Os muros que se levantam e que se derrubam

Quando ouvi pela primeira o The Wall dos Pink Floyd tinha uns 16 anos. Roubei-o ao meu pai, meti na aparelhagem o CD, abri o livrinho com as letras gatafunhadas no muro branco, play nisso, e lá fui acompanhando. Estava a descobrir o que era a política e o que era o amor e aquilo era tudo muito estranho, muito confuso, mas ia percebendo umas coisas: que a guerra mata, que os pais e a escola nos encurralam, que o amor é complicado, que as drogas existem, que as pessoas se vendem e se compram, que o fascismo aparece com pezinhos de lã até às botas cardadas, e que os muros aparecem um pouco por todo o lado.

Passados 10 anos entro no execrável Pavilhão Atlântico para ver o Roger Waters – baixista, vocalista e principal ideólogo da banda na sua fase conceptual na década de 1970 – apresentar o The Wall (lançado em 1979) em Lisboa. Em 10 anos as coisas mudaram, preferi sombrio sublime do Dark side of the moon a uma ópera-rock confusa, mas a coisa tinha que ser vista, perceber-se o que leva o Waters a fazer isto agora, nesta altura. E aproveitei para pensar um bocado sobre esta questão que tem andado no ar: da ligação da música com o mundo, da música e a intervenção.

A coisa começa com um muro semi-construído, para onde dois militares-militantes fascistas atiram um boneco nú e frágil. ‹‹Ein, swei, drei…›› e ‹‹So ‘ya thought ya might like to go to the show?›› – o The Wall é também um gozo consigo próprio e um gozo com o público. A ideia do muro vem de um Roger Waters farto de concertos em grandes salas e estádios, onde o público parece mais alienado e sem grande intervenção no processo, em que qualquer acontecimento é saudado com palmas e gritos. Ironicamente, o The Wall só funciona em salas grandes e o pessoal aplaude tudo e mais alguma coisa, seja o que for, seja que mensagem for – e são muitas as mensagens.

Mas há mais neste muro que Waters constrói hoje. E ele avisa-nos disso: há 30 anos esta obra era de uma pessoa toda fucked up, e agora é outra coisa – é do mundo. É, claro, com ‹‹Another brick in the wall, part 2›› que o público – gozado – mais festeja e o acompanhamento de um grupo de crianças do Moinho da Juventude da Cova da Moura dá-lhe alguma consistência e actualidade. Não se precisa (desta) educação parece que é algo que faz sentido, tal como em ‹‹Mother›› a resposta negativa e entusiasmada à questão ‹‹Mother, should I trust the government?›› (a resposta é também dada na projecção: ‹‹No fucking way!››). Mas a mãe não é só a família, é o Estado (Big Mother), e as projecções deixam isso bastante claro – o controlo e a vigilância que nos prendem. ‹‹Young Lust›› já fala da fama e do amor, das relações com pessoas, o desamor, o sexo. Há depois aviões que bombardeiam foices e martelos, estrelas de David, conchas da Shell, cruzes cristãs, cifrões – quem é que manda nas guerras? A primeira parte acaba com um muro construído e Roger Waters a cantar ‹‹Goodbye cruel world››.

Os muros são construídos por todo o lado, da Palestina a Berlim, de Lisboa aos EUA, mas a coisa aqui são os muros no pensar e no fazer. A guerra, o Estado, o controlo, as empresas, as religiões, as relações das pessoas, a perda dessas pessoas – tudo coisas que atravessam todas as nossas vidas.

No intervalo recordam-se pessoas que se perderam. Soldados e cívis americanos, britânicos, franceses, iranianos, libaneses, egípcios, etc, etc. Jean Charles de Menezes, o jovem brasileiro assassinado pela polícia em Londres após os ataques de 2005, já tinha aparecido antes. Também aparece Salvador Allende.

De regresso ao palco. Uma banda toca por detrás de um muro que leva com várias projecções. As projecções são de um outro muro – negro sobre o branco -, mais tarde de crianças que não estão propriamente nas melhores condições de vida – o público treme um bocadinho. A guerra, a guerra, a guerra maldita. A guerra vê-se pela televisão, do muro aparece um quarto onde está Waters – alienado frente à televisão. ‹‹Comfortably Numb›› aparece e é uma viragem: Waters (nós) está confortavelmente adormecido, mas é obrigado a acordar – a trabalhar. A revolta é contra tudo: ‹‹In the flesh›› e ‹‹Run Like Hell›› é para os parasitas. Waters paranóico persegue, prende e fuzila o público – ao mesmo tempo as projecções são de alienações via iPod – iProfit -, as pessoas felizes, a consumir, enquanto uns poucos enriquecem consideravelmente.

‹‹Stop››. Esta merda não se aguenta, o muro é demasiado pesado e ser um mártir fascista não é ser feliz. Agora pensa-se sobre o que se construiu no passado – ‹‹The Trial›› é para se levar com tudo o que ajudou a construir o muro. Não se podem ignorar as coisas, é levar com elas, reagir. O muro cai sobre o público (é assustador, acreditem) e está na altura de reaprender a viver sem muros.

O The Wall, a meu ver, tem vários problemas. É uma imensa confusão que junta a vida pessoal de Roger Waters com a vida pessoal de Syd Barrett – o primeiro e lunático guitarrista e letrista da banda -, misturando ainda com a visão e o conflito que Waters tinha com o capitalismo e o socialismo. Mas, para além dos problemas e de quase toda a gente ter saído de lá muito satisfeita por ter visto um gajo dos Pink Floyd e de achar que há umas mensagens que até fazem sentido, o The Wall levanta questões sem resposta.

Que mundo é que queremos e quando é que nos juntamos e derrubamos os muros?

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