“Um enorme e pacifico protesto contra o Governo”

A frase que dá titulo a esta posta, roubada ao Público, diz bem do que unificou todas as vozes mas não nos revela o esprit du temps do protesto. Ontem,  na Avenida da Liberdade, foi a voz da esquerda a que se fez ouvir. Pacheco, claro, protesta. É o PREC, fareja com razão. E os jornalistas tiveram o despudor de filmar. Lamenta. Ele sabe do que fala porque lá deve ter tido alguém e porque o assusta o que viu em directo. O que o chateia, na verdade, não são os jornalistas, que ele quer que continuem horas infinitas nos congressos do PSD e do PS e provavelmente na Volta a Portugal. O que o deixa do avesso é que ele viu o elemento mais determinante: o protesto foi de esquerda.

Contou com pessoas de direita, sim, mas muito poucas e algumas que nem sabem que na verdade são de esquerda. As tresmalhadas ou jogaram às escondidas ou foram mal recebidas. Não tiveram o direito à palavra não porque lhes tenha sido retirada mas porque não apareceram ou porque não têm melhor do que aquilo que foi levado a cabo quer no Estado Novo quer desde o 25 de Abril. Ficaram em silêncio porque sabem que têm pelo menos a mesma responsabilidade no actual estado de coisas. O que se ouviu nas propostas que a esmagadora maioria das organizações e das pessoas levaram às ruas foram coisas como o fim da precariedade, a defesa dos serviços públicos, contra os recibos verdes, os contratos a prazo e pela defesa do emprego com direitos, pelo não pagamento da dívida, contra a inflação e o aumento de impostos, contra o FMI. Voltaram-se a ouvir os estudantes a gritar contra as propinas e nos mais velhos a preocupação simultânea com a reforma e os netos. Contra o Sócrates falaram todos mas o Cavaco não foi o homem da luta que parece ter sonhado na tomada de posse. Apareceu gente de várias gerações mas na inversa proporção do que costuma acontecer. Os militantes dos partidos de esquerda souberam aparecer integrados nos movimentos e foram muitos mil a lutar por outro Abril.

No final os organizadores despediram-se com cravos erguidos e o povo mostrou saber quem nos trouxe até aqui e parece não querer que tudo se repita. As próximas paragens estão definidas – dia 16 no Comité Contra o Pagamento da Dívida e no dia 19 na Manifestação Nacional da CGTP – mas também ficou visto, no debate que interessa fazer entretanto, que importa perceber o que fazer a seguir para que o Sócrates e tralha sucedânea perceba definitivamente que já basta (Passos Coelho ficou seguramente com menos vontade de chegar ao poder) e que queremos mais do que “prometer reforçar políticas”, seja lá o que isso quer dizer. A força que se juntou na rua tem a responsabilidade de continuar. Sem isso o dia de hoje não passará de uma boa ida ao divã quando tem condições para ser muito, mas muito mais.

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