Não fui ao Protesto da “Geração à Rasca” (uma resposta à Gui Castro Felga e a outros companheiros de luta)

“Nós, que até agora compactuámos com esta condição, estamos aqui, hoje, para dar o nosso contributo no sentido de desencadear uma mudança qualitativa do país.”

“Protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável.”

do Manifesto do Protesto da Geração à Rasca

Não fui ao protesto da Geração à Rasca. Não fui, mas gostava de ter ido. As razões porque não fui são fortes razões de princípio.

Quando escrevo isto já é inegável que as manifestações foram, para os seus promotores, um sucesso. Ainda bem. Dou a todos os meus amigos e camaradas que para o protesto trabalharam (mas apenas a estes) os meus parabéns. Assim posso escrever sobre os meus motivos sem suspeita de oportunismo. Tirando algumas discussões ocasionais entre amigos que tive no Facebook, onde defendi a minha posição, não a tornei pública aqui para não hostilizar nem prejudicar o protesto.

A luta não começou anteontem. Nem na semana passada. Tem séculos. E nenhum novo alento o pode ocultar ou renegar. Temos de honrar as vidas, os sacrifícios e os esforços. Melhor: temos de honrar aqueles que, quando a luta não arrasta multidões, sempre saem de casa, para a chuva e para o aborrecimento, para lutar pelas vidinhas de todos.

As citações acima são excertos do manifesto que fundou o protesto da Geração à Rasca. Diz: “Nós, que até agora compactuámos…”. E prossegue: “…todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos…”. E endereça convites a todos os partidos, a toda a sociedade. A todos. Aos explorados e aos exploradores. Aos responsáveis pela política de espoliação dos trabalhadores de todas as gerações e aos que sempre contra ela lutaram. Não era uma manifestação de arrependidos (eleitores que tivessem votado no PS, no PSD ou no CDS). Não. Era um protesto dos que compactuaram, dos que são responsáveis: todos nós.

Ora, eu não compactuei. Não sou co-responsável pela situação. Eu e muitos milhares de amigos companheiros e camaradas que lutamos todos os dias para mudar a situação. Não se ouve falar disto, porque a comunicação social não trata com o mesma atenção esta outra face da luta quotidiana. Não revela milhares de outros rostos, tão espontâneos como dignos de interesse. Com intenção, ou por erro que não se quis corrigir nunca, este movimento não nos quis incluir.

Podia ser apenas um detalhe. Mas não é. Juntaram-se ao protesto os clientes do BPP, a JSD, o PNR a extrema-direita. Lado a lado com massas de gente que sempre lutou. Na página do Facebook do protesto, o populismo anti-partidos e de cariz muito pouco democrático à solta. Lá se mistura, nos comentários, “os políticos”: os que usurparam o poder e mentiram com os que se dedicam à luta diariamente. Podemos mesmo ver aqui a actriz Sandra Barata Belo a dizer que “já não há emprego para toda a vida e toda a gente quer isso. Isso acabou!”. Ou seja, a parafrasear a patranha ideológica de Miguel Sousa Tavares e tudo o que liga Durão Barroso a Sócrates. Que ironia!

Para muitas pessoas, mares de gente, acredito, esta minha posição pessoal parecerá muito pouco ou incompreensível. Mas ela não dependia, como não dependerá, da quantidade de gente que a compreende ou aceita. Sempre foi assim a luta, e não vai mudar amanhã. Por isso é que é LUTA.

A razão porque escrevo isto é porque o protesto da Geração à Rasca vai continuar. Espero que tome consciência de duas coisas básicas: se se mantiver esta falta de coragem para atribuir responsabilidades a quem verdadeiramente as tem e às políticas que provocam a precariedade, ganha-se certamente muita gente, mas outros ficarão de fora; é esta coisa da luta política: não se pode agradar a todos. Espero sinceramente poder participar no próximo.

E agora, Gui, apesar disto que disse, vou tomar o tal copito de água que me recomendaste, um gesto de humildade e um brinde ao teu trabalho. (Não estejam para aqui a olhar, que isto não é da vossa conta!)

Adenda: após um reparo do Renato Teixeira informo que a extrema-direita não participou sob a sigla PNR. Este partido demarcou-se da manifestação no próprio dia do protesto.

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36 Responses to Não fui ao Protesto da “Geração à Rasca” (uma resposta à Gui Castro Felga e a outros companheiros de luta)

  1. Renato Teixeira diz:

    “A Agenda do PNR não anda a reboque de oportunismos
    12 de Março, 2011
    A propósito da manifestação convocada pela denominada «geração à rasca» para este dia 12 de Março, e confrontado pela Agência Lusa acerca da nossa presença, vem o Partido Nacional Renovador desde já demarca-se de qualquer apoio ao referido protesto através de uma presença oficial.”

    Não linko, porque como diz o Carlos não se linka merda, mas repetir à exaustão a alegada participação do PNR parece-me um disparate. Dezenas, porventura centenas, de grupos aderiram ao protesto que somou perto de 300 mil pessoas em Portugal e no estrangeiro e tu, como outros, continuam presos à ideia de que não participam em algo que a direita e a extrema-direita gostariam de participar. Espero que a presença do PNR e dos TSD no 1º de Maio não te faça mudar de ideias sobre essa data.

    Quanto ao resto vejo que te mostras disposto a beber o copo de água e a participar na próxima manifestação à rasca, o que é de aplaudir porque nesta frente toda a esquerda faz falta na batalha ideológica, mas não te deixas convencer que os movimentos superam a natureza das suas direcções. Ou melhor, na prática deixas, o que só abona a favor da tua integridade movimentista, no argumento é que não. E é uma pena. 😉

    • Pedro Penilo diz:

      Renato, talvez o partido com essa sigla lá não tenha estado. Mas não andei a escolher só os comentários fixes na caixa de comentários do protesto no Facebook para saber que a extrema direita estava para lá mobilizada. Mas isso não é o mais importante. Se leres atentamente o texto, estás a argumentar a propósito de um detalhe e não do essencial, que é baseado em factos.

