E por que é que temos de ser sempre muito muito “contemporâneos”?

Estava a ler neste “Público” de hoje, confesso que em diagonal, pois a matéria tal como vinha tratada não me suscitou grande dedicação da minha parte, um fraco e escolar texto sobre o “protesto hoje”, de título amaneirado “Protesto: começar de novo” (suplemento “Y”), com banalíssimos depoimentos de sociólogos e historiadores lusos. As ideias de todos aparecem sempre iguais às de todos, uma salada com todos e nenhuns ingredientes.
Porque passa sempre tudo pela acusação de egoísmo (a tudo e) às causas fracturantes (como se não houvesse seus protagonistas que trabalham muito além do individualismo monotemático); pela tese da falta de “pensamento” (ou “grandes narrativas” como o Lyotard de 1977 dizia); pela revolução como algo ainda e sempre em curso (os “fantasmas” permanentes de que falava Marx tal como interpretado por Derrida?); pela descrença total em relação às “mobilizações colectivas” (A Era do Vazio, de 88, do fraquíssimo Lipovetsky andava por aí, e antes dele muitos outros); a ideia de que a história se sumiu e dissolveu nas “praças, edifícios, livros”, etc. Enfim, lá vinha também o brilhante Rui Tavares dizer que “A cultura popular está atomizada” e ainda que a “cultura” já não se faz com a época anterior, mas com a presente (por acaso, as grandes exposições internacionais do momento são as de Monet e Mondrian, este no Pompidou, a expo temática sobre Aby Warburg – um pensador complicado demais para estes depoentes? – e Renoir em Madrid, ou Gauguin em Londres; o sr. Tavares sabe articular alguma coisa de jeito sobre Warburg, por exemplo, sobre o psico-historiador que se propunha tratar a “imagem” como “mundo em potência”, sobre este genial arqueólogo de “fantasmas para pessoas adultas”, proponente de uma “ciência sem nome” e sem sequencialidade histórica??).
Tudo isto me trouxe a uma página (casual) de A Era do Vazio, 1988 (estamos verdadeiramente atrasados e sempre no mesmo ponto?):
“O ideal moderno de subordinação do individual às regras racionais colectivas foi pulverizado”. Dando origem a novos “procedimentos inseparáveis de novas finalidades e legitimidades sociais: valores hedonistas, respeito pelas diferenças, culto da libertação pessoal, da desconstrução, do humor e da sinceridade, psicologismo, expressão livre – que quer isto dizer senão que uma nova significação de autonomia se instalou (…)?”
É por isto que Badiou nos diz que é preciso olhar bem para trás, pensar em Lenine, Estaline ou Mao (o maior dos libertários), sermos em suma “modernistas empedernidos”. Sem medos ou censura (a não ser a que devemos praticar sobre nós mesmos).
E é ainda por isso que, no meio de tanta “força”, “energia” e “liberdade individual” permitida e estimulada ao serviço deste novo mercado das revoltas e criatividade “atomizada” (como diz o brilhante Tavares), o mesmo Badiou nos diz, na tese 14 de “Troisième Esquisse d’Un Manifeste de l’Affirmationnisme” (em Circonstances 2, 2004), que nós devemos ser de nós mesmos os mais implacáveis censores. Precisamente, para não lançar mais pensamentos-slogans, ruídos inúteis, “livres” e “muito atentos ao presente” (e que categoria é esta??). Porque mesmo se fosse isto que o nosso presente (com estes “diagnósticos por assim dizer sociológicos”) ou a nossa “condição ACTUAL” têm para nos dar, isto mesmo teríamos de ou deveríamos recusar. Ou seja, perante a liberdade liberal, devemos responder: Não, Obrigado!
Entendido?? (Até prá semana)

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