A confusão que interessa

Há coisas muito importantes a passarem-se no mundo. Umas mais a sério, como o que se passa na Tunísia e no Egipto, outras mais a fingir como as análises do BE e o PCP sobre as presidenciais (não digo que as dos outros partidos sejam boas ou melhores, mas essas não me interessam). Enfim, o mundo dá para tudo e espero que ambos os casos, as coisas cheguem a uma libertação profunda das amarras que nos oprimem – embora esteja menos esperançado em relação aos últimos.

Mas eu vim falar de uma coisa completamente insignificante – de um partido completamente insignificante que a Diana me alertou há uns dias: o PAN – Partido pelos Animais e pela Natureza. E porque é que faria uma coisa destas? Bem este partido é óptimo para fazer pontes com o mundo e com uma variedade de discursos que existem por aí.

Começando pelo hino, que parece uma versão pimba do ‹‹Several Species of Small Furry Animals Gathered Together in a Cave and Grooving with a Pict›› dos Pink Floyd; continuando pela sua Declaração de Princípios que defende uma ‹‹harmonia tão ampla quanto possível›› para os ‹‹todos os seres sencientes, humanos e não humanos›› (ver ponto 3). Isso é bonito, mas parece que a única forma de o fazer é tratar bem os animais e a natureza, esquecendo por completo o sistema capitalista em que vivemos e que daí vem boa parte das barreiras que existem entre nós e a felicidade. É uma boa forma de entretenimento a que estes camaradas do PAN nos apresentam – mas poderia ser completamente ingénua, coisa que não o é.

Para além de defenderem o negócio ‹‹verde›› (ponto 7), outra grande medida – sem esquecer a repetição constante da igualdade entre homens e animais – é a lusofonia:

‹‹Portugal deve promover a Lusofonia e os valores universalistas da cultura portuguesa e lusófona no espaço internacional, dando o seu melhor exemplo e contributo para converter a sociedade planetária na possível comunidade ético-cultural e ecuménica visada entre nós por Luís de Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.››

A cidadania, o civismo, a lusofonia e coisas desse género não faço ideia do que são na prática (e na teoria tenho muitas duvidas). Palavras que se utilizam bastante – estas e as anteriores eleições presidenciais são disso exemplo – e que agradam a muita gente porque parecem, para além de inofensivas, completamente correctas e certas sem nunca se questionar para que servem.

Não esquecer uma pequena coisa: as ligações de quem gere a coisa. O Paulo Borges é um dos directores da revista Nova Águia e presidente do Movimento Internacional Lusófono, coisas confusas mas que pendem para um certo lado pouco simpático.

É estar atento.

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