Galdéria é a tua tia, pá

Haverá uma teoria qualquer a conjecturar que banalizar o insulto é subtrair-lhe a ofensa, ou seja, que dizermos que somos é não sermos. Não percebo as subtilezas, se as há: é-se galdéria em confissão, solidariedade e/ou ironia? Não é melhor afirmarmos que a vida pertence a quem a vive? Marcos é feminista nos partidos políticos, mas não é galdéria em Lisboa.

No manifesto dos decotes, “não é não”. É “não” se ela “põe as calças de que ele tanto gosta” e se “sai com xs maiores galdérixs”, mas não é “não” se ela é a maior galdéria. Ora, a maior galdéria também tem legitimidade para dar uma nega. Dir-me-ão que se subentende e é certo que sim, mas permitir-me-ão retorquir que é curioso que o manifesto das galdérias não explicite o “não” da galdéria, sobretudo porque a fuga à redundância (e ao superlativo) não terá sido um cuidado de quem o escreveu. Às tantas, haverá por aqui uma cebola de ironias que eu não sei descascar e, não sabendo, tomo-a por batata.

Entendam-me, tenho tudo a favor do folclore e é por isso que prezo a fúria que brota cá de dentro em detrimento da urgência na importação canadiana. Acho que a solidariedade é linda e que passa por tomarmos as lutas dos outros como nossas, mas que não temos de salivar como o cão do Pavlov. O direito à autodeterminação das mulheres não é uma luta parida pelas feministas canadianas, é global e, sobretudo, local. É a luta da miúda transmontana que não pode sonhar com ser jogadora de futebol, mas também a do miúdo alentejano que não pode querer ser esteticista, porque só quando formos pares é que poderemos sonhar e querer o mesmo.

O problema não é o decote e as palavras pesam. Não adianta divagar sobre quantas mulheres violadas por um decote respondem “sou” a “galdéria”, não fiz uma sondagem e prefiro não dançar na areia movediça. Não conseguimos aproximar-nos dos outros se é só nós que nós vemos. Podemos dar-lhes a nossa voz, mas a voz deles não é nossa e não falamos todos a mesma língua. Faz-nos bem olhar para fora da nossa caixa, por muito iluminada que esteja.

Há sombra lá fora.

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