O pecado e o tabu de Francisco Lopes – Pelo capitalismo fofinho mas com os dentes de fora?

É sem qualquer dúvida o menos mau dos candidatos. O facto de se ter demarcado dos PEC’s e do Governo Sócrates, de afirmar cumprir a Constituição, de ter estado contra a Nato e as suas guerras e com a Greve Geral, é quanto baste para o afirmar. Se está claro que Francisco Lopes nada tem a ver com as políticas que nos levaram ao pântano a que chegou a vida política portuguesa, é menos óbvio perceber se ele representa a mudança estrutural que defende nas entrelinhas e que tanta falta fazia à rotina em que se converteu o caprichoso espectáculo do regime. Para o descobrirmos há uma questão que precisa de ser clarificada e um tabu que não deve ser tolerado. Se tal não acontecer, a candidatura de Francisco Lopes arrisca-se a morrer na praia das intenções.

A primeira questão prende-se com natureza da sua candidatura. O PCP insiste em ir a votos com a nomenclatura sempre que tem oportunidades óptimas para desmascarar definitivamente a agenda liberal do PS. Paradoxalmente, a clareza que quase sempre o preveniu de ir a votos de mãos dadas com o PS, contrastou com a rapidez com que demasiadas vezes alimentou pactos de regime. Não é preciso, embora seja sempre útil, regressar ao debate de Novembro, nem tão pouco aos tempos difíceis do sapo Soares, um pouco mais à frente. Actualmente, e não obstante a beleza da sua narrativa sobre Sócrates, a verdade é que a candidatura de Francisco Lopes se recusa a exigir a demissão do governo, quer na sua frente parlamentar (votará uma moção de censura que coloque em causa a sobrevivência do governo?), quer na frente sindical onde não levantou essa demanda na greve geral e nada foi programado para lhe suceder do ponto de vista reivindicativo. Só ficará claro que o PCP não quer ser governo com Sócrates se se dispuser a tirar o Sócrates do governo, ou não será assim?

O tabu sobre a segunda volta, que alimenta tacticamente todo o silêncio relativamente a um hipotético apoio a Manuel Alegre, não só é grave como não devia ser admissível. Acho mesmo que todo e qualquer candidato devia ser obrigado a dizer a quem lhes confia o voto, o que fará com o seu capital político, seja na cadeira do presidente seja ao apoiar quem se venha a sentar nela. Seria importante ouvir da boca de Francisco Lopes o  que têm dito muitas das pessoas que apoiam a sua candidatura e que ainda agora o Bruno resumiu na sua brilhante análise à evolução do BE: “Os trabalhadores conscientes sabem que nunca poderão votar em Manuel Alegre.”

O PCP que me desculpe mas gato escaldado de água fria tem medo. A história já provou que o partidão é lesto em saudar a luta pela emancipação dos povos na directa proporção em que se encontra distante deles. Uma vez no epicentro da luta são demasiados os exemplos de que alinha com facilidade na “coexistência pacífica”, que em nada se distinguem da metáfora em que se transformou a candidatura do Governo. Tal com ontem defendiam a paz com a Espanha franquista, na alvorada de Abril, ao mesmo tempo e na mesma intervenção em que defendiam as sublevações na América Latina, estarão hoje em condições de nos dizer que a guerra que se dispõem a fazer a Cavaco não será substituída pela convivência pacífica com Manuel Alegre?

Descarregue aqui as declarações de Cunhal a defender a coexistência pacífica com a Espanha franquista, acabado de chegar do exílio, a 30 de Abril de 1974.

Roubado ao arquivo da Câmara Municipal de Odivelas.

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , , . Bookmark the permalink.

76 Responses to O pecado e o tabu de Francisco Lopes – Pelo capitalismo fofinho mas com os dentes de fora?

Os comentários estão fechados.