Mais uma obra-prima de Iñarritu “incompreendida” em Portugal…

Biutiful marca o regresso do mexicano Iñarritu às longas metragens, depois da trilogia dourada composta por Amor Cão, 21 Gramas e Babel (todos eles incríveis). Embora haja aqui elementos das obras anteriores, como o lado mais conturbado e profundo do amor do primeiro filme, a questão da morte de 21 Gramas ou o choque cultural de Babel, esta é a primeira obra a solo do autor, sem a presença do argumentista Guillermo Arriaga, e não inclui a abordagem mosaico, em que os destinos de personagens aparentemente sem qualquer ligação se encontram por causa de um episódio, de uma característica ou de um desígnio.

Contudo, grande parte dos traços do autor está bem presente em Biutiful. Continuam em destaque as personagens perdidas à procura de um rumo e da redenção e a apresentação de uma sociedade cruel e desumanizada, pontuada por momentos de uma beleza e de uma bondade subliminares. Ou ainda, uma forma de filmar muito tremida e próxima, de forma a causar algum desconforto ao espectador e a envolvê-lo mais de próximo na trama, e a sempre lindíssima banda-sonora de Gustavo Santaolalla, com o som poderoso do charango a acompanhar na perfeição a intensidade dramática do filme.

A isto acrescentamos (mais) uma interpretação avassaladora de Javier Bardem e a descrição crua do submundo de Barcelona. Ou ainda a profundidade emotiva da relação pai-filhos, provavelmente só com paralelo na fabulosa adaptação cinematográfica de A Estrada de Cormac McCarthy, e um final absolutamente sublime, que me deixou arrepiado de uma forma que já muito não acontecia. Assim sendo, não fico com dúvidas de que se trata de mais uma obra-prima de Iñarritu, talvez até a maior da sua ainda curta carreira.

No entanto, nem toda a gente acha isto, há quem faça críticas destrutivas ao filme. É o caso de Luís Miguel Oliveira, no seu texto “Óful”, publicado no Ipsilon. Com todo o respeito, não se trata apenas de uma crítica pouco feliz, mas reveladora de uma desonestidade intelectual tremenda. Desconheço se a crítica portuguesa tem algo de pessoal contra Iñarritu, mas que outra justificação se encontra para arrasar constantemente a obra do autor, tão elogiada por esse Mundo fora, nomeadamente no insuspeito Festival de Cannes? A crítica é livre e tem sempre uma certa subjectividade, mas há limites. É impossível não detectar ali uma marca de autor que o separa dos demais, uma preocupação grande pelos detalhes e cenas de cinema absolutamente obrigatórias. Algo que é objectivo e que uma crítica séria deveria valorizar.

Francamente, eu não suporto os filmes do David Lynch, mas, exactamente pelo que foi dito, seria incapaz de lhes dar bola preta ou uma estrela…

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