      • Renato Teixeira diz:

        O essencial prende-se com a natureza do protesto e as portas que este abre quer na luta contra a precariedade, quer na luta contra o governo. Como não vi isso escrito marrei com o detalhe que repete a mentira da participação do PNR. Devias ter visto a reacção colectiva face ao grupo de meia-dúzia de carecas que tentou colar-se à manifestação. Em sentido inverso, todos os movimentos de esquerda foram convidados a participar e a ajudar para que tudo decorresse sem problemas. Acho que isso, a par do que podes ver e ler mesmo sem teres ido lá, deixa todo o debate em pratos limpos.

        Quanto ao manifesto, nunca ninguém disse que ele não merecia a tua crítica. Agora sem a tua presença a tua crítica tem evidentemente menos capacidade de vir a convencer quem de direito. Até Sábado.

        • Pedro Penilo diz:

          Pelo contrário: espero que a minha crítica leve a escolher melhor os parceiros que se quer ter. Ou pelo menos a não deitar fora alguns “mais incómodos”. Havias de ver o sarrabulho que foi na caixa de comentários quando o PCP anunciou que aceitava o convite… Pensas que os organizadores se deram ao trabalho de recordar que o PCP luta contra a precariedade e o desemprego? Não, fizeram tudo para “desdramatizar”.

          É que para todos os efeitos, os “carecas” foram lá. E a extrema-direita não são só carecas…

          E eu não fui. Também não é drama nenhum.

          • Renato Teixeira diz:

            Sei. Ainda postei por lá qualquer coisa a defender que era bom a adesão do PCP. Deu um bom debate, nada de grandes sobressaltos. Vi de facto que uns quantos andavam a clamar pelo regresso da caça às bruxas mas entre mais de 60 aderentes seria de esperar que tal acontecesse. Os organizadores repetiram à exaustão o convite aberto a todos, incluindo partidos, para passar rapidamente dessa para outras discussões mais interessantes.

          • Renato Teixeira diz:

            60 mil, evidentemente.

          • Bruno Carvalho diz:

            Os carecas estiveram lá e em grande plano, na faixa da frente.

  2. Carlos Vidal diz:

    Concordo no essencial.
    Tudo isso já me passou pela cabeça como crucial, Pedro.
    Numa longa conversa com um crítico de arte que admiro (alemão-americano) dizia-me ele que o trabalho da crítica (e a crítica de arte comparada com a política é talvez uma brincadeira de crianças), o trabalho da crítica, mais do que residir no juízo de valor de obra a obra, residiria, deveria residir, na criação de campos de demarcação, ou melhor, na invenção de métodos para a criação desses campos.
    Não pude ir à manifestação de sábado, razões profissionais.
    Mas, mesmo discordando do manifesto, como tu, iria se pudesse. Um pouco decepcionado, contudo.
    Por não ter visto no manifesto esses tais campos de demarcação.
    Sábado próximo estarei lá, na Avenida.
    Depois falamos.
    Abraço
    CV

  3. Pedro,

    Devolvo-te o mesmo raciocínio. Para ir à manifestação do próximo sábado terei que engolir montes de sapos.
    A CGTP fala nos precários quando lhe dá jeito, mas não tem uma acção de fundo sobre a precariedade. Os sindicatos da CGTP estão anquilosados em relações trabalhador-patrão que cada vez existem menos, não prevêm que quem vive de biscates vai-se inscrever no sindicato de qual dos biscates? Não lutam efectivamente contra a precariedade e as novas formas de escravatura; usam-nas nos discursos quando dão jeito.

    Bem fez um grupo de professores que deixou o Mário Nogueira a falar sozinho e veio Avenida abaixo com as suas bandeiras do SPGL. Perceberam que o povo não estava no sindicato que fala das carreiras, dos escalões — há quantos anos não entra quase ninguém para esse regime, quantos professores é que estão a contrato ou a recibos verdes? Esses não são professores como os outros, não têm direito a um sindicato que os defenda?
    O mesmo SPGL, quando se mete com os professores de música, que são músicos em simultâneo, só dá calinadas. Não percebe — tal como não percebia a Mª Lurdes Rodrigues.

    Além disto, que é uma situação actual e espero que pontual — porque espero mesmo que a CGTP perceba rapidamente que tem que emendar a mão e representar TODA a população activa, empregada ou não, legal e direitinha à antiga ou nas mais diversas situações de precariado — tenho que que perceber qual é a verdadeira questão de fundo. Não são as azelhices da CGTP, que tem muito mais obrigação de ter experiência laboral, legal, organizacional e política do que 4 pessoas que nunca tinham organizado protestos na vida.

    As questões de fundo são este sistema económico e financeiro, é a apatia das pessoas (que pelos vistos ontem não viste a levar um rombo dos grandes); não se trata só deste governo, do anterior, nem do próximo. São as políticas, que são as mesmas há uma catrefada de anos, com a excepção da polícia de choque (como disse o Daniel no Eixo do Mal).

    Os enfeudamentos funcionam assim, cada um no seu cantinho. O sistema agradece e incentiva. Os PCs odeiam os BEs, que odeiam os anarcas, que odeiam quem nunca teve posições políticas (e não sabe que isso é em si uma posição política), que odeiam os MRPP, que odeiam… … Não há uma só Luta nem uma só ideia de Revolução. É preciso pensar em convergências e em formas de fazer a vida acontecer agora, não no dia em que repentinamente acordarmos todos em unanimidade.

    Sim.
    Os neo-nazis estiveram lá e tiveram a pior derrota da vida deles: ninguém lhes ligou pêva. Nem sim, nem não. Passaram contra a manifestação, provocaram e depois tiveram que se ir embora, porque ninguém lhes ligou nenhuma. Não foram o centro das atenções, como queriam, nem apareceram nas notícias. Não manipularam nem se apoderaram do protesto, como provavelmente julgavam. Muita gente nem deu por eles!

