentário, mas muito que fazer. Adiante.

            Ciência esotérica? Bem, essa foi uma tirada bastante patética, desculpa lá. Mas dando isso de barato, o que me choca é achar-se que a crítica, o pensar sobre e o querer construir alguma coisa da educação é uma coisa esotérica. É certo que as ciências da educação têm vários problemas – alguns dos quais enumeraste -, mas não querer pensar sobre o ensino (dentro e fora dele), para que serve afinal o ensino, o que é ser professor, o que é o estudo, não querer meramente formar uns especialistas, o dar ferramentas, enfim, considerar isto esotérico é ridículo. Então pensar no mundo é esotérico e não é válido. Vamos racionalizar tudo. E racionar. Cortar, cortar, até à máquina final.

  2. Garrett diz:

    Boa tarde João.

    Nunca comentei um post seu, mas aqui vai a estreia…

    Suponho que, tal como eu, o João não alinhe pela ideologia do ministro… ou fui só eu que ouvi a frase, há coisa de dois anos na sic noticias, “quem não consegue, vai para as obras ou coisa assim…”?

    Mais rigor, é essencial, e talvez (para mim, sim!) altere o marasmo com que os próprios professores encaram o trabalho que têm para fazer…(nos últimos dois anos, a única preocupação de todos, mesmo todos!, os professores das escolas onde estive era como preencher a auto-avaliação! Não, não era o que faziam, era “o que preenchiam”…).

    Quanto ao que se passa nas escolas com contrato de associação, tenho 3 experiências (duas delas com mais de 3 anos de serviço – a outra foram 6 meses, por isso não seria intelectualmente sério inclui-la aqui…). Uma das duas, era uma escola séria e bem gerida (avaliada com bom tal como as más…),mas ainda assim, recusava alunos com dificuldades motoras e alunos com nee’s profundas, porque, não tinha “instalações para tal” – mesmo que o aquecimento e os elevadores sejam obrigatórios nas públicas!!! E mesmo assim, o dono do colégio (não era o director) podia aparecer todos os anos com um carro novo de 100 mil euros – e os alunos com cobertores nas aulas em Janeiro e Fevereiro!!!

    Coisa boa- neste distrito, qual chapada de luva branca, uma escola TEIP, que ficava com alunos recusados pela outra, fica sempre em 2º ou 3º nos rankings dos exames… 10 lugares à frente das tais privadas… ou seja, alguém que me explique porque raio estas escolas recebem mais dinheiro por turma que as públicas – especialmente quando podem recusar alunos deficientes, com dificuldades de aprendizagem, ciganos, etc…

    Quanto aos ‘eduqueses’… até fico religioso… Deus nos livre!!!

    Abraço!

    P.S. – é o distrito com mais escolas com contrato de associação do país… e só uma dessas é “que equipa” para lutar com as outras, incluindo a tal TEIP!

  3. João Torgal diz:

    Sim, esperança no Crato. Tem pelo menos um visão educativa com muitos aspectos interessantes. Mas, tal como referi, uma esperança com muitas reticências, pela perspectiva global do governo.

    Garrett, não me lembro dessa frase do Crato. Se o disse, naturalmente que não alinho com ela. E, completamente de acordo, a atitude imobilista, demasiado umbiguista e com vistas curtas de muitos professores tem também muita responsabilidade no estado a que as coisas chegaram. E também, claro, com o escândalo que é o financiamento dos privados.

    Quanto aos posts musicais, eles vão surgindo 🙂

  4. Carlos Sousa diz:

    Se todos os técnicos soubessem gerir, este país não tinha problemas…
    Como é que se pode falar em reforma na educação sem falar em formação de professores, é que nem toda a gente consegue transmitir conhecimento, e também não me parece que a limitação do uso de calculadora nos primeiros ciclos substitua as lacunas existentes no programa de matemática desses mesmos ciclos.
    Adaptem o ensino às novas tecnologias, introduzam o raciocínio lógico nas escolas e já é meio caminho andado para termos uma evolução realmente efectiva no ensino.

  5. João Torgal diz:

    “Adaptar o ensino às novas tecnologias”: excessivamente adaptado e subjugado às novas tecnologias está ele.

    • Carlos Sousa diz:

      “Excessivamente adaptado e subjugado às novas tecnologias está ele” : e qual foi a formação que foi dada aos professores para essa nova realidade?

  6. João Torgal diz:

    Outra das medidas essenciais passa por acabar com a actual classificação profissional, em que toda a formação científica passou a ser desprezada. Só contam as notas dos Mestrados educacionais, ou seja, o lado pedagógico, em que, para além do estágio (importantíssimo), constam inúmeras cadeiras psico-pedagógicas, de importância bem discutível. Uma questão gravíssima que pouco ou nada foi divulgada.

  7. António Paço diz:

    «Agora que já começamos a ter algum dinheiro, já podemos começar a fazer alguma política», disse um Salazar muito recente no Governo ao seu amigo Mário Figueiredo. De que dinheiro dispõe o Ministério da Educação no Orçamento de Passos Coelho e Paulo Portas para o Nuno Crato poder começar a fazer alguma política? Esta é a primeira pergunta relevante a fazer.

    • João Valente Aguiar diz:

      Concordo contigo caro António mas não podemos esquecer o facto de que mesmo sem dinheiro o Ministério consegue destruir a escola pública. Por exemplo, municipalizando a rede de ensino, não abrindo concurso de admissão, manter currículos discutíveis em várias disciplinas, etc. Claro que estas iniciativas têm motivações económicas mas elas são feitas por um motivo ideológico e não apenas por terem ou não orçamento disponível.

