Novas dos lugares onde não passam comboios.

Desculpem maçar-vos com o Alentejo. Como bem sabemos, quem é que hoje quer saber do Alentejo? Sabemos onde está. É fixe ir lá para espairecer.

Porque é que não há de haver em Portugal uma região que não nos dê dores de cabeça? Assim tipo o Terreiro do Paço, só para ir olhar? Assim tipo Líbia, mas sem o Khadafi, nem o petróleo, nem a 6ª Esquadra: só aquela parte entre o leste e o oeste, mas sem beduínos, sem camelos, nem suricatas,  aqueles ratinhos colectivistas que fizeram montes de sucesso na Gulbenkian (sem sericaias também, já que falam nisso… uma folha em branco, pronto!).

Com tanta abundância de motivos empolgantes e baris para se encher uma avenida (a palavra baril é a própria corporização, se me posso exprimir assim, duma coisa baril: redondinha, oca, mas sem os dois érres – não arranha), não será abuso meter pelo meio, numa página A4, esta coisa que vos venho para aqui contar do Alentejo?

O caso é que no concurso para apoios anuais e bianuais da Direcção Geral das Artes, o júri decidiu reduzir o número de projectos a apoiar na região do Alentejo, de 14 para 11, e com isto reduzir a verba previamente estabelecida pelo regulamento do concurso, em 135.477 euros (19% da verba orçamentada). Isto quer dizer que três projectos culturais viáveis e estruturados ficaram este ano sem dotação para a sua actividade. Entretanto, como por milagre, aumentou o número de projectos aprovados na região de Lisboa e Vale do Tejo e o montante das verbas anteriormente regulamentado.

Como pode um júri alterar as condições do regulamento que o constituiu? É simples: há uma portaria de vão de escada que permite violar a lei “legalmente”. Uma especialidade deste governo, na cultura: há sempre uma portaria desconhecida que espera por si e que permite fazer o contrário do que a lei diz.

O freguês que me está a ler atropelou um rapaz da Golegã numa passadeira. Vai ser condenado. Ou não!… Deve haver uma portaria que diz que, se o governo quiser, a passadeira é que é culpada. Ou que às quintas-feiras, que é quando jogava o Sporting, o pessoal da Golegã pode ser atropelado.

Mas não é tudo, (embora esta parte seja francamente aborrecida, caro leitor): a região do Alentejo, nos apoios às artes, já antes era discriminada. A própria ministra, num dia em que estava bem disposta, confirmou com um eufemismo (que não era de Baleizão): “discrepância” disse ela.

Face ao exposto (ainda tenho o meu minuto final!), 25 estruturas culturais do Alentejo protestam em comunicado. Até aqui tudo normal… Mas agora vem a parte excêntrica: no comunicado, as estruturas ousam formular não uma, mas duas exigências políticas!!! Restituir a verba subtraída, à região a que se destinava, e apoiar, no mínimo, os 14 projectos regulamentados…

Mas não quero cansar os leitores com detalhes supérfluos. O que aqui é verdadeiramente chocante é que estruturas culturais tenham o desplante de pensar politicamente, consigam formular exigências políticas (bdec!) com o risco certo de serem acusadas de quadradas, antiquadas, dogmáticas, etc. Não sei se o leitor está a acompanhar: estas estruturas podiam ter tirado à sorte as exigências, de um aquário! Podiam ter exigido que a ministra decretasse imediatamente os Dez Mandamentos! Podiam ter perguntado ao Doutor Karamba o que é se deve exigir nesta época do ano! Podiam ter aproveitado o lugar vago no Prós e Contras para pedir à Fátima Campos Ferreira um conselho!

Mas não, caro leitor (Ah, já não está aí…), os nossos alentejanos, de forma totalmente antidemocrática, ultrapassada e unilateral, sentaram-se à mesa dos telefones e dos cafés e negociaram politicamente um comunicado com exigências comuns.

E não há o Alentejo de estar como está…

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