Razões para votar à esquerda

Carta para dois amigos que me dizem que vão votar Sócrates porque o Coelho é demais. São dois amigos que estimo, e que no passado recente souberam protestar quando não era cómodo. A sua situação entretanto é hoje um quadro triste do que a liderança de Sócrates fez a muita gente do seu partido e a alguns intelectuais que foram de esquerda e ainda hoje pensam ser de esquerda.
Reconhecem que o dito é um mentiroso compulsivo, um mitómano e um corrupto, que dá suficientes mostras de compreender a acção política como uma arte da mentira bem mediatizada e repetida contra a memória recente e a consciência histórica.
Sócrates é o principal artífice mas não o primeiro da degenerescência ideológica e política aguda dos partidos socialistas e sociais-democratas europeus que acompanhou a ofensiva neo-liberal de Reagan e Thatcher e a derrocada dos regimes do leste europeu. Tais partidos cuja autonomia se fora resumindo á propaganda de um modelo construído (sobre e) contra as primeiras tentativas históricas de construção de sociedades socialistas e abandonara qualquer tipo de crítica consistente da organização capitalista do viver social, passaram a lutar pelo protagonismo na execução, por vezes recalcitrante, da cartilha neo-liberal. É em grande parte por esses partidos, no governo, que começam a ser implantadas políticas de destruição do chamado “estado social”, sob o pretexto de o salvarem ou salvarem a sua sustentabilidade. Em Portugal, o Partido Socialista que se vira na contingência de liderar a ofensiva contra-revolucionária e os processos de desmantelamento da Constituição, já tinha a experiência da propaganda daquela estranha tese de que era preciso fazer concessões à direita para desarmar a sua agressividade e a sua gula. É claro que esta tese conhecera sucessivamente o mesmo desfecho: abrir ciclicamente o caminho do poder à direita. Como é que a compreensão deste desfecho não se tornou evidente para as grandes massas do povo português? Por que essa evidência era perturbada por uma outra tese na análise e interpretação dos resultados práticos dessa orientação oportunista. É que não se fora suficientemente longe na implantação das cedências e na correcção dos erros da revolução. A plausibilidade formal desta tese sustentada pela infrene turba subsidiada dos cronistas, analistas e opinion makers foi garantindo a sua vitória fáctica. Que a direita ou o bloco central viessem a suceder ao PS era apenas o efeito algo mecânico mas virtuoso da alternância (sem alternativa) com que a “democracia” em perda zelava por nós.
Estas teses foram o caldo de cultura que ajudou a criar o nevoeiro ideológico ao abrigo do qual se foi negociando a política de direita.
II
Sócrates (e o partido que o apoia e nele se reconhece) é o principal responsável pela situação em que nos encontramos e que se deve à conjunção de uma crise internacional do sistema capitalista e de uma crise nacional. Esta última, que se reflecte no modo concreto como se fizeram sentir e foram geridos, em Portugal, os efeitos da crise internacional, vem detrás. Ela é o resultado de cerca de trinta anos de política de direita, 
conduzida contra as transformações e a dinâmica da revolução portuguesa e, simultaneamente, contra a Constituição da República que veio legitimar a revolução, e foi aprovada e promulgada em 2 de Abril de 1976. É importante, julgo, perceber algo que dá a medida do tremendo embuste e da profunda desonestidade intelectual que habitam essa política: é que ainda hoje as propostas de destruição se baseiam no despautério de que a constituição é o manipanço responsável pelos resultados de anos de uma política contra ela, por omissão ou por violação grosseira. Durante cerca de 30 anos, as forças da política de direita tentaram eliminar da CRP, do nosso ordenamento jurídico e da nossa vida colectiva, aquilo que foi conquistado e inscrito, no terreno da luta económica e social, política e cultural, em pouco mais de um ano e que foi escrito em alguns meses.
A política de direita e o seu acinte anti-constitucional é a expressão do carácter débil, dependente, clientelar e sobre-explorador da burguesia portuguesa que, ao longo de todo o séc. XX foi incapaz de gerar e sustentar um qualquer projecto nacional, democrático e soberano.
Esta contradição insanável entre política de direita e CRP recebe hoje uma confirmação: Imagine-se que no acordo que sela a santa aliança da troika neo-colonial e da troika da submissão nacional aquela, sem legitimidade democrática, nem qualquer tipo de mandato popular, dita a esta a necessidade de rever a constituição para legalizar a agressão aos direitos dos trabalhadores.
III
Votar Sócrates, por receio da direita é ignorar que o PS e Sócrates são co-autores cúmplices da política de direita e que é nela que reside a calamidade que nos trouxe a este iminência de desastre. Que garantias dá o PS (com ou sem Sócrates) que acaso vencesse as eleições ou, mesmo perdendo-as, não aceitaria partilhar o governo com a direita política, para reatarem o baile mandado da política de direita e para acumularem as forças de que vão precisar para impor o programa de governo, que o povo português não votou, contra a luta social que se erguerá. Poupar o PS ao castigo eleitoral, que merece (ética e politicamente), não ajuda ninguém a perceber a situação em que nos encontramos, nem a decidir as posições a tomar, inclusivamente no dia seguinte ao das eleições. A política que o PS tem seguido, a política de direita, tem aliás destruído o PS, como força política organizada de esquerda. Ao longo de anos essa política foi transformando social e politicamente o PS. Foi-o minando e corroendo. O PS foi perdendo a memória e a moral republicana que vários dos seus membros podiam representar e com isso foi-se também a sensibilidade ou o “espírito” que lhes podia advir da participação na luta antifascista. Internamente, a voz e o poder dos boys e dos jotas foi falando mais alto e podendo mais que as suas “bases” populares.
IV
Aqueles meus dois amigos justificavam ainda o seu voto dizendo que isto em que vivíamos era o capitalismo real e actual e que contra isso nada se podia fazer. E neste não-argumento quem falava era a desesperança e a sensação de impotência. Como se todo o real fosse capitalismo ou nós tivéssemos que respeitar o real. A mesma desesperança que os leva a depreciar as pequenas e grandes lutas concretas pelo direito ao emprego e ao trabalho com direitos, pelos serviços públicos, pelo hospital ou pela linha férrea, etc. A mesma desesperança que não os deixava ouvir o meu argumento de que será mais fácil derrotar na rua Passos Coelho que não está protegido pelo epíteto de “socialista” (mesmo que imerecidamente como o outro está).
Estes meus dois amigos votaram e apelaram recentemente ao voto em Alegre. Como se terão sentido quando o ouviram, na sua Coimbra, dizer que excluir Sócrates seria excluí-lo a ele? Amigos meus, nunca consentirei em dizer que a idade é fonte de uma qualquer especial sabedoria. Mas poderia pelo menos poupar-nos a certos dissabores.

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