Com uma raiva a crescer-me nos dentes, não me digas que não me compreendes

Ontem à noite vi a reportagem da Rita Ramos no Linha da Frente (assim que estiver online colocá-la-ei aqui) sob o título “Geração Desenrascada”. De uma forma crua contam-se algumas histórias de jovens e menos jovens que vão sendo empurrados borda fora do país onde gostariam de viver e onde são precisos, sob o lindo mote da “internacionalização”.
Cinquenta anos depois, o principal motivo desta nova vaga de fundo de emigração já não é a guerra. Como disse o meu amigo e colega Daniel Rodrigues, e como é bem evidente no caso da enfermeira que perdeu o abono de família, é a procura de uma vida.
Tal como há cinquenta anos, há sempre quem negue a mala de cartão – desta feita de recém licenciados, procurando enquadrá-la e declarando-a como normal como o faz Rui Pena Pires. Mais, Pena Pires considera que os novos emigrantes são privilegiados, pois têm dinheiro para emigrar e para iniciar uma vida fora do país.
Com o paralelo entre as lágrimas da enfermeira que, com o filho nos braços, abandona o país e as catedráticas certezas de Pena Pires, coordenador científico deste simpático observatório (que até hoje desconhecia existir mas para o qual já devo ter contribuído), só consigo balbuciar um pedaço da música do Sérgio Godinho: “com uma raiva a crescer-me nos dentes, não me digas que não me compreendes“.

P.S. – Hoje, às 18h00, vou estar numa sessão pública com o Jerónimo de Sousa, na qual direi umas coisas sobre isto e sobre a forma que o Banco de Portugal inventou para que os bancos aumentem os spreads dos contratos de empréstimo. Apareçam.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

5 Responses to Com uma raiva a crescer-me nos dentes, não me digas que não me compreendes

  1. henrique pereira dos santos diz:

    Posso fazer uma sugestão? Não diga em lado nenhum que a guerra foi o grande promotor da emigração em Portugal nos anos 50 e 60. É que essa afirmação não tem qualquer relação com a realidade. Nos concelhos associados à produção de trigo a diminuição da população começa ainda nos anos quarenta (embora grande parte dessa gente viesse para Lisboa e não emigrasse), nos outros a emigração começa logo depois da segunda guerra mundial, pelos fins dos anos 40, tem um aumento sensível nos anos 50 e explode nos anos 60, mas foi sempre uma emigração económica (com uma pequena franja urbana e burguesa que pode ser associada à guerra).
    henrique pereira dos santos

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Tem razão. Talvez seja redutor identificar a guerra como o único factor (ou o mais importante) que motivou o fenómeno da mala de cartão. No fundo, o que motiva a emigração é sempre, a procura de uma vida.

  2. MBO diz:

    É um belíssimo investimento para um país: dá-se um curso a uma pessoa que se alimentou, vestiu, vacinou, educou durante 23 anos e depois manda-se para o estrangeiro.

    Vai lá trabalhar, pagar impostos, ter filhos que sustentam demograficamente esses países e … não vota.

    Topam? NÃO VOTAM.

    http://supraciliar.blogspot.com/2011/05/linguagem3.html

  3. am diz:

    … sob o lindo mote da “internacionalização” e sob o ainda mai lindo mote da “mobilidade”…
    abraço

Os comentários estão fechados.