BE: um, dois, muitos passos à retaguarda

1. O que mais me impressiona nestes balanços sobre o resultado eleitoral do BE é precisamente que todos eles girem à volta do resultado eleitoral, como traças atraídas pela chama, e não se afastem daí. Ou seja: as próprias reflexões, ainda que críticas, denunciam o calcanhar coxo do BE: um partido que gira à volta do Parlamento, cuja agenda é cada vez mais marcada pelo calendário eleitoral, com uma base militante reduzida. Ou seja: não é que a perda de tantos eleitores não seja preocupante – porém, não comecem já a querer vender a pele do urso antes de ele estar morto: outros partidos semelhantes, como o SP holandês, registaram recuos eleitorais importantes, para depois voltarem a afirmar-se –, mas a mim preocupa-me mais que o BE, ao fim de uma dúzia de anos de existência, continue a ter uma militância tão escassa, a depender financeiramente de forma alarmante dos subsídios estatais, a tratar como párias todos os que não alinham com a direcção, a ancorar a sua actividade em funcionários de que uma parcela importante é ‘de aviário’, que nunca na vida dirigiram nem um quiosque, quanto mais uma luta.

Quando qualquer representante dos que mandam na nossa sociedade se vira para o PCP e o questiona, sabemos o que quer saber: a CGTP vai agitar as águas ou não? Vamos ter greves, manifestações, ou apenas declarações inflamadas mas sem consequências práticas? Vão trazer autocarros e comboios para encher as ruas da capital numa manifestação de massas ou meter 300 pessoas no Largo de Camões para picar o ponto?

Mas quando se voltam para o BE querem saber o quê? De quantas horas e de quantos assessores vão precisar para treinar o Sócrates, o seu substituto ou o Passos Coelho a serem capazes de dizer um pouco mais que batatas com bacalhau perante uma interpelação do Francisco Louçã?

2) A direcção actual do BE viveu bastantes anos num estado de graça assegurado, em primeiro lugar, por ter sido ela a fundar o BE, dando origem a uma organização com presença na sociedade a partir de agrupamentos que se tinham mostrado incapazes de se erguer acima da marginalidade. Segundo, pela sucessão de vitórias eleitorais, que levaram o partido dos 2% para os quase 10%, e de 2 deputados para 16, com mais 3 no Parlamento Europeu.

Mas esse estado de graça prolongado permitiu que se construísse um regime interno anormal, de centralização quase absoluta de todas as decisões num núcleo estrito de direcção e um desrespeito cada vez mais afrontoso pela democracia interna. O Daniel Oliveira justifica-o dizendo que para ‘falar para fora’ era preciso desrespeitar a democracia interna, já que ‘falar para dentro’, devido à ‘desadequação entre a sua militância e a sua base de apoio’ significaria alienar o apoio dos eleitores. (É uma questão que, só por si, merece uma discussão, mas o comentário do DO, de que nos últimos meses o BE «tem feito as duas coisas em simultâneo: desrespeitar a democracia interna e perder eleitores» não aponta para nenhuma solução.)

Afinal esse ‘falar para fora’ ignorando as opiniões da militância parece estar a dar mau resultado. Sem auscultadores nas bases, as opiniões alternativas ficaram bloqueadas e a direcção começou a cometer erros cada vez gravosos e a pagar o preço do modelo de partido que construiu: o acordo com o PS na Câmara Municipal de Lisboa e o triste episódio do Zé que passou de fazer falta a não fazer falta nenhuma; o apoio, junto com o Governo PS, a Manuel Alegre; a escassa e reveladora votação nas últimas autárquicas (que denuncia a falta de implantação do BE); a votação favorável ao empréstimo do FMI à Grécia (inseparável das medidas que o acompanharam); a desastrada votação no Parlamento Europeu numa resolução destinada a abençoar o ataque da NATO e da UE à Líbia; a péssima votação de 5 de Junho.

O falecido Sottomayor Cardia, ele próprio deputado, dizia que aquelas alcatifas de São Bento pareciam ter um efeito estranho: as pessoas afundavam-se nelas. Irá o Bloco tornar-se vítima deste estranho efeito ou será capaz do golpe de rins para se ‘reinventar’, como alguns dizem?

* Uma declaração de intenções: sou membro do BE.

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