INDIGNADOS NA ENCRUZILHADA – A ideia de deixar a ideia ficar em casa não é uma ideologia perigosa? O que quer trazer para a rua quem quer deixar a ideologia no armário?

“hay que dejar las ideologías en casa.”

O movimento que varreu as ruas do Estado espanhol e do Mundo, que se concretizou em perto de mil cidades diferentes, está na encruzilhada e as suas próximas escolhas serão determinantes para o trilho que vai continuar a fazer.

Ao longo das últimas já largas semanas, milhares de activistas encontraram-se na praça. Com proveniências sociais e ideológicas distintas convergiam numa ideia comum: a democracia que temos não é a democracia que queremos.

Este postulado, tão inteligente como necessário, é a antítese do que um sector do movimento anda a defender e que se resume na passagem que abre esta posta.

O caminho que alegadamente deixa as ideologias em casa é, paradoxalmente, profundamente ideológico. Embrulhado na aparente novidade, e também aqui mais velho do que muitas das soluções experimentadas no século XX, a sua escolha retirará ao movimento uma parte significativa do seu potencial transformador. A vingar, afastará todos os que não se convencerem, deixará o movimento completamente exposto à sabotagem (da polícia e dos que o combatem politicamente) e pior, ficará imobilizado face à impossibilidade de decidir o que quer que seja e incapaz de ir além do que à partida já parecia elementar.

A defesa do consenso como método de votação, que abre caminho ao direito de veto e à unanimidade, vias rápidas do pensamento único e do atrofia social, mais não faz do que permitir que sejam os mesmos de sempre a decidir pelo cansaço. O militante profissional ou o activista abnegado, votará a sua ideia não fundada na qualidade dos argumentos mas na sua capacidade em iludir o sono e vencer os que não têm tempo a perder para mudar a vida. Os trabalhadores, os estudantes que estudem, os desempregados que andam à procura de emprego, os precários, os que têm filhos a acordar cedo ou simplesmente aqueles que não compreendem que para tomar o seu destino nas mãos têm que estar horas infinitas à procura dos consensos que o antagonismo existente, naturalmente, não está capaz de gerar, continuarão de fora. Em suma, a maioria, aquela que sem a qual ninguém muda de vida, continuará a ver a sua palavra valer menos e sem capacidade de decidir o seu futuro horizontalmente, pelo que a democracia continuará a não ser verdadeira.

Esta foi a primeira via para que se tentasse impedisse que a troca de ideias produzi-se ideologia, ou seja, a transformação das ideias em acção, e uma vez derrotada também em Madrid e em Barcelona, onde se vota por maioria simples aquilo que é de simples decisão, agora a guerra foi aberta às ideias e à unidade do movimento já tinha construído até aqui.

O que sobra se as ideias ou quem pensa diferente ficarem de fora? A ideia de deixar a ideia ficar em casa não é uma ideologia perigosa? Lutar por outra democracia, por outro trabalho, por mais direitos e garantias, por mudanças no sistema político, pela devolução da voz às pessoas, pela luta contra as organizações que nos colocaram sob resgate, em suma, a luta pela abertura de novos caminhos, não é, no final de contas, a ideia que tem levado o mundo inteiro de regresso à praça pública? O que quer trazer para a rua quem quer deixar a ideologia no armário?

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