    E sabes qual foi para mim a maior maravilha? É que durante semanas na página do protesto no FB houve imensas perguntas e debates de gente que nunca tinha pensado em política e que tiveram respostas e que — nalguns casos isso era muito claro — pela primeira vez estavam a pensar em política. Coisas às vezes muito básicas, como a diferença entre político e partidário ou apartidário e anti-partidário. Qual é a diferença entre grunhir no café que “os gajos são todos iguais” e defender mesmo no efectivo que todos os políticos de repente vão para a rua, quais são as consequências, como é que vão abrir os hospitais no dia seguinte… e perceber que essa ideia só parece boa depois de uns shots. E continuar o raciocínio: se então a solução não é essa, qual é? E houve muita gente que se pôs a reflectir em medidas concretas, sérias, de forma consequente.
    Em pouco tempo percebeu-se (tão bem!) que os comentários idiotas não tinham respostas praticamente nenhumas. Os comentários curiosos — mesmo que ignorantes (e toda a gente começa pelo princípio) — tinham debaixo enormes debates: respostas e contra-respostas, novas perguntas…

    Portanto, voltando à minha decisão de ir ou não a uma manifestação, à minha questão de como resolver AGORA os meus problemas, parecidos aos de muitos.
    A minha questão — que não é pontual nem está dependente das azelhices ou falta de experiência dos outros — é que, se vou ficar sentada à espera que apareça um manifesto com que eu concorde palavra por palavra sem a menor excepção, então tenho que o escrever eu. Depois continuo sentada à espera que alguém concorde com o meu manifesto também sem reparos, o que sabemos que não vai acontecer. E assim ficamos todos — caladinhos e quietinhos, cada um com o seu manifesto pessoal, à espera do consenso absoluto.
    Nós… e a nêspera!

    Por isso é que vou dia 19, porque de alguma forma, mesmo que não da melhor maneira nem eu concordando em tudo, a CGTP faz uma manifestação pelos direitos dos trabalhadores. E isso é comigo. A CGTP tem que mudar, mas mudar o sistema é mais importante e mais urgente.

    • Pedro Penilo diz:

      Cara Helena:

      Para a discussão fazer sentido era positivo que a um facto e uma opinião não respondesses com outro tema que te apetece discutir, só porque te interessa ou dá jeito. Se tens de engolir sapos para ir às acções da CGTP, isso é da tua responsabilidade e não serve de “moeda de troca”, tal como não me queixarei a ninguém daqueles que já engoli.

      Em vez de optares por, à cabeça, entender que o desemprego e a precariedade é um instrumento de divisão e enfraquecimento dos trabalhadores e dos sindicatos, resolves que cabe aos sindicatos a responsabilidade pelas dificuldades enormes de organizar desempregados e precários. Mas isso tem bom remédio: sendo de facto uma coisa importante, sugiro-te que organizes tu um sindicato de precários ou de biscates. Não há nada como experimentar… Olha que há outras organizações de precários já há algum tempo e NÃO FAZEM MILAGRES NEM ARRASTAM MULTIDÕES. É que os sindicatos não caiem do céu. Foi preciso alguém criá-los. E agora, nesta conjuntura difícil, mantê-los e fortes. É da condição de um precário ter pavor de sindicatos, pelo simples facto de a sua condição ser… precária. Há a sensação compreensível de que os sindicatos não os podem ajudar e até fazem perigar o seu emprego. E as empresas de precários são empresas policiadas e sem actividade sindical.

      A afirmação de que a CGTP não tem uma acção de fundo em relação à precariedade e desemprego é inverdadeira. São só os dois temas, dos quatro das duas últimas duas greves gerais. E recusou-se a assinar o novo acordo de “concertação” que facilitava ainda mais os despedimentos. Além disso eu ouvi, ao contrário de ti, o discurso do Mário Nogueira. E portanto é também inverdadeira a afirmação de que só se preocupa com “carreiras e escalões”.

      Mas vamos ao tema do meu post:

      “As questões de fundo são este sistema económico e financeiro…” – Ora assim é que é falar! …hmm… que pena! nem um cheirinho, uma brisa disso no manifesto, zero, nada!

      “…não se trata só deste governo, do anterior, nem do próximo. São as políticas, que são as mesmas há uma catrefada de anos…” – Jesus, Helena, pareces o PCP a falar! E no manifesto? alguma coisita disso lá do fundo da caixa? Nicles!

      “Os PCs odeiam os BEs, que odeiam os anarcas…” – Há qualquer coisa de desonesto nisto que escreves, Helena. Se te permites ideias fortes a propósito de um posição pessoal de alguém que tu conheces, tens de ouvir respostas fortes também. É que tu sabes quem está a falar, e eu tenho um grande crédito no que a este assunto diz respeito. Sobre este assunto, duvido que haja em Portugal alguém que me possa dar lições. Vamos supor que não leste o texto com atenção.

      “É preciso pensar em convergências…” – Aleluia! Como eu gostaria que houvesse “convergência”. É que ouvi dizer que o protesto era CONTRA a precariedade, CONTRA o desemprego. E eles preferiram “convidar” os culpados e excluir ou apagar, com aquela formulação que aponto, os que sempre lutaram contra.

      “Neonazis” – foges à questão. Não me interessa o que aconteceu. Interessa-me que eles sentiram que havia espaço para lá irem. Porque esse espaço lhes foi dado.

      “A maravilha” (na caixa de comentários do Facebook) – acredito; sinceramente acredito que foi boa essa experiência. Mas isso não é uma manifestação CONTRA a precariedade e o desemprego. É outra coisa. Não me pronunciei sobre essa experiência, mas posso fazê-lo agora. Sou todo a favor e ainda bem que continua. É algo que pratico todos os dias da minha vida, dentro e fora do Facebook.

