O problema da minha relação com o tempo

A doce recordação das tardes infanto-juvenis passadas sem qualquer preocupação de utilidade a ver jogos de rugby a preto-e-branco, com comentários de Cordeiro do Vale, leva-me a embirrar solenemente com essa invenção recente do Torneio das 6 Nações: 5 chegavam perfeitamente, e a Itália não está lá a fazer nada, digo eu. Não? Está, sim, e o problema é mais meu do que dos italianos: chamemos-lhe o problema da minha relação com o tempo, que ainda me impede de levar muito a sério esta história de estarmos no ano 2000 e tal (porque, até há pouco tempo, 2000 – e sobretudo 2001 – eram simples sinónimos de “futuro” em geral, horizonte por definição inalcançável) ou, pior ainda, de me referir ao século em que nasci como “o século passado” (o século XX era o dado, e devia durar para sempre, até o Criador se chatear e apagar o Sol). Eu sei bem que as tradições se inventam: e por estar a assistir à invenção de uma – o Torneio das 6 Nações – parece que me esqueço que o Torneio das 5 Nações era outra que tal (e que os tipos do séc. XIX também devem ter passado horrores para se habituarem ao novo século); mas no L’Équipe de ontem (sorry, artigo não disponível na net), fiquei ainda a saber que a participação da França, nos seus onze primeiros torneios, após 1910, conseguiu ser pior do que a italiana, desde 2000 – e hoje a participação da França é o dado. Tentativa não-psicologista de explicação parcial do fenómeno: a invenção do passado só funciona no futuro, e o presente é irrelevante. Reductio ad absurdum: se Portugal entrar em 2050, pode aspirar a ganhar o Torneio lá para 2100.

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SEXTA | António Figueira
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