Um País à Esquerda

 

Vi com alguma surpresa os dirigentes do BE, no seu anunciado amplo debate, afirmarem em uníssono que o país virou à direita e por isso o BE foi penalizado. Ainda não vi o balanço do PCP que, como todos sabem, estagnou a votação, apesar do PS ter levado a cabo a destruição do Estado Social e dos salários como nunca antes o tinha feito.

Ellen Wood, uma insuspeita democrata radical (portanto uma mulher que não sendo marxista é intelectualmente muitíssimo séria e politicamente muito consequente na defesa da democracia) tem escrito muito sobre o hiato entre a rua e o Parlamento. Lembrei-me disto a propósito desta «viragem à direita do país», que o BE vê.

Houve uma greve geral com 3 milhões de pessoas, uma manifestação fora da organização sindical com 300 mil, mais de uma manifestação sindical com algumas dezenas de milhar e um governo que caiu. Os planos de redução da massa salarial tiveram que ser impostos por uma aliança de forças entre a burguesia portuguesa (PS, PPD, CDS) e a burguesia europeia a norte-americana (FMI, BCE, EU).

Tudo isto parece ser secundário na análise dos bloquistas, na medida em que para eles a rua e o Parlamento são dois espaços que não vivem momento distintos e cada vez mais separados, como lembra Wood, mas um, a rua, está ao serviço do outro, o Parlamento, e quando a rua não se materializa em votos, então o «país está à direita». O espaço da política para o BE é o espaço político-institucional e nele não há lugar para a subjectividade política das massas, que obviamente mostra uma outra realidade, um país muito à esquerda.

Lenine dizia a certa altura, cito de cor, que o governo está à direita do nosso partido e a direcção do Partido está à direita da base, e a base está à direita das massas, que é o mesmo que dizer à esquerda de tudo o resto.

Como eu não sou infantil acho que esta esquerdização das massas pode-se perder, eventualmente até se pode perder em soluções autoritárias. A rua pode ser de manifestações contra o FMI ou de manifestações pela Pátria Amada; pode ter gente de esquerda com bandeiras vermelhas ou escuteiros com balões brancos, pode ter massas de trabalhadores organizados ou milícias de direita organizadas.

Por isso o grande desafio não é a rua, o movimento, mas o objectivo final desta rua, deste movimento. Urge, como nunca, uma organização de esquerda que dê corpo democrático, eficaz, politicamente sem compromissos, e centralizado a esta força.

Que a direita se una é de esperar, que o BE e o PCP não proponham uma solução unificada e unitária para o país, um plano de lutas sem quartel, sem descanso aos nossos inimigos, é uma cilada.

Via Rubra

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