Não se pode mudar de esquerda?

Depois de um protesto de operários contra o governo da República Democrática Alemã, o secretário da União dos Escritores apressou-se a justificar o governo, o que levou o dramaturgo e militante comunista Bertolt Brecht a escrever o poema “A Solução”:

«Após a insurreição de 17 de Junho
O secretário do Sindicato dos Escritores
Mandou distribuir panfletos na Avenida Stalin
Declarando que o povo
Se tornara indigno da confiança do governo
E só à custa de trabalho intenso
A poderia recuperar. Não seria
Mais simples então que o governo
Dissolvesse o povo e
Elegesse outro?»

Ao ler as análises do Francisco Louçã e ouvindo o discurso de Francisco Lopes lembro-me sempre deste poema. Quando é que percebem que não podemos estar contentes e que este é o pior resultado possível? Louçã escreve como se o BE tivesse tido a melhor estratégia para bater a direita, Lopes como se os comunistas tivessem tido uma grande vitória. Nós sabemos que isso é tudo mentira. Temos um país em crise profunda e os partidos de esquerda (PCP e BE) acantonados nas suas pequenas estratégias, a defenderem os seus míseros lugares, sem capacidade de se entenderem e , sobretudo, sem quererem juntar esforços para apresentar uma alternativa com força que combata a política neoliberal do bloco central. Estes partidos estão convertidos em máquinas de produzir e justificar derrotas. Não querem, nem ambicionam vencer. Em vez de nos quererem convencer que temos de mudar de povo, não seria melhor a esquerda começar a mudar?

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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