O dia em que a Madame Mubarak desce à Praça Tahir de Lisboa

Fernanda Câncio esteve no Rossio.
Depois da violenta bátega de água, com evidentes consequências na acampada de Lisboa, a f. decidiu fotografar um canto com lixo e publicar a imagem no Jugular. Nos comentários, f. desenrola a escrita declarando em diferentes comentários:

(…) “isto é o rossio. não está lá só isto – não. há mto mais q este lixo; há a estátua cheia de cartões, de panos e cordas; há tendas; há sofás; há pessoas.” (…)

(…) «deixa-m dizer-t q acho espantoso q as pessoas achem q têm o direito d transformar a principal praça da cidade numa lixeira e q s espantem s alguém lhe chama lixeira» (…)

Na caixa de comentários, a Joana Manuel e a Mariana Avelãs, irritam-se com f. e dizem que a sua interpretação está eivada de má fé mas, desta vez, não têm razão. Onde vêm má fé, há consciência de classe.
As assembleias no Rossio têm imensas inconsistências e a acampada até pode desaparecer nos próximos dias, mas todo o processo já teve uma imensa virtude: colocou mais pessoas a pensar em política, a decidir colectivamente e a intervir. Pelas assembleias tem passado gente que, tal como a maioria do povo português, em nada contribuiu para o aumento da dívida e que não tem condições para pagar nem mais um cêntimo por ela. Gente que ainda está a perceber o que os une ou divide, e a força que, em conjunto, podem ter. Ganha-se consciência de classe e aprende-se a tomar partido.
Ora isso é extremamente perigoso para quem, como Fernanda Câncio, sabe muito bem a posição que ocupa no sistema de classes. O seu trabalho político central, ainda que por vezes possa parecer próximo de algumas bandeiras de esquerda, será sempre a luta pela manutenção das posições do actual equilíbrio de forças. E, honra lhe seja feita, tem feito o seu trabalho com elevado grau de profissionalismo e persistência, mesmo nos momentos em que tantos outros inchados de mordomias e parlamentos se cansam de se fingir à esquerda. Fernanda Câncio é, quase sempre, das primeiras a dar a linha política, mais tarde ecoada por amigos e correligionários, aparentemente de diferentes espectros políticos, nos mais diversos órgãos de comunicação e poder.
Ontem, no Rossio, quando assisitia a isto tudo, pensava com os meus botões, o povo é sereno mas isto não é só fumaça. Naquela Assembleia, até a Madame Mubarak podia tomar a palavra, o problema é que teria o mesmo tempo para intervir que a poetiza, o vendedor de peixe e a calceteira. E quando isso acontece, começa a tornar-se perigoso.

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