As minhas 4 exposições de Junho (na “Sábado”)

JOÃO LOURO
BES Arte & Finança, Lisboa (até 15/7)
João Louro expõe desde os inícios de 90: objectos, instalações, pintura, fotografia e vídeo (documentário, nesta exposição). Dele se pode dizer que suspeita da força desviante das imagens, representação perfeita e sedutora. Mais desviante do que alienante, até porque o autor sempre preferiu mostrar o funcionamento das imagens, das marcas, dos signos omnipresentes na “sociedade do espectáculo”, sempre se interessou mais por essa amostragem do que pela sua crítica ou rasura explícita. Mas, quando necessário apaga imagens: são as “Blind Images” (desde 2001: fotografias negras com títulos alusivos a episódios conhecidos da história, mas aqui sem nada visível). Agora, no átrio do BES, mostra uma experiência pessoal nas cidades de S. Diego (rica, limpa e universitária) e Tijuana (pobre e caótica – ao serviço dos americanos). Um vídeo é central: em Tijuana, o autor compra um automóvel numa sucata, vende-o em S. Diego pintado com tinta dourada (lixo e luxo); depois volta a Tijuana e oferece os dólares a crianças de uma escola para que os pintem; seguidamente, esses dólares voltam para a “pátria” de origem. Fluxos de imagens, fluxos de dinheiro. (“Sábado”, 2/6)

JOSÉ PEDRO CROFT
Chiado 8. Lg. do Chiado, 8 (até 8/7)
José Pedro Croft expõe escultura desde o início dos anos 80. Escultura que é por vezes “instalação”, trazendo inusitados materiais à nossa presença, outras vezes relaciona-se com a pintura e, agora, mostra-nos pela primeira vez, fotografias (juntamente com esculturas recentes), fotografias-contraponto e não fotografias-ponto de partida. A definição que nos dá, no catálogo, de fotografia, faz-nos pensar no carácter multifacetado do seu trabalho. Diz-nos o autor que a fotografia é “leve”, deambula sem raízes. E a escultura é peso, gravidade, “marcação de território”. Nos seus primeiros anos, Croft, no mármore, queria mostrar que a escultura era a arte do espaço. Actualmente, opta por produzir objectos sensoriais, com vidros coloridos e leves estruturas, que aproximam a escultura da pintura e do nomadismo da fotografia. Estes vidros, porque são transparentes, deixam ver as paredes das salas, o que quer dizer que a escultura pretende pousar na parede, como a pintura, e aí poder ser vista e fragmentada. Nalgumas obras, precisamente, a escultura adere à parede e dela sai ao nosso encontro. (“Sábado”, 9/6)

ALFREDO JAAR
“A Hundred Times Nguyen”. Museu Berardo (Expo PhotoEspaña) (até 28/8)
Alfredo Jaar é um artista chileno de longa carreira americana (onde está baseado) e internacional, que pratica uma arte que chamaremos “conceptual politizada. Recorre aos mais diversificados meios: fotografias, instalação (caixas de luz no chão, o nosso espaço, tendo nós que rodear a caixa de luz), filme, arquitectura, etc. O lema do artista é o de fazer arte a partir daquilo que o universo da informação ignora ou esconde. Por isso, é ele que tem de viajar pelo mundo em busca daquilo que é sonegado, pretendendo depois revelá-lo a partir de meticulosos trabalhos plásticos (onde coexiste imagem e linguagem). Algumas das suas obras têm por tema o mundo do trabalho, outras os refugiados, ignorados e esquecidos. A montagem das suas obras proporciona mais pensamento que contemplação. Nesta exposição de cem fotos de uma mesma criança (multiplicando cinco originais por vários painéis), é de novo o tema dos refugiados que ocupa Jaar. Em 1991, visitou em Hong Kong refugiados vietnamitas. Percorrendo os seus campos foi sempre acompanhado, sem o pedir, por esta menina, Nguyen Thuy. Decidiu mostrar apenas as fotos desta criança de entre as mais de mil que fez em Hong Kong. A criança é o paradigma do refugiado: nasceu refugiado e como tal crescerá. (“Sábado”, 16/6)

“FRONTEIRAS/BORDERS”. Colectiva.
Fundação Calouste Gulbenkian (até 28/8)
O Mali, em África, tornou-se uma “potência fotográfica”, um interessante centro de produção de imagens. Depois de conhecido entre nós o interessantíssimo Malik Sidibé (exposto alargadamente no sempre atento CAV, Coimbra), eis que pelas mãos da Gulbenkian chegam até nós obras dos Encontros Fotográficos de Bamako. O multiculturalismo e o pós-colonialismo (o recrudescimento das identidades ou, inversamente, a abertura ao cosmopolitismo) são realidades inerentes à circulação global e respectiva teorização do objecto artístico. Presentemente, e divergindo de uma moda dos anos 90, esta circulação é hoje mais cosmopolita do que antropológica – porque, agora, artista, crítico ou curador não se apresentam como “etnógrafos”, embora a linguagem fotográfica predominante nesta exposição (Festival “Próximo Futuro” da Gulbenkian) seja documental. Mas a largueza geográfica do continente africano, aqui representado, do Magrebe (Tunísia, Líbia, Argélia…) à África do Sul, revela precisamente a impossibilidade de uma única “identidade africana”. Fronteiras, migrações, alteridade (o que é o “outro”?), novas situações urbanas dão a esta larga colectiva uma marca de reflexão sobre o mundo, partilhando os problemas do mundo e recusando a redução de África ao cliché. (“Sábado”, 23/6)

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4 respostas a As minhas 4 exposições de Junho (na “Sábado”)

  1. Rui Gomes diz:

    Porra, eu quase nem tenho dinheiro para sair de casa e vens me falar em exposições? Vives mesmo noutro mundo.

    • Carlos Vidal diz:

      Dou-lhe toda a razão.
      Mas as galerias, apesar de tudo (e estão aqui também museus) desempenham tarefa interessante: arriscam (gosto) e não cobram à entrada (a Gulbenkian cobra!).
      Nalguns casos basta estar na rua.

      • Helena Borges diz:

        E todas as semanas há domingo de manhã! Mas acho que sim, que alguns museus abusam. Serralves, por exemplo: sete euros para o museu e para o parque, três euros para o parque. Três euros para tudo seria um preço mais simpático, “já que posso, vou ver tudo” em vez de “já que posso, vou passear pelo jardim”. Ainda assim, acho feio que as fundações tenham coragem de dizer que “quem não paga, não entra” ou que “quem não pode pagar, só pode entrar ao domingo de manhã”.

      • Rui Gomes diz:

        Obrigado ter feito referência aos dias grátis. Não fazia ideia. Obrigado!

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