      “…se vou ficar sentada à espera que apareça um manifesto com que eu concorde palavra por palavra…” – Não vais. Nem eu. Não é disso que se trata. Mais uma vez lembro-te que já participei nas mais variadas acções, eventos e organizações, cujo conteúdo não subscrevia totalmente ou dificilmente. Creio que não preciso de te recordar quais. Tinham uma diferença: diziam “qualquer coisa de esquerda” e não me excluiam, não me punham no mesmo plano daqueles que sugam e exploram este país, não faziam a apologia da exploração ou da concertação com aqueles CONTRA os quais luto.

      “…caladinhos e quietinhos…” – Nunca estive. Nem tu.

      Helena, discordar não é “odiar”. Beijos

      • Pedro, desculpa, mas acho que o conceito da coisa te passou completamente ao lado.
        Não se tratou de pôr no mesmo plano, tratou-se de mobilizar pessoas que toda a vida se queixaram em voz baixa e pô-las a pensar no assunto consequentemente. Por isso é que não eram apresentadas soluções decididas numa qualquer reunião de peritos — sobre as quais nós não podemos fazer mais do que decidir se concordamos ou não —, mas pelo contrário pediu-se a cada um que levasse as suas propostas. Cada um teve mesmo que se sentar a pensar e escrever a sua própria folha e responsabilizar-se pelo conteúdo.

        Eles não falaram nos responsáveis pelos problemas, mas falaram nas “gerações anteriores (que) trabalharam pelo nosso acesso à educação, pela nossa segurança, pelos nossos direitos laborais e pela nossa liberdade” — os responsáveis pelas conquistas. Isto é mobilizador.

        Não começar pelos conflitos — porque apontar o dedo é começar um conflito — foi a meu ver uma coisa inteligente.
        As presidenciais foram agora. Mesmo quem votou contra ou se absteve levaria a mal que se começasse por apontar culpas a um presidente eleito há menos de um mês e que à data do manifesto nem sequer tinha tomado posse! O primeiro argumento seria que era um protesto baseado num manifesto que não respeitava a vontade expressa pelo povo.
        Assim sendo, não se apontava o dedo ao Cavaco. Com esta premissa qualquer outra acusação seria injusta.

        Fizeram aquele fórum onde foram aparecendo imagens de telejornais antigos, testemunhos, etc. e cada um que pense pela sua cabeça e faça as suas acusações. Sobretudo, o que mais interessa, é que essa consciência se materialize em votos nas eleições.

        Os partidos foram convidados por oposição àquela coisa que se tenta colar permanentemente (e continua…) para a demissão da classe política toda. Para esses não interessa quem são nem se são honestos, menos honestos ou declaradamente criminosos: são todos iguais. Para se demarcarem dessa colagem, os organizadores acabaram por lançar o convite aos partidos, associações, etc. e sendo apartidário não fazia sentido convidarem uns e outros não. Uns sentiram-se atacados, outros sentiram-se convidados.

        Por outro lado, a direita faz parte da Democracia, mais vale uma direita com quem se debate, que se conhece e que tem consciência da realidade, do que a direita do topo dos partidos de direita que temos. Prefiro ter como contraparte um PSD realmente Social-Democrata do que o que existe hoje.
        Pensar que repentinamente um dia toda a gente vai acordar a pensar à esquerda é irrealista.

        Há movimentos semelhantes com algumas diferenças em cada país. em Espanha já vi um também nascido na net que se assume declaradamente à esquerda. Dizem que basta de PPSOE — ou seja, o centrão.
        A meu ver correm dois riscos: um é o de afastar muita gente; outro é o de ao apelar aos extremos (querendo eles apelar à esquerda), apelarem também à extrema-direita. Não insignificante (como passou cá) mas real e com poder (como em França).

        No caso português houve na ditadura uma analfabetização da população com intuito manipulatório. Pouco depois, assim que acabou o PREC, aproveitou-se esse analfabetismo e iliteracia política para manipular novamente e criar mitos anti-esquerda; a extrema-esquerda é igual à extrema-direita; confundir comunismo com estalinismo e outras preciosidades que tu sabes. E ultimamente há quem aproveite muito bem o não funcionamento da Justiça para dizer que os políticos são todos iguais. Não podemos agir como se isto não existisse: esta é a nossa realidade, as pessoas realmente pensam assim. Primeiro é preciso fazer cair o mito do “eu sou apolítico”, pôr as pessoas a pensar por si, a ler as propostas dos partidos, a perceber que não são todos iguais e a decidir com base em tudo isso o que é que querem.
        Também por isso acho que não apontar o dedo e abrir as portas à reflexão individual foi bom. O objectivo não era simplesmente engrossar o número de simpatizantes de um partido qualquer, mas trazer mais gente para o pensamento político…

        Não esquecer do medo e da impossibilidade dos precários de declararem as suas posições — muita gente não pôs que sim na página do protesto, mas escreveu individualmente aos organizadores a dizer que ia, mas não podia escrever que sim, porque isso seria vigiado no emprego. Em centenas de milhar não há vigilância que valha e sobretudo o empregador percebeu que se despedir aquele precário o seguinte provavelmente também esteve no protesto!

        Quanto aos problemas inter-esquerdas, não falo de questões pessoais, falo das posições e dos comunicados oficiais que os partidos e organizações muitas vezes tomam. Posições pessoais representam uma pessoa e nada mais, posições assumidas oficialmente é que são graves. Em comunicados oficiais, em posições de voto na AR, em declarações de líderes quando estão a falar publicamente e nessa qualidade. E digo-te isto a ti, como digo muito mais vezes, por ter mais oportunidades, a gente ligada ao BE e aos anarquistas. Ou seja, não é pessoal nem é unidireccional. Digo que se assumem entre si muitas vezes como inimigos principais sem verem que à direita está muita gente a rir-se.

        E não percebi o que disseste sobre “fazer parte da condição de precário ter pavor dos sindicatos”?! Hã?! A sério, não percebi… a não ser que concordes com o José Manuel Fernandes, o que não acredito. Sinceramente. Portanto, não percebi.

