Não fui ao Protesto da “Geração à Rasca” (uma resposta à Gui Castro Felga e a outros companheiros de luta)

“Nós, que até agora compactuámos com esta condição, estamos aqui, hoje, para dar o nosso contributo no sentido de desencadear uma mudança qualitativa do país.”

“Protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável.”

do Manifesto do Protesto da Geração à Rasca

Não fui ao protesto da Geração à Rasca. Não fui, mas gostava de ter ido. As razões porque não fui são fortes razões de princípio.

Quando escrevo isto já é inegável que as manifestações foram, para os seus promotores, um sucesso. Ainda bem. Dou a todos os meus amigos e camaradas que para o protesto trabalharam (mas apenas a estes) os meus parabéns. Assim posso escrever sobre os meus motivos sem suspeita de oportunismo. Tirando algumas discussões ocasionais entre amigos que tive no Facebook, onde defendi a minha posição, não a tornei pública aqui para não hostilizar nem prejudicar o protesto.

A luta não começou anteontem. Nem na semana passada. Tem séculos. E nenhum novo alento o pode ocultar ou renegar. Temos de honrar as vidas, os sacrifícios e os esforços. Melhor: temos de honrar aqueles que, quando a luta não arrasta multidões, sempre saem de casa, para a chuva e para o aborrecimento, para lutar pelas vidinhas de todos.

As citações acima são excertos do manifesto que fundou o protesto da Geração à Rasca. Diz: “Nós, que até agora compactuámos…”. E prossegue: “…todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos…”. E endereça convites a todos os partidos, a toda a sociedade. A todos. Aos explorados e aos exploradores. Aos responsáveis pela política de espoliação dos trabalhadores de todas as gerações e aos que sempre contra ela lutaram. Não era uma manifestação de arrependidos (eleitores que tivessem votado no PS, no PSD ou no CDS). Não. Era um protesto dos que compactuaram, dos que são responsáveis: todos nós.

Ora, eu não compactuei. Não sou co-responsável pela situação. Eu e muitos milhares de amigos companheiros e camaradas que lutamos todos os dias para mudar a situação. Não se ouve falar disto, porque a comunicação social não trata com o mesma atenção esta outra face da luta quotidiana. Não revela milhares de outros rostos, tão espontâneos como dignos de interesse. Com intenção, ou por erro que não se quis corrigir nunca, este movimento não nos quis incluir.

Podia ser apenas um detalhe. Mas não é. Juntaram-se ao protesto os clientes do BPP, a JSD, o PNR a extrema-direita. Lado a lado com massas de gente que sempre lutou. Na página do Facebook do protesto, o populismo anti-partidos e de cariz muito pouco democrático à solta. Lá se mistura, nos comentários, “os políticos”: os que usurparam o poder e mentiram com os que se dedicam à luta diariamente. Podemos mesmo ver aqui a actriz Sandra Barata Belo a dizer que “já não há emprego para toda a vida e toda a gente quer isso. Isso acabou!”. Ou seja, a parafrasear a patranha ideológica de Miguel Sousa Tavares e tudo o que liga Durão Barroso a Sócrates. Que ironia!

Para muitas pessoas, mares de gente, acredito, esta minha posição pessoal parecerá muito pouco ou incompreensível. Mas ela não dependia, como não dependerá, da quantidade de gente que a compreende ou aceita. Sempre foi assim a luta, e não vai mudar amanhã. Por isso é que é LUTA.

A razão porque escrevo isto é porque o protesto da Geração à Rasca vai continuar. Espero que tome consciência de duas coisas básicas: se se mantiver esta falta de coragem para atribuir responsabilidades a quem verdadeiramente as tem e às políticas que provocam a precariedade, ganha-se certamente muita gente, mas outros ficarão de fora; é esta coisa da luta política: não se pode agradar a todos. Espero sinceramente poder participar no próximo.

E agora, Gui, apesar disto que disse, vou tomar o tal copito de água que me recomendaste, um gesto de humildade e um brinde ao teu trabalho. (Não estejam para aqui a olhar, que isto não é da vossa conta!)

Adenda: após um reparo do Renato Teixeira informo que a extrema-direita não participou sob a sigla PNR. Este partido demarcou-se da manifestação no próprio dia do protesto.

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