Bolinhas televisivas e respeitinho pela autoridade

Está a passar na RTP 2 um filme identificado como para maiores de 16 anos – coisa, portanto, terrível para qualquer um com mais de 40 – que, apesar disso, foi antecedido do raro aviso acerca da possibilidade de chocar olhares mais sensíveis e vai passando com a bolinha ao canto do ecrã que, normalmente, deverá identificar películas próximas da pornografia hard core ou do bacanal de sangue. Embora mais as primeiras do que as segundas.

Do que se trata?
De um filme acerca de 5 desgraçados magalas franceses na I Guerra Mundial, condenados à morte por mutilação voluntária, e executados sob a forma de expulsão para a “terra de ninguém”, até que os alemães os baleassem de forma suficiente para morrerem. E das demarches da namorada de um deles para clarificar e denunciara a coisa.

Bolinha vermelha, claro.
Se a nudez e uma sugestão de sexo dão bolinha, se uma reprodução de homicídios de tripas de fora ou de massacres e genocídios (desde que não sobre africanos, veja-se o “Hotel Ruanda”) também dá, era o que faltava que não desse bolinha um homicídio estatal feito por filhos de boas famílias que, com muitos galões ou algumas estrelas nos ombros, fazem as provas escritas da coisa diluir-se na sua água do banho.

Tenho estado muito ausente desta ciosa dos blogs, nos últimos tempos.
Talvez pela pouca vontade de, não sendo opinador profissional, andar a opinar o que me parece tão evidente que pouca vontade dá de o fazer.

Mas esta bolinha e este aviso de possível massacre da sensibilidade dos tele-espectadores, coitadinhos (não vão eles chocar-se com um exemplozito da falta de santidade da autoridade e do estado), vale por uma demonstação do pantanal de excrementos que temos vindo a deixar construir no último par de décadas.
Que deu espaço, entre muita outra coisa, à nossa mui peculira transformação do “Vermelho e o Negro” no “Laranja e o Rosa”, ou aos acontecimentos que mereceram comentários pertinentes nas últimas semanas.

Por vezes, pergunto-me se não serão bolinhas destas a expressão dos mais perigosos inimigos.

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