Morreu o filósofo, o tradutor, o ateu

foto de Armando Isaac

 

Morreu o Eduardo Chitas, Professor da Faculdade de Letras de Lisboa e tradutor, meu camarada e homem bom. Não farei a nota biográfica, pois isso não me compete. Conto com outros companheiros para o fazerem devidamente. Direi apenas que está associado a algumas das mais importantes traduções de teoria marxista-leninista para português.

Eduardo Chitas era dessas personagens do saber e da luta quotidianos de que eu falava há uns tempos atrás. Tocou a todos que o conheceram com a sua inteligência e saber, a sua amabilidade e disponibilidade. A primeira vez que o vi com olhos de ouvir, foi numa sua intervenção, há três anos, na Assembleia do Sector Intelectual de Lisboa do PCP. Falava sobre o tempo e do uso dele, um texto que está publicado na página do meu projecto 8!8!8!.

Era um homem de uma profunda humildade e fraternidade, daquelas que se cultivam entre o meu povo. Não me lembro de algum vez ter falado com ele sobre o seu trabalho. A conversa, orientada por ele, acabava sempre por incidir sobre o meu trabalho e os meus problemas do dia- -a-dia. A última vez que falei com ele, na semana passada, assistíamos ao lançamento do livro do João Valente Aguiar.

Ele, mais uma vez, não foi diferente. Interessou-se pelas minhas dificuldades, como se houvesse muito tempo para falar das coisas importantes.

Deixo-vos com excertos de um texto de apoio a uma intervenção oral no XVIII Encontro da Associação de Professores de Filosofia, realizado no Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra em 26 e 27 de Fevereiro de 2004.

Notas para um Encontro de Filosofia  – “Do sentido do mundo sem Deus”

“(…)

Para mim, sentido do mundo significa pelo menos três conjuntos de coisas interdependentes (a tríade é irrelevante; a ordem que se segue, mais cíclica do que linear, não é arbitrária) experiência humana, categoria de totalidade, cultura mundial. (…)

II.

Nenhum dos três conjuntos que balizam ou coordenam o meu “sentido do mundo” carece da presença tutelar de um demiurgo (Platão), de um arquitecto ou relojoeiro de mecânica celeste (Voltaire e outros deístas do seu tempo), de um ser supremo (Rousseau) ou do deus-homem morto na cruz. Por toda a parte encontro o sobrenatural imaginado, concebido, instituído ou transfigurado à imagem e semelhança das comunidades humanas que o imaginaram, conceberam, instituíram ou transfiguraram. Por tudo isso, por mais do que isso, deus é para mim, de raiz, um problema de antropologia, presente como tal na história das ideias e das civilizações, na história da arte e da ciência e, claro está, na fé que vive numa parte da humanidade. Mas presente também, de outros modos, em múltiplos sistemas de dominação, em alianças milenares do despotismo com a superstição, em piedosa resignação com os males do mundo e até, – impossível esquecer isso – na aliança do Evangelho com a libertação dos oprimidos no aquém terreno.

Do que precede talvez se infira sem dificuldade que, se deus é um problema de antropologia, então a teologia (literalmente, a “ciência de deus”), quer se lhe chame revelada ou natural, só pode ser compreendida como uma analítica da fé, isto é, para me exprimir à maneira de Kant, como um cânone de deduções formais, como um corpus de proposições dedutivas, não como um organon do conhecimento. Retire-se à teologia a fé, desaparece a pedra de toque da sua validade formal. Nesta perspectiva, as “ciências teológicas” (expressão que por vezes se ouve ou lê) só podem constituir, para o não-crente, um suave equívoco de linguagem. Resta um último tópico, que assinalo sem nele entrar: observou Marx que o prefixo a-, na palavra ateísmo, ainda traduz (ex negativo, por assim dizer) uma derradeira ligação ao problema de deus. Aos ateus que pensam pertence talvez trabalhar a dificuldade, para além desse último vínculo de pensamento e de linguagem.

(Para o XVIII Encontro da Associação de Professores de Filosofia, realizado no Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra em 26 e 27 de Fevereiro de 2004.)

Ler na íntegra aqui

*O corpo está em câmara ardente na Igreja de S. João de Brito, na Av. da Igreja. Amanhã é cremado às 12h, no cemitério dos Olivais.
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