É jorna! É lismo! É porno e canalhismo!

Já contou por esta tasca o Nuno a canalhice que um pornomentar europeu fez ao Miguel Portas. A coisa poderia ficar por aí se não fosse que existe, ai!, a caverna mediática espanhola, que agora apanha a Miguel Portas para a capa da caspa. Para as que não estejam familiarizadas com o tema, vou tentar explicar.

Jornais espanhóis generalistas: El Pais (antigo dono do partido PSOE, actualmente zangados com ele por questões que têm a ver com a repartição do bolo das licenças televisivas), ABC (monárquicos e rançosos. Jornal historiquísimo que chegou a ter duas rotativas durante a guerra civil, uma no bando sublevado e outra tomada pelos republicanos. De tão clássicos, quase ninguém os toma em conta. Direita “nostálgica”. Tem uma secção para “Religión” e outra para “Toros”), El Mundo (direitas, fazendo “jornalismo de investigação” e com muito dinheiro para investir em, por exemplo, produtoras que fazem filmes sobre “temas candentes” da história recente do estado espanhol), Público (jornal recente, juvenil e tal. Esquerdista, altermundista, republicanista e tudo quanto ista lhe queiram meter. Faz colecções com livros do Trotski e filmes do Ken Loach. Ideal para quem leva óculos de massa e já teve tererés nos anos selvagens), La Razón (direitíssima rançosa. Desconfio que feito por malta que saiu do ABC, não penso ir investigar à wikipedia). Todos estes jornais (dentro de cada tendência) podem ir tentando ser mais ou menos obscenos, partidistas, foleiros, etc… Mas perdem na comparação com La Gazeta pois, desde que em Espanha existe La Gazeta e o canal de TV Intereconomía… passou-se um ponto de não retorno. Next level.

Sejamos sinceros: a direita espanhola vandalizou-se um bocado nos últimos anos. Perdida injustamente a natural liderança de Espanha (pronunciem mentalmente ssssssssssspÁnhÁ! quando leiam esta palavra) por culpa de umas mentiras, umas guerras e uma população que estava farta de Aznar, a direita indignou-se. Tanto, que ainda hoje o jornal El Mundo segue a afirmar (e a dedicar capas cada certo tempo) que os atentados do comboio de Madrid foram obra de ETA e que foi o próprio Zapatero quem lhes emprestou o isqueiro. Acrescentando o desagravo à autoridade moral outorgada directamente por Deus, os principais canais de comunicação começaram a fazer birra… o que acontecia é que o país ia por outro caminho. E metade piada, metade a sério foi-se conformando a estratégia: CRISPAÇÃO (perfeitamente recebida pelo Partido Popular, uma vez feito o pequeno momento de constrição e petição de desculpas aos cavernários mediáticos). A linha estava clara: pega em qualquer coisa e faz barulho, gritando que “Espanha (sssssspÁnhÁ!) se rompe”, que os gays acabam com a família e a ciência queima igrejas. Mas faltava algo. Um pequeno pudor jornalístico que residia no jornalismo. Não falo dos cronistas, é claro (esses têm barra livre e gostam de copos caros) mas sim os jornalistas profissionais. Tinham sempre uma coisa que, no fundo, andava a se sentir mal por mentir. Nisto chegou Intereconomía TV (que fala de tudo menos de economia) para solucionar o assunto. Intereconomía dá o que a manada quer. Futebol puro e duro. Hooliganismo.

Cartoon do genial DaVila www.obichero.blogspot.com

 Um exemplo já famoso: O motivo dos preservativos não serem uma boa opção para acabar com a SIDA em África. O completo deserto que é TODA África (de Marrocos a África do Sul), o analfabetismo dos pretinhos (ao contrário que os europeus, que sempre lemos e relemos as instruções dos preservativos antes do acto) e as garras que os morenos esses têm nas nãos, que fodem o latex. Solução: crucifixos, contenção e cinco pai nossos.

La Gazeta, versão em papel dos insultos lançados por Intereconomía, coloca hoje ao Miguel na capa. Não penso colocar links assim que quem quiser procurar, que procure. Desconfio que existirá um vídeo de Intereconomía no que os colaboradores, entre piadas sobre feministas e louvores a Franco, comentem algo sobre o tema. Não serei eu quem for lá procurar. Mas voltemos à Gazeta (orgulhosos de ser da direita) (não é piada, é o spot mesmo).

A análise da capa não tem desperdício O logo do jornal é um touro (sssssssspÀnhÀ!!!), oferecem por 6 euros a pulseira da Virgem de Montserrat e, amanhã, um DVD sobre a Páscoa. No final, uma editorial na qual nos tentam convencer que a Monarquia é demais. Pela metade da página (de design bastante fraco, apontemos) o coitado do Portas dando a soneca, junto com o seguinte texto: “El diputado comunista… Viaja en Busines!” (Atenção ao de comunista…) e onde o acusam de promover um “sermão ético” (sendo uma manchete tão virada para a Igreja, desconfio que o problema esteja no “ético”). Vamos ao texto da notícia:

 

“En un desplazamiento -dice que a África- dormita plácidamente en primera clase el azote de los europarlamentarios. El comunista portugués Miguel Porta fue el instigador de la polémica medida de ahorro que prendía restringir el uso de los vuelos a sus colegas de Bruselas. La instantánea, tomada por una de sus ‘víctimas’, refleja cómo el luso no predica, ni mucho menos, con el ejemplo.”

Coloca mal o nome, chama-o de comunista, fala de “vítimas” e tem um tom sarcástico/rançoso de sacristia (atenção a esse “dice que a África”. A saber onde é que ia o comuna este a comer crianças). Só um apontamento: olho em África com os preservativos…

“El eurodiputado que desató la guerra contra los viajes en clase business de los políticos comunitarios ha sido “pillado” volando en primera, tal y como ha publicado El Confidencial. El portugués Miguel Porta, del Bloque de Izquierda, ha sido cazado tras haber exigido a sus colegas que renunciaran a este privilegio. La fotografía a la que ha tenido acceso este diario fue en un vuelo de la compañía TAP por otro eurodiputado luso, víctima de la campaña desatada por Portas.”

Bloque de Izquierda (não esperem que traduzam nada que não esteja em ssssspanhÓl! Sorte teve o Miguel de não se tornar Miguel Puertas). Foi apanhado DEPOIS de ter exigido aos seus colegas que renunciassem a viajar em business (não deixem que a verdade estrague isto, por favor). Agora a palavra vítima aparece no seu sentido pleno, sem conotar. Portas, por certo, desata uma campanha… e por aí fora. Mais adiante, a notícia tem a lata de afirmar que os pornomentares votaram em contra porque o parlamento tem convénios com agências de viagem e fica tudo muito barato.

Isto é só um exemplo de como está a quinta jornalística vizinha. Assim que não me façam essa portuguesada de dizer “ai… na Espanha si que é…”, ta bom?

Afortunadamente para Miguel Portas hoje há futebol e nos próximos dias também. Assim que a caverna terá algo com o que se indignar durante as próximas semanas. Um abraço para ele e parabéns por ter levado esta medida ao parlamento.

Por certo, era bom saber quem foi o fotógrafo e o motivo da foto ter sido publicada na Espanha e não em Portugal…

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