        Defender a manutenção do despedimento tal como está na lei é uma óptima medida para evitar a precarização dos trabalhadores que não são precários e ainda bem que a CGTP tem força para o fazer. Acho muito bem que não seja possível mudar a lei para pior. O que eu gostava era que todos os trabalhadores tivessem acesso a ser defendidos por essa lei.
        Mais: acho que criar ainda mais outro sindicato é criar mais divisão e que a condição de ser multi-profissões é que tal sindicato iria obrigatoriamente colidir com outros que já existem. E não faz sentido, porque haveria múltiplos sindicatos para as mesmas profissões, estando as pessoas separadas consoante o tipo de contratação. É a oficialização do defeito que apontei há bocado à CGTP!
        Os movimentos de precários têm crescido devagar, na minha opinião, precisamente por terem conotação partidária — mesmo quando isso não é totalmente justo e não significa que tenham ao seu dispor os meios dos partidos. Pelas razões que descrevi acima, a simples conotação afasta muita gente.

        Bjs

        • Pedro Penilo diz:

          Tens razão: o “conceito” da coisa passou-me ao lado. Nada do que escreves responde à razão de ser daquelas citações do manifesto (desnecessárias, aparentemente – mas com consequências políticas no conteúdo geral). Experimenta responder ao conteúdo do texto concreto, senão é impossível.

          Sobre “o pavor dos precários em relação a sindicatos (ou qualquer tipo de organização interna de defesa de direitos)”: aconselho-te a falar com sindicalistas, ou mesmo com os movimentos como os Precários Inflexíveis. Talvez não saibas mas as poucas organizações internas de precários no local de trabalho são clandestinas. Mas nem quero acreditar que tu não saibas que hoje, nas maior parte das empresas, os trabalhadores (todos eles) têm medo de se afirmar sindicalizados e de exercer a sua actividade sindical.

          • Sei perfeitamente, aliás escrevi isso atrás. Os grupos, sobretudo os grupos mais pequenos são vigiados com maior facilidade.
            Mas isso a meu ver é mais uma razão para se querer união e não para não querer.

            Todos os sindicatos já foram clandestinos. Uma das razões que os levou a sair da clandestinidade é precisamente o tornarem-se tão grandes que foi impossível vigiar e por outro lado, os patrões aperceberam-se que se despedissem um trabalhador por ser sindicalizado, o seguinte muito provavelmente, também seria sindicalizado.
            O que me indigna é que tenhamos que passar por isso tudo outra vez como se estivéssemos no século XIX.

            E, Pedro, não vou fazer a apologia daquele manifesto como se achasse que é perfeito, porque não é. O que te disse é que apesar de tudo, tento concentrar-me no que me é essencial.

            Queres que defenda o “compactuámos”? Simplesmente não é isso que me vai afastar do acontecimento mais importante da vida política portuguesa dos últimos muitos anos. Um manifesto é geral, não é individual. Qualquer manifesto é geral e apaga os casos particulares.

            Mas vou-te dizer como interpretei o “nós”. Independentemente das acções de cada um individualmente, do teu voto pessoal e do meu: os resultados finais numas eleições é que mostram o retrato do país. As eleições e a ausência de intervenção política — individual ou organizada, partidária ou associativa — fora das eleições. Nós (eleitores tomados no todo) andamos há mais de 30 anos a eleger governos PS e PSD, com abstenções monumentais e fora as eleições não nos mexemos para além da queixa do café. Não “nós” eu nem tu e nem sequer os próprios organizadores da manifestação. Nós, eleitores portugueses num todo.

            Nós, eu, tu e gente com actividade política e intervenção somos poucos, muito poucos. Tão poucos que nos conhecemos todos. Encontramo-nos sempre nos mesmos sítios.

            O “nós” do manifesto — que é geral, não é um texto individual — nós, portugueses elegemos para presidente 2 vezes o mesmo tipo que mandou dar as cargas policiais mais históricas da Democracia e criou os recibos-verdes, precisamente, entre tudo o resto. O que se e o que se desconfia.
            Inegável é que os portugueses (nós) o elegeram — com os votos nos outros candidatos, os brancos e os nulos e a abstenção, os resultados foram validados.

            Agora nós mesmos: eu, tu e os outros activistas todos. Eu e tu temos opções partidárias diferentes. Temos modos de intervenção diferentes. Os grupos em que estamos integrados agem de forma diferente e têm propostas diferentes. E há mais grupos além deste que também intervêem, de outras formas ainda. Não é, portanto, por falta de diversidade de formas de luta e de acção política (e nomeadamente à esquerda) que uma tão grande fatia da população faz questão de se dizer “apolítica”. Nós, com tantas propostas diferentes, temos a responsabilidade de ainda não termos encontrado a forma certa de chegar a esta tão grande fatia da população.

            E o pessoal daquele manifesto conseguiu…

    • Irene Sá diz:

      “A CGTP fala nos precários quando lhe dá jeito, mas não tem uma acção de fundo sobre a precariedade”
      Isto é falso. Completamente falso. Há anos que a CGTP actua e luta contra a precariedade. Desde que o Mário Soares abriu a porta aos recibos verdes que a CGTP luta contra a precariedade.
      E pelo que sei o Mário Nogueira não ficou a falar sozinho.

  4. António Fonseca diz:

    Excelente post. Tudo no sitio. Sei que muita “gente boa” esteve na manifestação e que muita gente lá esteve participando pela primeira vez numa manifestação. Mas isso só prova que há disponibilidade para lutar, não prova que a manifestação em si mesma tenha consequências positivas (consciência de classe, património de luta, etc). Dir-me-ão: mas então faltando é que não ajudaríamos nada a trazer, dali, mais gente para uma luta consequente. Resta saber porém quanta gente ficará por aqui com a sua “consciência em paz” por ter “finalmente” protestado (e até, dirão alguns, lutado ao nosso lado). A prova dos 9 será no próximo sábado e na luta que lhe seguirá (como no dia 1 de Abril na Jornada de Luta da Interjovem contra a precariedade). Num momento como este querer toirear um tubo de escape do capital é muito complicado.
    E respondendo à Helena Romão (não aos comentários ridículos sobre a CGTP-IN e a sua luta contra a precariedade, ou o ridículo que é dizer que o Mário Nogueira falou sozinho para um Campo Pequeno cheio de professores, mas se calhar a Helena Romão é que define o que é que é e onde é que está o povo): fico com todas as duvidas que esta manifestação tenha ajudado a mudar o sistema ou se, pelo contrário, permitiu ao sistema (“sobressaltos cívicos” concedidos que estão) perdurar mais um tempito.

