Eu, carrasco do povo líbio me confesso

Num blog colectivo é normal, saudável e interessante haver divergências de opinião. O 5dias não é excepção e vi aqui muitas coisas escritas com que concordei inteiramente, com que concordei assim-assim, e com que não concordei nada. Mas há fronteiras de que não se pode abdicar e uma delas é a de chamar “carrasco do povo líbio” a alguém por apoiar o auxílio ocidental aos rebeldes líbios, como tem vindo a fazer repetidamente o Renato Teixeira.

Não posso abdicar, não por ser amigo e admirador do Rui Tavares, que sou, mas porque eu próprio sou apoiante desde o início da intervenção ocidental na Líbia.

Sou apoiante porque acredito que o povo líbio tem direito a uma oportunidade democrática e principalmente direito de se libertar de um ditador que usa o país para se enriquecer a si próprio e aos seus, que promove o assassínio sistemático de opositores dentro e fora do país, que fomenta grupos paramilitares racistas, que se coroa a si próprio «rei dos reis de África», que descreveu o Tribunal Penal Internacional como «uma nova forma de terrorismo mundial», que financia a extrema-direita nazi, que ordena violações em massa, que colocou e que não hesita em lançar mercenários estrangeiros contra o seu próprio povo.

Por isso, se para o Renato Teixeira ser «carrasco do povo líbio» é dar ao povo líbio uma hipótese de se livrar de tal personagem, de impedir os opositores do regime de Khadafi (a quem este chama «doentes políticos») se serem mortos a tiro sem um mínimo de justiça e de dar uma oportunidade aos líbios de usufruírem de parte dos lucros do petróleo, então eu prefiro ser «carrasco do povo líbio», na original interpretação semântica do Renato Teixeira, a ser escumalha e mercenário de Khadafi, como o Renato Teixeira tanto parece aspirar.

Por isto, e pelo facto de o volume da minha participação no 5dias não justificar a continuação, dou por aqui encerrada a minha escassa colaboração no 5dias, agradecendo ao Nuno Ramos de Almeida a simpatia e a paciência, fazendo votos de muito sucesso ao 5 dias e aos seus membros, e desejando ao Renato Teixeira que nunca tenha de escapar desarmado aos tiros de alguém que o veja como um «doente político».

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