O sonho molhado da versão beata da direita radical

Estaline e Churchill em Teerão no tempo do Xá. Trotsky: "Dizem que mal se conhecem mas a verdade é que quem nunca aterrou por aqui, fui eu!"

Por estes dias o Insurgente dedica-se a escalpelizar a “extrema-esquerda” à luz do que escreve o Carlos Vidal e eu próprio, procurando vender a nossa prosa como uma massa  uniforme, acéfala,  pouco perceptível e menos ainda recomendável, que em nada se distingue seja nos métodos, seja na agenda. Para eles, tudo o que seja à esquerda do PS são fiéis seguidores de Kim Jong-il. Quando o Carlos Vidal, o Tiago Mota Saraiva ou o Bruno Carvalho escrevem algo que contesta a dimensão hegemónica do lado ocidental da vitória da 2ª Grande Guerra, justificando, ainda que conjunturalmente, os males menores das nações do Pacto de Varsóvia, a fidalguia espuma e acusa cada um deles de seguidores acríticos, apostólicos mesmo, do socialismo real. Se o António Paço, o José Reis ou a Diana Dionísio escrevem a dizer, cada um à sua maneira, que o projecto revolucionário (sim, que “socialista” o povo acha que é o Sócrates e  eu estou cansado de usar aspas) não se esgotou em Moscovo ou em Pequim, são, na cabeça da direita da ansiedade fóbica, perigosos esquerdistas prontos a abrir uma barricada em Wall Street com os mendigos de Manhattan. Claro que qualquer texto político que não comece por condenar o “terrorismo islâmico” ou a “saudar o evangelho”, é sem sombra de dúvida um trabalho a mando de Osama Bin Laden.

Se é verdade que alguma esquerda democrática não tem o despudor de prescindir desta estratégia sempre que lhe falta o verbo ou o argumento, esta é uma via inquinada da mais profunda ignorância política e que encontra as suas raízes na sociedade sonhada, meticulosamente sonhada, pelos barões que vivem nas casitas dos bairros altos.

Esta iliteracia, no entanto, varia consoante a época histórica que vivemos.  Acossados, espantados mesmo, pela unidade contra o ridículo que por estes dias me unificou ao Carlos Vidal, aproveitam o momento para meter tudo no mesmo saco, esquecendo que sempre que não chegaram às diferentes formas de fascismo, foram os primeiros a escolher como aliado o papão que tanto os atormenta. Da minha parte, o Vidal agora que os ature, que no campo das alianças estratégicas, o trotskismo, pelo menos o sul-americano, tem o cadastro limpo. É que se a revolução permanente sempre se mostrou disponível, em contextos favoráveis, para dizimar o poder da burguesia, na hora H a “democracia de mercado” e a “ditadura proletária” sempre encontraram pontes com mais facilidade. É certo que o profeta armado pode ser acusado de nunca ter saído da marginalidade das trincheiras, escapando-lhe a possibilidade de esboçar a sua versão do homem novo e nada garante que desse esboço viesse a emancipação absoluta. Agora entre unidades tácticas e alianças estratégicas vai pelo menos uma montanha chinesa, um muro de Berlim, várias guerras civis espanholas, duas dúzia de Soares e outras tantas de Alegres, e demasiadas, demasiadas mesmo, contra-revoluções novembristas.

Enquanto o Vidal insistir em ficar preso, inexplicavelmente preso, à heterodoxia soviética (sim que se aquilo fosse ortodoxo tínhamos ganho a Alemanha e quiçá, o mundo), eu dificilmente passarei de um aliado de circunstância contra a indigência absoluta. Tenho mais que fazer do que reciclar velhos projectos para poder estar preparado para o próximo chá dançante que convoquem na forma de pacto, tratado, corrida ao espaço ou guerra fria. Já só aturo crápulas se forem, pelo menos, anti-imperialistas.

[Camarada Carlos, entende esta posta apenas e só como uma tentativa de obrigar os insurgentes a ir, a cada parágrafo, à enciclopédia bafienta do colégio high. Se mudares de ideias para dar as boas vindas à crise de 2011, terei todo o gosto em ser teu cicerone nas hostes esquerdistas que se estão a arregimentar. Pode ser que ainda não seja desta que arrancamos, a ferros, a V Internacional, mas pelo menos e porque alguns traidores de classe trataram do assunto nas adegas do patriarcado, o vinho promete ser bom.]
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