    Saudações

  5. Tiago Mota Saraiva diz:

    Pedro, percebo bem as tuas dúvidas. Mas foi bonita a luta, pá!
    Que continua.

    (Já agora, porque o facebook tem destas coisas, um dos tipos que ameaçava correr com os comunas da manifestação tinha como profissão, no facebook, Investigador do Ministério da Justiça)

  6. JP diz:

    Grande Post.
    Concordo com tudo, de uma ponta à outra.

    Ainda assim, também teria estado na manif. se tivesse podido.

  7. Augusto diz:

    Aquilo que se escreveu no Facebook , e aquilo que foi a manifestação, para quem lá esteve , são questões distintas.

    A Manifestação foi das maiores a que Lisboa assistiu.

    Lá estiveram desde avós a netos, de operários a licenciados, de reformados a jovens á procura do primeiro emprego.

    Não foi uma manifestação enquadrada em qualquer serviço de ordem, muito espontânea, e plural.

    Não foi uma manifestação anti-partidos ou anti-politicos, mas sim contra quem tem governado o país, e não dá saidas aos problemas do povo.

    Foi uma manifestação claramente politica, e no fundamental , e não tenho receio de o afirmar, de esquerda.

    As duas dezenas de cabeças rapadas, provocadores, que se juntaram á manifestação no S. Jorge,e que logo aí tentaram a provocação, e o fizeram de novo uns metros mais á frente, só foi visivel para os jornalista que buscam a todo o custo este tipo de situação , e a quem esteve nesses locais, para a esmagadora maioria de quem participou na manifestação , nem sequer se apercebeu da presença dessa escumalha.

    E talvez ele tenha sido na sua desorganização, organizada, na sua espontaneidade, no pluralismo das suas reivindicações, um sinal para TODA a esquerda.

    Já é tempo de dar resposta a esta gente que se manifestou.

  8. rms diz:

    Já agora, se a coisa era apartidária, o que andavam por lá a fazer os jornais da FER? Fui só eu que vi?

  9. Orlando diz:

    Os meus parabéns ao Pedro pelo excelente Post, sintetizou tudo aquilo que eu penso.
    Apesar de não concordar com alguns dos pontos deste manifesto, sim porque eu não pactuo nem tão pouco me sinto culpado pela situação actual, fui até à manifestação. Antes passei pelo Campo Pequeno para prestar a minha solidariedade aos meus amigos professores.
    Quanto à manif da geração à rasca, e à espontaneidade da coisa em si, de facto considero que muitos dos que nela participaram foram porque realmente era apelativo o tema e estiveram porque de facto estavam à rasca. Outros nem tanto. Infelizmente a consciencialização de que lutar na rua, no local de trabalho na escola, não é tarefa fácil e implica sacrifícios, não é compreendida pela maioria das pessoas, e não falo só nos que estiveram presentes na manif, falo de todo o povo, esta é a realidade. Hoje em dia são poucos aqueles que lutam a pensar no colectivo, porque, no meu ponto de vista estão “formatados” para “lutar” pelo seu individualismo e isso é, e sempre foi o objectivo daqueles que mandam neste país.
    Quando leio comentários como o da Helena, aqui neste pots, fico verdadeiramente triste, pois é uma inverdade aquilo que diz. Fui durante anos delegado sindical numa empresa, escolhido pelos meus colegas, porque achavam que eu seria a pessoa que melhor os poderia representar. Tentei e dei o meu melhor durante anos, mas quando a administração decidiu que eu estava a mais, fui despedido. Helena tenho a dizer-lhe que passei muitas privações e que se não fosse o sindicato a lutar ao meu lado, eu não teria aguentado a pressão que sofri na altura. Quanto aos meus colegas, nunca os abandonei, mesmo estando já fora da empresa, consegui com que as rescisões fossem negociadas e todos eles fizeram transições boas para a sua vida futura, ao contrário aqui do je, que ficou na merda. Consegui sindicalizar mais de 100 pessoas e tal como referi, foi com a ajuda do sindicato que conseguimos ultrapassar essa crise. Não me arrependo, e voltaria a fazer o mesmo, é tudo uma questão de consciência e penso que a tenho.
    O sindicato foi o CESP, organização que pertence à CGTP IN, na altura lutei não só pelos efectivos, como pelos precários e pelos falsos recibos verdes existentes na empresa, ( que consegui que a empresa integrasse nos quadros).
    Como vê Helena, esta minha luta não foi noticiada, nem apareceu nas noticias dos jornais e posso lhe garantir que não sou único. São muitos os que lutam nas empresas pela dignificação de TODOS os trabalhadores, sejam eles efectivos, contratados, recibos verdes ou precários.
    Desculpe Helena, estar a dizer-lhe estas coisas, mas é que me senti injustiçado com a forma como se referiu aos sindicatos e à CGTP. Toda a minha lutei e continuarei a lutar por aquilo em que acredito, de uma forma organizada e com objectivos válidos, e posso lhe dizer, porque estive na manifestação da geração à rasca, que a grande maioria dos que lá estavam, não tinham essa consciência. Gostei da espontaneidade, não gostei das palavras de “ordem” que proferiram. Insultos e ofensas pessoais não levam a lado nenhum, muito pelo contrário, só levam a que muitos dos que lá estiveram ficassem desiludidos e desistissem de estar presente numa próxima.
    No próximo sábado 19, lá estarei, com a consciência de que a luta se trava, não numa só batalha, mas com muitas batalhas e pode ter a certeza que participarei em todas elas, assim toda a gente tivesse essa vontade e ensejo, agora não me ponham, como diz o Pedro, no mesmo plano daqueles que sugam e daqueles que querem vir a sugar o povo deste país, era bom que conseguissem separar as águas.

