UM ÚLTIMO LIVRO: «Paulista de Pindorama, moro em São Paulo desde a adolescência. Isto posto, acho que posso passar por um sujeito sem biografia, pois….

…. minha vida tem se resumido à banalidade de uns poucos desencontros. No colegial, depois de dois anos no científico, pulei pro Clássico. Comecei o curso de Letras Clássicas, nos tempos da Rua Maria Antônia, mas logo desisti. Estudei Direito no Largo de São Francisco, mas abandonei o curso no último ano. Cursei Filosofia na mesma Maria Antônia, e ia me iniciar na carreira universitária, mas piquei a mula em tempo. Tentei me aventurar no estrangeiro, mas dei com os burros nágua. Dediquei uns bons aninhos ao jornalismo, e nunca mais voltei a uma redação. Diante disso, meu caro leitor, e mesmo diante de outros desenganos não tão banais, seria ledo engano concluir que só fiz quebrar a cara na vida. Hoje, finalmente, estou perto de realizar o que mais queria ser quando criança: criador! Nada a ver, está claro, com a auto-suficiência exclusiva dos artistas (Deus os tenha!), que estou falando simplesmente em criador de bichos. É o que venho fazendo no sítio Capaúva, a 250 Km de São Paulo, onde tenho passado mais tempo que na capital. Aliás, se já suspeitei uma vez, continuo agora mais desconfiado ainda que não há criação artística que se compare a uma criação de galinhas»

RADUAN NASSAR, em 1978 anunciando o terminus da sua actividade literária!

Quem não leu, que leia, quem leu, que releia: este tipo foi para o campo, mandou-nos às favas, fez muito bem, escreve ao longo da vida apenas três pequenos livros: o conto Um Copo de Cólera, o “romance” Lavoura Arcaica e os contos Menina a Caminho. Mais nada e nada mais aparecerá – não sei se ele vive numa fazenda tratando bicho, ou na cidade de São Paulo: mas não contem, dele, com mais “literatura”. E escrevam comigo: esqueçam tudo, NASSAR é (não só para mim, pobre de mim!) o melhor escritor brasileiro do século XX.

De Lavoura Arcaica:

(…) que culpa temos nós dessa planta da infância, de sua sedução, de seu viço e constância? que culpa temos nós se fomos duramente atingidos pelo vírus fatal dos afagos desmedidos? que culpa temos nós se tantas folhas tenras escondiam a haste mórbida desta rama? que culpa temos nós se fomos acertados para cair na trama desta armadilha? temos os dedos, os nós dos joelhos, as mãos e os pés, e os nós dos cotovelos enroscados na malha deste visgo, entenda que, além de nossas unhas e de nossas penas, teríamos com a separação nossos corpos mutilados; me ajude, portanto, querida irmã, me ajude para eu possa te ajudar (…)

eu tinha gordura nos meus olhos, uma fuligem negra se misturava ao azeite grosso, era uma pasta escura me cobrindo a vista, era a imaginação mais lúbrica me subindo num só jorro, e minha mãos cheias de febre que desfaziam os botões violentos da camisa, descendo logo pela braguilha, reencontravam altivamente a sua vocação primitiva, já eram as mãos remotas do assassino (…)

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