Detesto a ‘Grândola, Vila Morena’

 

 

 

 

 

 

 

 

Há anos, a minha irmã Paula escreveu um texto para o Público (onde trabalha), que deveria ter saído mas não saiu. Aproveitando a época, fui roubar-lho ao Facebook porque acho que merece ser divulgado.

Não gosto da “Grândola, Vila Morena”. Melhor, não a suporto. Não tenho nada contra os Grandolenses, nem contra o Zeca Afonso, antes pelo contrário. E sei que a «Grândola» foi uma das senhas do 25 de Abril e que se tornou um símbolo da revolução. Até me sinto mal, olhada de esguelha, quando digo que não gosto dela, mas a verdade é que dispenso ouvi-la. É que essa música é para mim uma espécie de trauma de infância.

Quando se deu a revolução do 25 de Abril de 1974, tinha 5 anos e entrei para a escola primária em Outubro seguinte. Como terá acontecido em muitas escolas nesse ano, houve alguém – uma professora comunista chamada Cândida – que decidiu fazer os preparativos para os festejos do primeiro aniversário da revolução aproveitando o contributo das criancinhas da escola. Eu tinha aulas da parte da manhã e, no final, juntávamo-nos todos na Casa do Povo para os ensaios. Não sei já ao certo quanto tempo duraram esses ensaios – para mim, séculos. Todos os dias ensaiávamos o «Grândola, Vila Morena» para cantarmos na festa do 25 de Abril de 1975. Começávamos: GRÂN-DO-LA VI-LA MO-RE-E-NA, TER-RA DA FRA-TER-NI-DA-A-DE… Parem! Vamos lá começar do princípio. GRÂN-DO-LA VI… Não! Está desafinado! GRÂN-DO-LA VI-LA MO-RE-E-NA, TER-RA DA FRA-TER-NI-DA-A-DE, O PO-VO É QUEM MAIS OR-DE-E-NA…

Enfim… De dia para dia, fui odiando cada vez mais a canção. Do dia em que a cantei realmente, no aniversário do 25 de Abril, já nem me lembro, mas aqueles ensaios nunca mais os esquecerei.

Em todas as revoluções se cometem exageros, e o 25 de Abril não fugiu à regra. Mas as crianças, Senhor!

O 25 de Abril teve coisas mais excitantes para uma miúda de cinco anos. Lembro-me de a minha mãe andar preocupada com os meus três irmãos, que andavam pelos 15-17 anos, porque havia uma hora de recolher à noite que eles teimavam em não respeitar, das histórias da tropa a levá-los a casa. Lembro-me de o meu irmão mais velho ter as paredes do quarto cheias de posters de carantonhas barbudas como a do Marx e a do Trotski, que eu não fazia ideia de quem fossem, e de a minha vizinha dizer que ele era comunista – o que eu também não fazia ideia do que fosse, mas que devia ser qualquer coisa grave, pelo ar dela.

Há outro episódio engraçado que ficou na história da família. O número de telefone da nossa casa em Mafra diferia apenas num algarismo do telefone do quartel. Muitas vezes recebíamos chamadas de familiares e das namoradas dos soldados. Eram tantos os enganos, que chegava a ser irritante. Lembro-me de um dia um dos meus irmãos responder ao pedido «Quero falar com o soldado número mil-e-não-sei-quantos» com um «Com certeza, aguarde só um momento». A pessoa do outro lado creio que aguardou cerca de meia-hora, antes de desistir.

Na madrugada do 25 de Abril, às 3 horas, a minha mãe atendeu uma chamada para o quartel. Desta vez não deixou a pessoa à espera. Disse prontamente que era engano, e voltou para a cama. Lá fora, os militares insurrectos ocupavam posições. E na rádio passava a «Grândola, Vila Morena».

 

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