Ainda sobre o livro da Raquel Varela, o JMF e outros opinadores e o PCP

 

 

 

 

 

O livro da Raquel Varela, por demonstrar que o PCP nunca quis dar, em 1974-75, um «golpe de Praga», incomoda – e muito – todos aqueles que usaram esse argumento para darem, eles sim, o seu golpe contra a revolução: Mário Soares em primeiro lugar e todos os outros que se puseram debaixo do seu chapéu no Verão-Outono de 1975.

Para os que não viveram esses tempos, e também para os esquecidos, lembro que não havia na altura cão nem gato que não se dissesse pelo socialismo – até o CDS, ao contrário do que hoje pretende, chegou a dizer-se por um «socialismo humanista»! A opção não estava então, supostamente, entre socialismo e capitalismo, mas entre que tipo de socialismo queríamos para Portugal. A ficção que vendeu Mário Soares era de que ele queria um socialismo democrático, pluralista, enquanto o PCP e a extrema esquerda queriam um socialismo ditatorial, copiado dos países de Leste.

JMF e outros propagandistas do actual sistema percebem que derrubar estas ficções fundadoras do actual regime é perigoso, por isso atacam.

Mas o livro da Raquel também causa incómodo no PCP (e não porque denuncie ‘traições’, etc. e tal. As coisas são o que são e o PCP é o que é, e não pode ser posto em acusação por não ser aquilo que outros gostariam eventualmente que fosse). O que causa incómodo é que o PCP sempre alimentou duas versões contraditórias em relação à sua história na revolução: por um lado, seria um «partido democrático», fundador e respeitador das instituições vigentes; por conseguinte, acusá-lo de querer tomar o poder pela força (o tal golpe de Praga) não passa de uma calúnia. Mas por outro lado, junto da sua base, alimenta a versão de que seria um partido «leninista», isto é, revolucionário, o que implica que só não se teria batido pelo poder – isto é, por um poder anticapitalista, com expropriação da propriedade privada (porque bater-se pelo poder é o que todos os partidos fazem) – porque «a relação de forças» não o permitiria.

Ora como diz o ditado francês, on ne peut avoir le beurre et l’argent du beurre (à letra, «não se pode ficar com a manteiga e com o dinheiro da manteiga», não se pode ter tudo, é preciso fazer escolhas). E a escolha que o PCP deveria fazer era sobre que versão dar de si próprio.

Não vale disparar contra o pianista. A Raquel contou a história com muito trabalho e muita seriedade. As críticas deveriam tentar ter a mesma seriedade (não seria mal começarem por ler o livro, que trata de um tempo essencial da nossa história).

 

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