Pela primeira vez

Sócrates foi de férias gozar as mais-valias que angariou à custa da nossa bancarrota e Passos Coelho prepara os bolsos e os boys para o render da guarda. Os milhões com que a troika quer agravar a dependência e impor a austeridade serão divididos pela coutada que em tempos saciou Barroso, Santana e o reincidente Portas. O novo governo vai ser liderado por um partido que conseguiu pouco mais que dois milhões de votos e terá como segunda força política um partido que obteve apenas 11,7% dos 58,9% de eleitores que ainda não desistiram de ir às urnas. Esta minoria absoluta que nos irá governar deve continuar a contar com toda a resistência, mas não deve voltar a acreditar que PS algum pode fazer parte da solução que a esquerda necessita para voltar a sair da marginalidade.

Estou longe de achar que a CDU represente a saída necessária para a recomposição da esquerda. De resto é a CDU que não se cansa de lembrar essa impossibilidade. Sei também que a sua trajectória internacional é responsável pelo atraso no projecto de construção socialista, nomeadamente na troca do sonho do Estado do Povo pelo pragmatismo irresponsável do capitalismo de Estado. Não ignoro naturalmente o pesadelo estalinista, responsável entre outras coisas pelo assassinato de centenas de militantes revolucionários. Ainda assim e claramente por defeito, a CDU constituiu o voto mais útil contra a troika e o campo que mais condições tem para evitar que o novo governo PSD-PP nos atormente durante quatro anos. Não tenho ilusões e serei tão exigente com os deputados da CDU como sempre fui face aos deputados que ajudei a eleger no BE. Serei o primeiro a não ceder ao sectarismo na hora de lutar contra o Seguro, o Coelho ou o Portas, mas não deixarei de denunciar os 16 deputados que elegi caso o caminho seja o da conciliação, o da gestão da miséria e o da perpétuação do status quo que nem sempre desagrada aos companheiros da Soeiro Pereira Gomes.

Pela primeira vez não votei no Bloco de Esquerda numas eleições legislativas. Aliás, é a primeira vez que votei num partido diferente do Bloco de Esquerda, uma vez que nasci para a política na data de nascimento deste partido e até ontem ele sempre me pareceu o melhor quadrado para depositar alguma esperança. A mudança do meu sentido de voto não se deveu somente aos erros tácticos do BE, das Moções de Censura que não queriam na verdade censurar à degradação da sua vivacidade e democracia interna. A grande opção estratégica do BE fere os princípios que lhe havia dado razão de ser. O apoio ao contributo nacional para o resgate financeiro da Grécia, a sua posição face ao conflito na Líbia que o levou a não participar, também aqui pela primeira vez, nas mobilizações contra a guerra, e por fim o famigerado apoio ao candidato do Sócrates para a presidência da República, são mais do que simples erros de cálculo político e confirmaram a estratégia de aproximação ao PS iniciada desde a candidatura de José Sá Fernandes para a Câmara Municipal de Lisboa. Se para outra coisa não servir, o lamentável resultado do BE é a prova cabal que o caminho da esquerda não pode ser feita rumo aos maiores coveiros do seu programa político: o Partido Socialista. A direcção do BE foi pulverizada e os deputados eleitos permeiam paradoxalmente os dirigentes que arquitectaram as razões profundas do castigo que os eleitores de esquerda deram à perversão dos motivos que fizeram o BE crescer. Ao perder metade dos seus deputados, ao ver Francisco Louçã dar os parabéns a Passos Coelho e ao constatar que metade do seu grupo parlamentar é afecto à sua ala social-democrata, não se vislumbra que algo vá mudar neste campo político. A conclusão necessária, de que é em direcção à esquerda e aos abstencionistas que se deve caminhar e que o PS deve ser tomado como um dos partidos de direita que governa este país há 35 anos, continuará na gaveta pelo que o Bloco, ou pelo menos a parte que se limita a cumprir a agenda da sua direcção, continuará a fazer falta à trincheira da resistência anti-capitalista.

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