Feridas abertas no Bloco de Esquerda – Nova dissidência tornada pública

Carta Aberta à Comissão política do Bloco de Esquerda

Ao cuidado da Comissão Política do Bloco de Esquerda,

sou não só aderente, mas militante do Bloco de Esquerda desde que atingi a minha maioridade, tendo agora quase 25 anos. Já então acreditava que qualquer transformação efectiva na sociedade portuguesa teria de se constituir em ruptura com o sistema político e económico nacional, e em combate contra os partidos que o dominam num perpétuo rotativismo em que tudo muda a cada quatro anos, para sempre ficar no mesmo. Acreditava que a resposta política teria que ser extra-sistémica, pois o quadro da política convencional “tem ajudado bem pouco a superar este quadro e, pelo contrário, revela-se um factor do seu agravamento: a fulanização aproxima-a de uma feira de vaidades, o minimalismo da dependência face aos media retira-lhe densidade e qualidade, a gestão de influências diminui-lhe a credibilidade” (“Começar de Novo”, manifesto fundacional do Bloco de Esquerda). Face a estas limitações patológicas da democracia parlamentar portuguesa, a alternativa socialista e popular teria de se constituir em ruptura com a situação, e em diálogo com sectores com objectivos programáticos comuns. Nesta guerra, o parlamento deve ser um campo de combate, mas não o único, e nunca o primordial. A alternativa constrói-se na base, e não na cúpula. O Bloco surgiu como resposta a estes anseios, como uma coligação de movimentos e indivíduos de esquerda que, em unidade na diversidade, se propunham corajosamente a tomar esta tarefa de refundação nas suas mãos.

Desde o inicio, verifiquei divergências com a direcção do movimento, sem nunca consumar um corte definitivo, pois as divergências são naturais num partido democrático. No entanto, deixaram de o ser quando me senti ostracizado por pertencer a uma das correntes internas do Bloco, nunca sendo formalmente convidado a sair devido às minhas divergências, ainda que sentindo uma agressividade latente da parte dos camaradas que discordavam das minhas posições, afectos à direcção. Houve alturas, em que uma autêntica “caça às bruxas” tinha lugar, uma verdadeira “demonização” de uma das correntes internas do movimento, algo que não é salutar, e que ainda hoje ocorre no seio do partido. Sem me alongar em pormenores, todos os que ainda militam no Bloco, certamente sabem do que estou a falar.

Ainda assim, continuei a militar. Questões organizativas resolvem-se dentro da organização, pensei eu, e o essencial é a política. No entanto, ainda no campo das questões organizativas, ocorreram divergências políticas. Como já disse acima, quando construindo uma alternativa política socialista e popular, o parlamento deve ser um campo de combate, mas não o central. A alternativa constrói-se no real, no tecido económico da sociedade, no seio de quem trabalha, intervindo nos sindicatos, comissões de trabalhadores e outros movimentos sociais. O trabalho parlamentar deve-se sempre subordinar a isto, e os deputados eleitos devem estar subordinados a quem intervém directamente na sociedade. No Bloco, sempre se verificou o contrário: um grupo parlamentar completamente independente, um autêntico “partido dentro do partido”, cujo trabalho é o eixo à volta do qual gira o movimento. Alturas houve, em que a impressão que me dava era de que o Bloco se resume quase exclusivamente ao grupo parlamentar, o resto era uma mera estrutura de apoio. Neste momento, e com o evoluir da situação, não tenho qualquer hesitação ao afirmar que o Bloco está completamente institucionalizado, profissionalizado e, se preferirem, burocratizado. Denotam-se facilmente fenómenos preocupantes, como o da excessiva profissionalização e casos de carreirismo da parte de jovens escolhidos a dedo pela direcção, cujo único critério de escolha é a fidelidade política à dita.

Depois, e para concretizar, vieram as rupturas politicas definitivas. O apoio a Sá Fernandes na Câmara de Lisboa e a coligação com o PS no dito município. O voto favorável à filantrópica “ajuda financeira” à Grécia, ou seja, o apoio ao PEC do vizinho, e para culminar, a campanha conjunta com o partido do governo para a eleição de Manuel Alegre. O Bloco não é a alternativa extra-sistémica que eu procurava no inicio, e não vejo forma de o voltar a ser. A institucionalização está consumada, e a partir desse momento, quero cancelar a minha categoria de aderente do movimento e, com isso, privar-me de todos os deveres e direitos que tenho como tal.

Tal não quer dizer que não haja momentos em que estaremos em luta conjuntas, e provavelmente, o BE até continuará a contar com o meu voto em certos actos eleitorais mas, perante tanta divergência programática, deixei de vislumbrar qualquer sentido em continuar organizado, não querendo contribuir para uma contabilização artificial do número de aderentes do partido. Como tal, desejo desvincular-me do mesmo.

Com saudações socialistas,

Tiago Silva

[aderente nº 3409]

PS – Tiago, a dissidência é sempre um momento de tristeza mas é seguramente melhor do que cantar alegrias a fingir, a mentir ou de encomenda. Parabéns pela coragem que te dará muito mais energia para as lutas que valem a pena. Aquele abraço.

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