António Figueira apresenta (**Spoiler Alert!**) novo livro de ficção

O António Figueira apresenta esta semana o seu novo livro de ficção. Vão dizer-vos que é o primeiro, mas é na verdade o segundo: antes veio um romance delirante sobre o Estado-nação chamado “Modelos de Legitimação da União Europeia”, o qual, disfarçado de obra de divulgação filosófica, recebeu no seu tempo o prémio Jacques Delors para o melhor estudo académico sobre temas comunitários (**Spoiler Alert!**: o Estado-nação morre!).

O novo livro que a nação reclamava há anos chama-se “O Filho de Campo de Ourique e Outras Histórias”. Como o nome deixa adivinhar (**Spoiler Alert!**), tem uma história chamada “O Filho de Campo de Ourique” e outras histórias que não se chamam “O Filho de Campo de Ourique” mas são igualmente boas, e está à venda nas melhores livrarias desde segunda-feira (às piores vai chegar mais tarde). Quem já leu faz-lhe rasgados elogios. Quem não leu também.

Eu já li, conheço a peça, e sei que ele tem um ego robusto, capaz de resistir às tiradas ditirâmbicas que se têm escrito e certamente vão ainda escrever-se sobre ele; mas V., leitor, cuidado. Vão tentar dizer-lhe, a si que o conhece de gingeira, que há histórias nas histórias e estilo no estilo e essas merdas com que a crítica tenta explicar o inexplicável: por que é que o Figueira é bom. Nisso se afadigam, e por isso lhe louvam a imaginação com que imagina o que imagina e a precisão com que conta o que conta. Há gente capaz de lhe falar (há gente para tudo) na mestria com que ele lida “com múltiplos registos” ou na “fluidez da prosa”. Graças a deus, we know better. A prosa do AF não é fluida: tem frases que dão a volta ao quarteirão, estrangeirismos a dar com um pau, e pronomes pessoais redundantes com que uma pessoa se sobressalta, ai meu deus, meu deus, meu deus. A verdade (**Spoiler Alert!**) é que quando se lê o AF tem-se a impressão, incómoda e, a espaços, verdadeiramente chocante, de estar a ler português, essa coisa rara entre todas na literatura portuguesa. É incompreensível que a editora não o tenha traduzido dessa rude língua em que ele escreve para uma das muitas não-línguas que se falam em Portugal: assim ninguém o entende, amigo, e não ganha o prémio Saramago.

Em suma: a prosa não é redonda, não é “elevada”, nem quer elevar-se, ao contrário da obra do herói que dá nome ao livro. (**Spoiler Alert!****Spoiler Alert!****Spoiler Alert!**) Para vocês que não o leram, o Filho de Campo de Ourique (1961-1986) é, por causa de um incêndio que lhe queima os manuscritos, “o primeiro grande não-autor da história da literatura mundial“. Morto intestatus e impublicatus, idolatrado pela crítica literária e estudiosos de todas as áreas científicas, da sua não-obra (esse “‘buraco negro’ das letras“) puderam dizer os mais argutos: “por mais voltas que se dê, não será possível obscurecer o essencial: que o Filho desmaterializou a literatura, a idealizou, a tornou soprável ao vento e passível de ser contada aos passarinhos, a levou ainda mais além, no caminho da adesão da ideia sonhada à palavra gravada, criou categorias novas e insuspeitas e, com o pouco que tinha ao pé de si – ali entre Santa Isabel e os Prazeres – criou largo, e visou alto, e acertou certo” (“O Regresso do Filho de Campo de Ourique”, in “O Filho de Campo de Ourique”, D. Quixote, 2011). Com o António Figueira, os passarinhos, coitados, bem podem esperar.

Informações úteis: o António Figueira vai estar esta sexta-feira, às 15h, numa mesa-redonda no Correntes d’Escritas, essa “meca da criação literária”, como lhe chama Eduardo Lourenço, para debater o tema “Espalho sobre a página a tinta do passado” (por amor de deus, não se ria). O debate é moderado pelo José Mário Silva, e conta, entre outros, com o Francisco José Viegas e a Inês Pedrosa. Olhem o linquinho.

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