      • António Paço diz:

        De acordo, João. A dos carcanhóis é só a primeira questão. Porque se não há dinheiro, o ministério tende a confundir-se com uma comissão liquidatária.

    • Omega-3 diz:

      o melhor é,irem pedir ao dias loureiro,oliveira costa,f. do amaral,cardoso e(?) cunha.Estes ‘entelectuais’ ao ldo de ladrões não são honestos!!!!!Pqp!

  8. Bruno Carvalho diz:

    Este tipo de ilusões e esperanças moderadas é o que nos tem amordaçado nos últimos 35 anos.

  9. João Pais diz:

    Lembra-te onde a confiança no Nobre te levou, e esse nem era membro de nenhum governo… À primeira caem os ingénuos, à segunda…

    • Bolota diz:

      Torgal,

      É uma personalidade com que engraço, como engraçava com Fernando Nobre que não me conseguiu arrastar. Mesmo assim, não o via nesta area politica, via-o mais á esquerda do PSD.
      Se calhar por isso, quero que o Crato, 1º dê provas e depois…já começou por parar o encerramento das escolas do 1º ciclo. ..

      Como diz o ditado; VER para CRER

      • João Pais diz:

        Parou o encerramento de escolas mas apenas o “suspendeu para reavaliar” como o PSD faz sempre que chega ao poder depois de um governo PS (lembram-se da revisão curricular?) para depois fazer o mesmo com outro nome ou pior. Esta memória de peixe de aquário tira-me do sério!… Vocês não viviam neste país há 6 anos? Vocês não leram o program do governo?! Abram a pestana meus senhores, que já se vai fazendo tarde…

  10. Pingback: Políticas e ideologias da Educação « APEDE

  11. Tiago Vasconcelos diz:

    Concordo com o João. As ideias de Nuno Crato apontam no sentido certo. Resta agora saber se ele vai conseguir mudar a gigantesca máquina burocrática do Ministério da Educação onde enxameiam os apologistas do «eduquês». Um ministro pode ser quem tem mais poder, mas se todos abaixo dele na cadeia hierárquica remarem no sentido oposto e sabotarem a aplicação das reformas então pouco muda.

  12. Num país de treinadores de bancada, em que por ter dado uns pontapés numa trapeira qualquer um acha que “pode dar a tática”, é natural que todos os que andaram no liceu se achem capacitados para dissertar sobre educação.
    Dar sequer o benefício da dúvida ao novo ministro da edcuação só é possível ignorando que Crato é tão só uns dos quatro Chicago Boys deste governo, escolhido para aprofundar a privatização de um dos sectores mais atractivos para o capital depois dos monopólios naturais – água e energia – e da saúde.
    Quanto às tiradas sobre “a excessiva dependência” que o ensino tem em relação às novas tecnologias, ou sobre a classificação profissional em que supostamente a formação científica teria sido desprezada, apenas revelam a ignorância de quem escreve só por ouvir dizer.
    Por favor, João Torgal, abstenha-se de dar opiniões sobre coisas sérias que não domina.

    • João Torgal diz:

      Engana-se e faz juízos de valor gratuitos sobre mim. Fui professor durante dois anos e apresentei-me no concurso para docentes contratados de 2010. Só o Mestrado de Ensino contou, toda a formação científica dos anos da licenciatura bolonhesa é simplesmente ignorada (tanto faz ter 10 como 18 de média). Posto isto, se calhar dava jeito um mea culpa…

      E, sim, pegando no texto que tem escrito no seu blog, sou favorável à integração, a turmas mais pequenas, ao apoio às pessoas mais carenciadas e ao investimento forte no ensino público. Mas com exigência e com a manutenção dos chumbos (e sim é ser de esquerda, garantindo que há reais oportunidades para todos e evitando a existência de escolas privadas de primeira e públicas de refugo), só assim a escola pode dar um exemplo de seriedade e não ser uma brincadeira para se passar o tempo.

  13. Uma espreitadela ao link aí em baixo dá algum esclarecimento sobre a substância política do Nuno Crato:
    Novo governo 1 – Citações de Nuno Crato
    http://www.vermelhos.net/index.php?option=com_content&view=article&id=856

    • João Torgal diz:

      Sim, a defesa do financiamento das escolas privadas foi algo que me criou logo bastantes reticências sobre de que forma iria (ou não) investir na escola pública

  14. Dédé diz:

    Vamos lá então ver como o simpático divulgador da Matemática e exímio cruzado anti-eduquês se vai safar. Mas antes talvez seja bom esclarecer what we talk when we talk about eduquês.

    É que o eduquês de que fala Crato não tem nada a ver com o eduquês de Marçalo Grilo, o homem que cunhou a palavra referindo-se à burocracia da 5 de Outubro. Eduquês é para Crato o “straw man” da sua luta pelo retorno a uma escola elitista e conservadora.

    A ver vamos se o Nuno não passa afinal de mais um dos nossos Grilos da Nação:
    OS GRILOS DA NAÇÃO E a minha curiosidade em ver como Nuno Crato vai descalçar esta bota.

  15. João Torgal diz:

    “Elitista e conservadora” é o que acaba por ser a escola actual, disfarçada por detrás do falacioso manto da integração e da inclusão e dividida escandalosamente em escolas de 1ª e de 2ª. No ano passado estive numa escola T.E.I.P e imagino bem o que vai dar o facilitismo: quando no secundário ou no superior se fizer a triagem, quem esteve em escolas exigentes e/ou tenha dinheiro para explicações safa-se, os miúdos que tenham o azar de ter estado numa escola pior, com problemas familiares e sem hipóteses financeiras de terem explicações vão pagar bem cara a factura da pseudo-ajuda que anteriormente lhes foi “oferecida”.

  16. César diz:

    O Nuno Crato é indie.

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