    Orlando Gonçalves

    • Pedro Penilo diz:

      Amigo-camarada Orlando de sempre! Penso sempre que não te vejo há tanto tempo. Um abraço

    • Orlando,

      Eu não desprezei o trabalho que a CGTP já faz, disse que é insuficiente, que não se adaptou à nova realidade.
      Sei que os sindicalistas são perseguidos, sobretudo os delegados sindicais.

      Disse, porque acredito, que “é uma situação actual e espero que pontual”, porque acho que a CGTP tem como objectivo defender os trabalhadores todos.
      Só que no presente (e isso mantenho) não tem sabido adaptar-se à defesa dos trabalhadores em situação ilegal — novas escravaturas — e às novas formas de trabalho que, sendo legais, são muito diferentes das tradicionais (há recibos verdes legais, há quem tenha diversas ocupações diferentes e que não se encaixam num só sindicato de um ramo laboral).

      É uma crítica, não é uma acusação de algo assim tão terrível. E se não achasse que, embora de formas que não concordo, a luta de fundo é a mesma, não teria começado por afirmar que vou dia 19. Certo?

  10. Olaio diz:

    Pedro as questões que colocas são importantes e não devem ser iludidas nem menosprezadas por todos aqueles que querem uma real mudança de politicas e que, como eu, estiveram na grande manifestação de dia 12.
    Abraço.

  11. Manuela Pires diz:

    Caro Pedro Penilo:

    Também não fui à manifestação exactamente pelos mesmos motivos. Acresce que os grandes jornais (incluindo o Público do Belmiro e o DN do Governo) andaram a fazer propaganda aberta e gratuita da manifestação, nomeadamente nas primeiras páginas (o que não costuma acontecer, como toda a gente sabe).

    Manuela Pires

    • António Figueira diz:

      (Se és a Manela que eu penso), Caríssima Manela,
      Perdoa-me que te diga, mas parece-me que há um erro conceptual na tua análise:
      – Tu não vais porque os jornais do Belmiro ou do Governo disseram para ir?! Tu tens noção da natureza absolutamente reactiva (e, logo, condicionada) dessa atitude? Assim, os jornais do Belmiro ou do Governo acabam por mandar em ti!, tens noção disso? Tu deverás ir se – e como foi o caso – uma avaliação objectiva das razões do protesto, da natureza dos protestatários, das virtualidades futuras do protesto, te disserem que deves ir!! Qual é a dúvida? Aquilo estava cheio de gente à deriva? Olha, tanto melhor! Bjnhos, saudades

      • Pedro Penilo diz:

        Caro António:

        Creio que saltaste a frase logo a seguir ao “Caro Pedro Penilo:”. E negar que a preparação do Protesto teve um tratamento de luxo nunca dantes visto parece-me impossível.

    • Manuela Pires diz:

      Caríssimo António Figueira,

      Não sei se sou a Manuela que tu pensas, mas esforço-me por pensar. E penso que não disse aquilo que tu dizes no teu post., i.e. que eu não teria ido á manif. por causa dos jornais . Eu disse, sim, que subscrevia as razões invocadas pelo Pedro Penilo. Para além das que ele invoca tenho outras mais. Apenas referi (e não a invoquei como razão, disse apenas “acresce…”), os jornais porque achei, no mínimo, curioso (e que dá para pensar, dá) o destaque diário (e de convocação gratuita; deve ser daí que vem a designação de low cost…) das manifestações. Os mesmos que, pura e simplesmente, ignoram e/ou destacam pouco as outras manifestações (antes, durante e depois…). Aliás, não deixa de ser igualmente curioso que, no dia seguinte, o destaque do DN na 1ªpágina fosse para dizer bem da manifestação e mal dos deputados… (De qualquer modo, António Figueira, tens de reconhecer que se o Belmiro/Sonae (um dos portugueses que integra a lista da Forbes) «nos convoca» para uma manifestação – o que, por si só, é um paradoxo – alguma razão terá…)

      Tenho outras razões, para além das invocadas pelo Pedro, para não ter ido à à manifestação. Que não vou discutir aqui e agora. Não acho (tu é que o dizes) que as pessoas fossem à manifestação por estarem à deriva (embora alguém os queira ver à deriva) mas sim porque a maioria delas está profundamente descontente com as políticas do PS/PSD. Agora a verdade é que os vulcões precisam de lançar a sua energia cá para fora… E em Portugal se isso acontecer num ambiente fixe, todos amigos, sem partidos, sem sindicatos, sem religião, sem consequências, sem opções e compromissos, é pá, é uma alegria! A luta é alegria, pá!

      Fico a aguardar as «virtualidades futuras» (!).

      Abraço, mesmo que não seja a Manuela que tu pensas (e que não disse o que te pensas que eu disse),

      Manuela Pires

      • Pedro Penilo diz:

        Peço desculpa por me ter antecipado à tua resposta em causa própria. Vejo agora que tinha ficado bem, quietinho.

  12. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Pedro,
    É dos posts mais sectários que já li. Peço-te desculpa, mas não consigo concordar. O manifesto era muito ingénuo, mas o significado do protesto foi muito importante. Mostrou que grande parte dos jovens está farto deste governo e desta política. A ideia de deixar este espaço para que a direita e os oportunistas o manipulem é um total disparate. É onde estão as pessoas que é possível fazer luta política.

    Caríssima Manuela Pires,
    O caríssima é pq me lembro de ti da UEC. A ideia de que alguma coisa que é notícia é obrigatoriamente mau, é não conhecer o que é notícia e meter tudo no mesmo saco. Por essa ordem de ideias, nenhum de nós tinha ido à manifestação global contra a guerra do Iraque de 18 de Fevereiro, pq aquilo foi profusamente noticiado e falado.
    Há coisas que se prestam a ser notícia, pela sua natureza. É natural que uma movimentação virtual de meia duzia de jovens que cresce exponencialmente seja uma notícia atractiva. É novidade e tem todos os ingredientes para os media. Isso não é obrigatoriamente mau.

