RESPONDENDO a tudo tudo tudo (Livros) com educação extremada e irrepreensível

É isto que querem (Ouriquense, João Gonçalves e maradona) ?

1 – Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Poderia começar de forma caótica (“vazia”? “pomposa”?), não indicando títulos mas autores, autores que detalharei (nos “preferidos”, com títulos), que me satisfazem no meu prazer de saborear vistas desesperançadas, sobretudo se com embrulho “estético”, ou melhor, com alma sedutora (para mandarmos a esperança pró lixo), autores como CIORAN, DEBORD, SHAKESPEARE, ROTH, COETZEE, mas a pergunta pede-me um livro, UM, e eu penso porque não responder de Sto AGOSTINHO, as Confissões (lê-se: “Daqui passa-se à indagação dos segredos da natureza … que não há nenhum proveito em conhecer, mas os homens não desejam senão conhecer” – e é a própria relação entre conhecimento e infinito que aqui está em causa, pois conhecer não é estética, ciência nem teologia: como não sei, de facto, o que é, lanço-me por aí e acabo por vir a “conhecer”. AGOSTINHO ensina a familiaridade destes problemas. E é um poeta do outro mundo. Escolha única feita. Pode acabar aqui o questionário?).

2 – Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Vem-me à mente o nome de Bernard-Henry Lévy, a bosta, mas não sei se com este tipo tentei algum desses exercícios (parar, recomeçar, etc.); portanto, ainda não respondi à pergunta. Entretanto, aqui à minha volta estão 3 coisas à espera de tempo para trabalho sério (a sério): STIRNER, O Único e a sua Propriedade; CLAUSEWITZ, Vom Kriege e WARBURG (na edição do Getty Research, superlativa!), The Renewal of Pagan Antiquity. Não há aqui pesporrência ou vaidade, apenas uma “confissão”: hei-de terminá-los em breve.
Também gosto de pensar que ninguém deve chegar ao fim do cerradíssimo The Andy Warhol Diaries: não sei quantas datas e entradas começam por “It was a beautiful day”. É a vingança de um génio e um livro fantástico: uma vez que estamos numa sociedade em que tudo foi esteticizado (vida, morte, consumo, desastres, cadeiras eléctricas, liberdade, objectos, homens, mulheres), o católico hipocondríaco WARHOL decidiu dessacralizar, banalizar e inutilizar tudo!! 

3 – Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Talvez Finnegans Wake. Porque a leitura tem de ser um “auto-retrato do leitor enquanto criatura limitada”. Tomando consciência de tal, o leitor (eu, neste caso) vai sempre em frente, não pára e acaba por ultrapassar o escritor, porque depois lê-o, interpreta-o, e sobre ele exerce “juízo de valor”.
Falando também a sério (e estava, desde o início, claro), acho que devia citar as Vidas do VASARI.
Mas não, na verdade terá de ser A República, de PLATÃO, porque aí se mostra um mundo onde tudo se deve inverter: os valores e a instituição familiar e a abjecta propriedade privada. O comunitarismo (que se lixe ARISTÓTELES, que não gostava nada disto).

4 – Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
As obras completas de ESTALINE (tenho aqui um The Essential Stalin: Major Theoretical Writings, 1905-52, da Anchor Books, Nova Iorque, 1972 – mas isto não me chega!!!). E, claro, o The Andy Warhol Diaries.

5- Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
J. M. COETZEE, Age of Iron.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Tinha, evidentemente. Tenho aqui três preciosidades desse tempo, do tamanho da palma da minha mão: os Estatutos do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (1975); uma coisinha do Comité Lenine também do MR, Pensar, Agir e Viver como revolucionários! (1972), e, de ARNALDO MATOS Acerca das Comissões de Trabalhadores (1975). Não lia “policiais” nem “ficção científica”.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Gosto de coisas chatas. Mas poderia citar 2 livros de ARTHUR C. DANTO sobre a Cindy Sherman. Li por causa da Cindy Sherman. E estou chateado.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Não vou usar nem a ordem cronológica, nem a arrumação temática. Mas justifico:
ROSALIND KRAUSS, The Originality of Avant-Garde and Other Modernists Myths; preciosa Krauss, porque me desvia da obrigação de citar a Crítica da Faculdade do Juízo, que deveria citar por todas as razões, e não o faço agora porque este “The Originality…” começa desta maneira: “Não se pode defender que o interesse da crítica repousa no seu método? Não se pode sustentar que o conteúdo de qualquer enunciado avaliativo – ‘bom, importante’, ‘mau trivial’ – não é aquilo que comanda a crítica séria? Diferentemente, a crítica séria percorre as formas e inventa argumentos, de forma que é o método, no processo constitutivo da crítica, que expõe escolhas que precedem o acto do juízo” (!!!)
HAL FOSTER, The Return of The Real: The Avant-Garde at the End of the Century (o melhor estudo sobre o passado, o presente e o futuro das vanguardas).
DERRIDA, dois: Marges de la Philosophie: não se percebe a desconstrução sem a leitura do cap. “A Mitologia Branca”, a crítica e a crise da mitologia do “homem branco” e do seu falogocularcentrismo; ainda e sempre, Mémoires d’Aveugle: L’Autoportrait et Autres Ruines, infinitamente superior ao que DELEUZE escreveu sobre Bacon (Logique de la Sensation); ah, o BADIOU, sim, marcante o L’Éthique, um cartão de visita do caraças.
HEIDEGGER, duas vezes: o Sein und Zeit (§39: “Ser é cair, cair é Ser”); e o que dizer do Parmenides, hã: “A problemática realidade de que um pensador necessita hoje de 400 páginas para expressar algo, é um sinal inequívoco de que o pensamento moderno se afastou do pensamento primordial. A Crítica da Razão Pura e a Fenomenologia do Espírito são sinais de que o homem está no caminho do erro” (!!!). Meu Deus, que dizer mais (hã António Figueira)??
SARTRE, L’Être et le Néant : só o capítulo sobre o OLHAR vale uma vida (Parte terceira, IV); a propósito, MARTIN JAY, Downcast Eyes: The Denigration of Vision in Twentieth-Century French Thought : sem este livro, eu seria uma besta cega, vendo sem ver (e sou, com todo o prazer).
PLATÃO, A República (já disse porquê, e não liguem ao Livro II da Política do Estagirita, porque ele não tem razão).
JOYCE, Ulisses, work in progress, para manter como tal.
THOMAS MANN, Doktor Faustus: faz o artista um pacto que o impede de amar; será verdade a oposição génio/amor? Não.… de BROCH, Der Tod des Vergil: pode o poeta destruir a sua obra, a Eneida? É sua ou é do Estado? Isto faz-me lembrar o imbecil de “Um blog sobre Kleist” que há tempos se mostrava indignado por eu ter elogiado SAVONAROLA (e os seus sermões também devem ser considerados “meus livros”) por ter queimado pinturas, mal sabe o tosco e cabotino blogueiro que é com a arte e da arte que eu vivo (que ganho o meu salário).
– De outra assentada: GABRIELA LLANSOL, Onde Vais Drama Poesia?; CARLOS DE OLIVEIRA, Finisterra; AGUSTINA, Antes do Degelo (o tema da “quebra da razão” é fascinante – depois disso, mata-se, e o que é a “quebra da razão”, quando se dá? Tenhamos medo); VIRGÍLIO FERREIRA, Para Sempre; e ainda a obra daquele monge de Singeverga, DANIEL FARIA, conhecem?
– D’ A República e das Confissões já falei, não foi?
– Mais dois “livrinhos”: LEZAMA LIMA, Paradiso (“A mão de Baldovina separou as cortinas de casa do mosquiteiro, remexeu suavemente como se fora uma esponja que ali estava e não um menino de cinco anos; abriu-lhe a camisola e contemplou todo o peito do menino coberto de crostas, de sulcos de violenta coloração, e o peito que se dilatava…” – sabem o que é o barroco? O compatriota de LEZAMA, o SARDUY sabe).
– Como se vive mal e eu gosto muito disso, vamos ao THOMAS BERNHARD, O Náufrago; e porque não Os Irmãos Karamazov (sim, tudo é permitido, e nada é para nada).
– Gosto do DEBORD de in girum imus nocte et consumimur igni (script): “Esta ‘terra infectada’ tornou-se ingovernável; esta terra onde os novos sofrimentos se disfarçam com o nome dos antigos prazeres; e onde as pessoas tanto medo têm. Elas movem-se na noite sem saída e são devoradas pelo fogo”.
– Mas a obra perfeita, é, ao mesmo tempo,  a mise en abîme perfeita, Hamlet, evidentemente, e o seu Assassínio de Gonzaga. Quando uma obra contém outra obra que nos explica tudo, estamos salvos. E falta LENINE, as Obras Completas – não se pode viver sem isto. Do que me esqueci (e eu sei de quê) lembrar-me-ei depois.

9. Que livro estás a ler neste momento?
Sempre os volumes do grande ROBERTO LONGHI sobre Merisi da Caravaggio: o Quesiti Caravaggeschi e os volumes I e II dos Studi Caravaggeschi (tudo na Sansoni e nas obras completas de Longhi): e assim vou percebendo a besta que sou! Ainda: TEIXEIRA GOMES, Cartas a Columbano e, de MICHEL HENRY, Incarnation: Une Philosophie de la Chair.

10. Indica dez amigos para responderem a isto.
Vou pensar.

ADENDA, 14:08. Já pensei: aqui da casa, o Bruno Peixe, o Nuno Ramos de Almeida e, como o Figueira pediu e bem, e eu gosto dela, a Sassmine (e o Figueira também a avisou o que lhe pode acontecer se não responder!); e não, não quero incomodar a Helena Borges, a não ser que…..; também o Ricky ex-Radio Miami; o Carlos Botelho, Paulo Tunhas e obrigatroriamente a zazie, o Vitor Dias, o grande camarada blogosférico Party Program, pedras contra canhões e Fátima Ribeiro. 11. (E tu, Almajecta, por onde andas agora? PS: e sei que o Renato tem mais que fazer.)

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