A democracia

No debate ‹‹A cantiga ainda é uma arma?›› muita coisa se disse e a discussão, pelo menos a parte que apanhei, esteve muito à volta da manifestação do 12 de Março e sobre a democracia, o que é a democracia, em que democracia vivemos, em que democracia queremos viver, etc. Ora bem, ouvi alguém do público dizer algo como ‹‹Não há nada mais democrático do que [na manifestação da Geração à Rasca] ver as pessoas do poliamor ao lado dos cabeças-rapadas de extrema-direita››.

Essa patetice lembrou-me logo um texto de Mário Dionísio que tinha lido umas horas antes:

‹‹Comecei a evitar as palavras “democracia” e “democraticamente”. Acabarei talvez por riscá-las do meu vocabulário. Em todas as reuniões em que tenho participado, no liceu, verifico que o emprego dessas palavras é cada vez mais frequente por pessoas ineludivelmente reaccionárias, para as quais ainda há pouco tinham o diabo no corpo. Quando alguém se levanta e, em tom protestativo, clama “em qualquer assembleia democrática”, “isto assim não é democracia”, etc., digo para comigo: “já sei quem és”. Porque se trata de reivindicar na prática a adopção da alteração que pouco a pouco se tem dado no conceito de Democracia: regime em que a liberdade seja total para os que não querema liberdade e crescentes as restrições aos que sempre se bateram por ela. Democraticamente, devem deixar-se os seus lugares aos fascistas, por mais notórios que sejam, e permitir que se primam tão amplamente quanto o desejarem. Pelo contrário, deve-se manter a rédea curta a todos os que querem efectivamente transformar a sociedade, acabando com exploradores e explorados, o que seria evidentemente cortar a liberdade aos pobres dos exploradores, com tanto direito a existirem como aqueles que exploram…
É uma comédia sem dúvida, que se tinge de tragédia quando se verifica que a isto veio dar o 25 de Abril. Tenhamos, pelo menos, o cuidado de não participar nela, usando palavras que provocam, aumentam, generalizam despuridamente a confusão em curso, que só aproveita, como todas as confusões, aos pescadores de águas mais que turvas.››

Mário Dionísio, Diário, 1976

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