    • Pedro Penilo diz:

      Nuno, aquilo não foi “notícia”. Todas as regras deontológicas foram desrespeitadas na cobertura da preparação do protesto. Foram tempos de antena: o manifesto lido em voz off com música de fundo e separadores gráficos do próprio movimento. Isto vi eu não poucas vezes. Páginas e páginas de jornais quando ainda nem se sabia o que isto ia ser. Mesmo admitindo proporcionalidade: alguma vez uma manifestação em Portugal teve a a cobertura profusa e simpática que esta teve? Nunca.

      O manifesto não tinha nada de ingénuo. Foi sistematicamente defendido e nunca corrigido, no seu branqueamento das culpas, na página do Facebook. Sobre a manif, não sei, não estive lá. Estou atento aos testemunhos. Mas eu encontro pessoas todos os dias, Nuno.

      E não deves ter lido o meu post, pois para contestares a matéria que está no texto só consegues produzir a palavra “sectário”. É poucochinho.

      Ciclicamente essa palavra cai da boca de alguns com uma facilidade tocante. Devo ser mesmo eu.

      • Nuno Ramos de Almeida diz:

        Pedro,
        Li o teu post. O facto de sair nos jornais não é critério que determina, sem apelo nem agravo, estarmos perante uma má manifestação. Os jornais e a comunicação social, ao contrário do que estás convencido, não têm uma ordem de serviço na redacção para fazer as notícias. Guiam-se pelos preconceitos e a ideologia própria dos jornalistas, mas também por determinados critérios. Um deles é o da novidade. Esta manifestação tinha todos os condimentos para dar muitas notícias. Recordo, mais uma vez, que na primeira manif contra a guerra do Iraque, a comunicação social deu um amplíssimo destaque à preparação da manif e todas as televisões estiveram em directo de lá.
        Também, as primeiras grande manifs do professores tiveram uma enorme cobertura. A novidade é um aspecto que a comunicação social tende a privilegiar.
        Sectarismo significa não perceber que centenas de milhares de pessoas se manifestam contra a precariedade e pelo emprego com direitos, perante dezenas de comentadores que os condenam – pode ter havido notícias, mas, ao contrário do que tu afirmas, os ideólogos de turno condenaram repetidamente os jovens à rasca, e só agora alguns querem desarmar o seu protesto, associando-se -, significa um grande passo, do ponto de vista da contestação à ideologia neoliberal.
        Quem deixa o descontentamento à direita, e não está com o protesto, presta um mau serviço às forças anti-capitalistas de esquerda. Não percebendo que o campo de unidade numa manif não é igual ao programa do partido, nem exige que todos os manifestantes tenham lido, compreendido e apoiem o Capital e os últimos livros do Barata Moura.

        • Pedro Penilo diz:

          “Notícias”: Concordo com tudo o que a este respeito dizes, com duas ressalvas: não foram “notícias”, foram autênticos tempos de antena. E eu não disse que havia uma “ordem de serviço” (embora duvide muito da capacidade do simples jornalista para mandar alugar um helicóptero), nem disse que a manif era má por isso, nem disse que não iria por isso. Mas eu não sou ingénuo e tu também não, portanto não vamos pintar estas coisas demasiado cor-de-rosa. Este tema foi a propósito do comentário da Manuela Pires, que agora confirmo ter entendido bem. Não tens nenhum motivo para apresentar este argumento, nem no meu texto, nem nos comentários que escrevi. Mas já percebi que isto é uma tradição das caixas de comentários: estamos quase sempre a falar de coisas que se imaginam.

          “Sectarismo”: se isto fosse o comentário de alguém que não me conhece, eu compreendia e esforçava-me por explicar. Mas és tu, Nuno! Portanto, nem preciso de dizer-te a quantidade de associações e projectos em que participei, com cujos programas eu concordava apenas parcialmente ou dificilmente. Numa delas tu estavas na direcção, Nuno! Se achavas que eu lá estava por concordar com a taxa Tobin, estavas enganado. Eu queria lá saber da taxa Tobin para alguma coisa. E mais, Nuno, sou assim desde pequenino.

          Desculpar-me-ás, mas vou sacar da resposta que já dei à Helena Romão, aqui em cima:

          Dizia a Helena Romão: “…se vou ficar sentada à espera que apareça um manifesto com que eu concorde palavra por palavra…” E eu respondi: “Não vais. Nem eu. Não é disso que se trata. Mais uma vez lembro-te que já participei nas mais variadas acções, eventos e organizações, cujo conteúdo não subscrevia totalmente ou dificilmente. Creio que não preciso de te recordar quais. Tinham uma diferença: diziam “qualquer coisa de esquerda” e não me excluiam, não me punham no mesmo plano daqueles que sugam e exploram este país, não faziam a apologia da exploração ou da concertação com aqueles CONTRA os quais luto.”

          Neste momento de desespero, é preciso um cuidado redobrado para com os motivos porque se leva as pessoas à rua. Mas vale a pena consultar a página do “Fórum da Gerações” no Facebook para ter um ideia do resultado.

          Abraço, Nuno

  13. ARLINDO diz:

    adorei todos os comentários a este post. Riquíssima troca de opiniões. Quase todas muito válidas.

    • Pedro Penilo diz:

      Obrigado, Arlindo. Não sendo eu representante dos que comentaram, espero ter contribuído para isso que diz . Gostava de ter sempre elogios desses nas minhas caixas de comentários. Volte sempre.

  14. Sérgio Montez diz:

    É sempre bom ver as várias perspectivas de um mesmo assunto colocadas em confrontação dialética. Acho que o protesto foi globalmente positivo mas nao deixa de ser curioso o cavalgar do PR (antes do protesto) e do PSD (depois do protesto) Ironia das ironias: nao só Cavaco foi o PM mais repressivo como o PSD em ex-equo com o PS, é o campeão da precariedade!

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