E se fizessem uma discussão séria

O Daniel anda imparável. Parece que o Bloco perdeu metade do seu eleitorado por imitar o PCP. Há três meses o partido de Louçã apoiava Manuel Alegre, o candidato de Sócrates e também de Daniel Oliveira, mas parece que isso não contribuiu em nada para a confusão. A razão do desastre é clara para uma data de comentadores: foi o facto dos bloquistas terem feito uma moção de censura e recusado ir ao beija mão da troika. Esses dois actos levaram metade do eleitorado a não votar nesse partido.
É interessante que essa análise não consiga explicar que os candidatos do BE perdem votos tanto nos sítios em que os candidatos são façanhudos UDPs, como em zonas em que são fofinhos e dialogantes, como o José Manuel Pureza em Coimbra, que foi apoiado por uma vasta coligação local (Boaventura, Daniel, Elísio Estanque, Rui Bebiano, etc..).
Para as conclusões serem importantes, convinha que a discussão fosse séria, e não pretendesse apenas servir propósitos tácticos e justificar as alianças pretendidas com o PS.
Talvez a coisa seja mais estrutural do que faltar a uma reunião e ter feito uma moção de censura pouco clara.
O Bloco de Esquerda cresceu muito com o voto de protesto. Esse crescimento não foi solidificado. O eleitorado não é estruturado com sindicatos, movimentos sociais e autarquias. É natural que numa conjuntura de crise, perante o voto útil no PS contra a direita, e o voto útil para correr Sócrates em outros partidos, parte dessa votação se perdesse. Aparentemente, já tinha voado, alguma dela, nas presidenciais.
Naturalmente, a falta de capacidade de crescer do Bloco, e a quase estagnação do PCP, tem que ver com outras causas. A esquerda que não aceita o programa da troika não consegue apresentar alternativas políticas e de poder que os eleitores acreditem. Essa impotência impede uma perspectiva de transformar as coisas. No meio de uma crise gravíssima, tentar resistir não chega. É preciso ter a ambição de ganhar. Mas isso não se resolve com ser muleta da política neoliberal das sucessivas direcções do PS.
A experiência mostra que a colaboração com os partidos socialistas levou à destruição dos partidos de esquerda. Basta ver os exemplos francês e italiano.
A vontade de dar pancada à actual direcção do BE é má conselheira para uma discussão séria que leve à criação de uma alternativa aos partidos da troika.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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