Rápido, não temos tempo

O PS entregou o pote ao seu partido gémeo prometendo voltar a cumprir a cíclica e cínica tarefa de dizer qualquer coisa de esquerda sempre que não tem a mão no pote. A esquerda não conseguiu sobressaltar a alternância, e tão importante que era fazê-lo…
O BE teve um desastre eleitoral e, durante os próximos tempos, temo que se embrulhe numa discussão autofágica, entre líderes, lideranças e “novos” caminhos, que não trará nada de bom à luta que deve ser travada. A CDU, apesar de subir em percentagem e obter um novo deputado pelo distrito de Faro, perdeu cinco mil votos. Lamento, mas não fico satisfeito.
A indignação e o desespero que se sente nas ruas, foi canalizada para a abstenção e diferentes votos de protesto, para contentamento dos partidos da troika. No parlamento não se constitui uma base sólida de resistência contra os vampiros de sempre e as novas clientelas que ameaçam entrar com o “plano de ajuda”.
Tal como na Grécia, o país abriu as portas à gula internacional. PSD e CDS preparam-se para vender a preço de saldo partes do Estado essenciais para a nossa vida como a água, energia e transportes. Todo o dinheiro que ao longo dos anos o país gastou a construir algumas empresas essenciais à soberania e à vida, mesmo com gestores incompetentes e desvios gigantescos para as clientelas do centrão, vão alimentar os novos oligarcas que se preparam para aterrar. Sem crescimento económico e com cada vez mais desempregados, cujos subsídios diminuirão para “controlar” a despesa, a receita das privatizações seguirá directamente para os cofres dos principais credores.
Esperam-nos anos de terror para a maioria dos portugueses. Sítios e lugares que nos habituámos a reconhecer podem fechar. Pessoas que nos habituámos a reconhecer o trabalho, podem perder o emprego. O trabalho que aprendemos a fazer será ameaçado a cada dia que passa. Amigos e colegas, provavelmente os melhores, ver-se-ão forçados a abandonar o país sem data de regresso. Os filhos dos poucos que vão cometendo a loucura corajosa de trazer um novo ser humano ao mundo, nascerão escravos de uma dívida para a qual os próprios, os seus pais e avós não contribuíram.
O resultado das eleições de Domingo deram uma gigantesca maioria a quem não tem problemas em continuar a governar em prol da riqueza de poucos à custa de um país mais pobre, mais envelhecido e mais endividado.
É neste quadro que não posso qualificar o resultado da CDU como um bom resultado. Dezasseis deputados, por mais combativos que sejam, não conseguem evitar privatizações, a alteração constitucional ou a diminuição dos salários mais baixos.
Mas o parlamento não é tudo, a maioria não votou nos partidos da troika e as políticas que aí vêm não serão em prol da esmagadora maioria dos portugueses.
Por isso, importa ampliar a luta, tanto em número de activistas como em áreas de actuação. Importa desmontar ideias recorrentes, e perigosamente sectárias, sobre a necessidade de “novas” e “frescas” agendas para combater as velhas formas de exploração. Importa desenhar, de uma forma clara, quais são os aliados para que se consiga identificar, de uma forma clara, os inimigos que devemos combater.
O nosso tempo é agora. Faz-se com as ideias que temos e com os que cá estão.

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