Eu fetichista me confesso

Filha, tens cá um fetiche

O meu amigo José Neves, apoiante do Defensor de Moura nas presidenciais, mimou-me com duas respostas. Chamou-me nomes diferentes e nas duas apelidou-me de fetichista. Não tenho por agora tempo para lhe responder a tudo. Tentando no entanto não o deixar à espera, vou responder-lhe a muito pouco.

Penso que o Neves tem Tronti a mais e falta-lhe perceber um pouco a teoria do imperialismo da Rosa Luxemburgo de que fala, mas deixo isso para segundas núpcias.

A passagem mais surrealista da argumentação do Neves é quando diz que se o Estado Espanhol referendasse a autodeterminação do País Basco era prefeitamente legítimo votar pela manutenção do mesmo em Espanha, dado que ela já não era um país opressor e os bascos, pelo simples facto de terem acesso ao referendo, deixavam de ser uma nacionalidade oprimida independentemente do resultado do mesmo. Não sou um emérito e premiado académico, como o meu amigo José Neves, mas está-me a parecer que ele confunde as relações de poder com as formas de legitimação. Não é pelo facto que os actuais governos serem eleitos que eles deixam de ter uma política de classe.  A sua eleição não torna menos injusta aquela política, nem menos necessaria a sua contestação. Da mesma maneira que não é pelo facto da Indonésia ter referendado a independência de Timor que um “comunista internacionalista”, como se auto designa o Neves, devesse apelar ao voto na dominação Indonésia. A menos que o facto de a Espanha ser na “Europa civilizada” e  “ser uma democracia” faça para o Zé toda a diferença. Nesse caso, é interessante analisar que, tal como na originária Grécia, essa democracia não se exerce de forma “democrática” para toda a gente. Não se exerce da mesma forma pelos operários e patrões, pelos negros e os brancos, pelas mulheres e os homens. Não exerce com a mesma liberdade para um defensor da unidade de Espanha e um independista basco. Aqueles que defendem a independência estão sujeitos a identicações policiais periódicas e prisão, ilegalização de partidos e de jornais, tortura e repressão. A existência de uma nação que exerce uma dominação sobre outro povo deveria merecer análise ao nosso internacionalista. Fica-se sem perceber se, a exemplo de Negri, o Zé Neves acha que vivemos no “Império”, seja lá isso o que for, e superámos a existência de imperialismos.  Marx, a quem o Neves dá pouca importância, dizia a propósito da dominação russa da Polónia que “um povo que oprime outro povo não será um povo livre”. Colocando a questão da autodeterminação no campo da luta pela a emancipação mais global da superação do capitalismo.

Sinceramente, acho que o Zé tem dá atenção à “estética” das suas atitudes, mas temo que algumas vezes elas não passem disso.  É pena, até porque é das pessoas mais inteligentes que conheço. Fico-lhe a dever a continuação da resposta.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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