Fala o Renato, meu oponente e companheiro de armas, do “sonho molhado” da direita radical, a das saudades do bombismo de 75 (ELP / MDLP), falo eu agora dos meus sonhos molhados, onde entram Caravaggio, Estaline, Mao e, sobretudo, Shyla Stylez! (e isto é uma resposta ao post do Renato Teixeira)

SHYLA STYLEZ; site: http://shylaxxx.com/tour/index.php?nats=MC4wLjEzLjE2LjAuMC4wLjAuMA
Genuíno! Horas de contemplação, como diz o outro.

O post do Renato a que me refiro, todo ele tresandando de anti-sovietismo primário (meu caro amigo, revê isso, pá!), é acompanhado de uma foto (montagem) e legenda sintomática; diz, nessa fotomontagem, o grande naïf Trotsky que tem as “mãos limpas” e “quem nunca aterrou por aqui fui eu”. Mas o que é isto, ó camarada Renato, erigirmos como símbolo alguém que “tem o cadastro limpo”. Que puritanismo é o teu, camarada de armas?? Também achas que a transformação social é um convite para jantar? – que eu aceitaria de bom grado, como o vinho e o arranque da V Internacional. Talvez agora com sede e gestação na América Latina, mas sempre respeitadora do passado, de Moscovo a Pequim. Não vou lá por menos. Por isso, é claro que insisto naquilo que chamas a “heterodoxia soviética”. Sim senhor, insisto!

Desculpa lá, mas às vezes fazes-me lembrar os violentíssimos discursos do nosso companheiro Enver Hoxha (a quem presto homenagem), quando se balançava para as críticas à URSS kruchoviana (e tu até vais mais longe, apontas armas para toda a URSS depois dos anos 20!). Mas ele era lúcido, o Hoxha, extremamente lúcido, porque sabia que aquela (a URSS) era a pátria da emancipação, o lugar que mostrou ao mundo outro mundo (assim tornado possível), por isso ele afirmava no Relatório ao VII Congresso do Partido do Trabalho da Albânia (anos 70); lê com atenção: “Um outro grande mal, MAS NÃO IRREMEDIÁVEL [sublinhado meu!!], é que os revisionistas modernos nos países onde tomaram o poder, aproveitaram-se da revolução proletária e da ditadura do proletariado, e há os que se tornaram superpotências como a União Soviética”. Repara, caríssimo, Hoxha ataca a URSS de Kruchov, mas tu vai mais longe em nome das “mãos limpas” de Trotsky: atacas tudo o que decorreu depois da morte de Lenine. E, possivelmente, também atacarás a frente chinesa, coisa que eu nunca faria. E explico porquê. Segue a coisa.

Questionava Mao em 1928: “porque é que o poder vermelho pode existir na China?” Mao, um estratega inultrapassável, tinha a resposta na ponta da palavra e do fuzil (claro): “A existência prolongada, num país, de uma ou de várias pequenas regiões onde o poder vermelho se consolidou, zonas rodeadas pelo poder dos brancos, constitui um facto absolutamente novo na história da humanidade”. Entendido? Trata-se apenas de dizer que é possível um processo novo, e que ele estava à frente dos olhos, era mesmo uma evidência táctil – o que Trotsky depois de abandonar a causa deixou de experimentar e acreditar. Sinaliza-se isto mesmo em Mao: se podem existir pequenas freguesias ou comarcas ou outra forma de demarcação governadas pelos comunistas (e, actualmente, poderíamos considerar as “juntas de bom governo” do Exército Zapatista, embora este não procure o poder para se instalar na cidade capital e governar todo o país – diferença fulcral em relação ao maoismo, mas não empolável), se podem existir pequenas zonas comunistas, esse ineditismo, este facto absolutamente novo, concorre para o estabelecimento de uma relação entre invenção e nova realidade.

Um outro texto de Mao muito me interessa, “De onde vêm as ideias correctas” (1963). Uma “ideia correcta” é uma “ideia verdadeira”, a verdade é correcta, porque, circularmente, uma ideia incorrecta não pode ser verdadeira. Mas já sairemos do círculo. O ponto de partida é este, muito curioso e directo: a finalidade do mundo é a sua transformação. Não é possível uma política de emancipação e transformação sem esta premissa. Mas o mundo não pode ser transformado sem que seja conhecido com toda a exactidão. Esta premissa aproxima-se da intuição pura e da invenção política (de que Mao é um dos mestres). Conhecer minuciosamente uma coisa tem por objectivo destituí-la (ou destruí-la) – a realidade é para ser mudada, claramente.

Como? O primeiro passo do conhecimento da realidade é a sua assimilação perceptiva, o conhecimento exacto. A percepção conduz-nos ao conhecimento conceptual, mas o conhecimento não é, em si, uma meta. A meta é a transformação da realidade. Total, e não tenhas medo deste “total”. Porque total é mesmo total.

E este é obviamente o grande mérito de Estaline e da sua frase: “Estamos 50 a 100 anos atrasados em relação aos países mais avançados. Temos de percorrer esta distância em 10 anos. Ou conseguimos fazê-lo ou seremos esmagados”. O que acrescenta uma outra tese: se não transformarmos, transfigurarmos, a realidade/sociedade por ela seremos engolidos. Daí o recurso à violência. Inevitável, meu caro. Ora, o problema de Trotsky é o de, de facto, ter as “mãos limpas”. E isso, neste contexto, não faz sentido absolutamente nenhum!

Entendido??

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