Por respeito aos que gostam do Natal, deixei de respeitar o Natal

É mais ou menos assim todos os anos e na quadra natalícia o mundo parece dividir-se entre os que se excitam e os que deprimem com esta época do ano. Está bom de ver, a vida dos primeiros fica, mesmo que até nem seja, muito mais fácil. Apesar da volta a Portugal em 24 horas, apesar da destruição da poupança em treta consumível, apesar de ter que levar com o cunhado, a nora ou o tio com quem estamos, há demasiado tempo, desavindos, quem gosta faz o passeio dos tristes com um sorriso na boca e mesmo que vá libertando um desabafo agnóstico lá segue, prostrado, na caravana do martírio.

Paradoxalmente tem pouco a ver com classes e nada, quase nada, a ver com a família. Mesmo quem não tem família nem onde cair morto guarda os dez reis de mel coado para trocar por qualquer coisa insignificante. Em casos de solidão absoluta lá vai o triste comprar algo para oferecer a si próprio. Mesmo os que não têm família encontram um albergue de ocasião para ouvir o burburinho do papel de parede transformado em oferenda divina.

Se são fáceis de perceber as razões de quem gosta, os motivos dos que “não apreciam” tem garantido o soslaio do olhar da cristandade.

A primeira razão dos abstémios é o estado do mundo, da Palestina aos subúrbios da Califórnia. Esta razão, no entanto, daria cabo de todas as outras festas do ano.

A segunda é o consumismo, até porque e apesar das prendas, que podemos não comprar ou deixar a imaginação fazer à borla, esta nem é a fase mais frenética do ano para gastar dinheiro à toa. Antes de poupar na prenda deveríamos poupar na propriedade, nos cigarros e na bijutaria, tudo gastos que fazem pior à vida dos outros e têm a vantagem de não melindrar nem quem carinhosamente nos oferece algo, nem os filhos.

A terceira é o desperdício. É um verdadeiro disparate os quilos de comida que acabam a consoada no lixo, qual dádiva oferecida aos ratos, ao cilindro ou ao espírito santo. Das rabanadas aos embrulhos, dos pinheiros às luzinhas, dos canapés às companhias de telefone, tudo é um disparate. Recebo mais mensagens de bom natal de pessoas cujo número já foi apagado pela amnésia dos dias do que de pessoas verdadeiramente próximas. No dia seguinte, ou três ou quatro dias depois de resistir a comer roupa velha, lá chega o bolor às iguarias. As mensagens todos os anos aparecem envoltas no tédio e no nevoeiro da falta de  originalidade que caracteriza o momento: “O pai natal blá, blá, blá, as renas blá, blá, blá, que o natal te traga blá, blá, blá, e um bom ano para a família”.

A quarta, e a mais importante de todas, é a hipocrisia. Quantas ceias se fazem do silêncio de rancores, de mágoas, das dores que sempre geram as feridas dos antepassados que ainda estão vivos? Quantas não se fazem com gente que sentadas à mesa no dia santo passam o resto dos dias de costas voltadas?

Da minha parte teremos que nos ver no resto dos dias que eu não volto a entrar por nenhuma das portas dos que me consideram família para lhes impor o meu sarcasmo. Não me comprem prendas, não me convidem. Não se lembrem de mim neste dia se a seguir se vão esquecer ao longo do ano. Não vos quero exportar as razões do meu ateísmo nem a minha pouca crença na unidade da maioria das famílias, mas não se zanguem se eu não aparecer para o bacalhau, para a couve penca e para a falta de fantasia. É que quero muito mais do que o espectro da alegria dos que amo e se for só espectro o que nos une, não quero rigorosamente nada além do que guardo, sem filosofia, na memória.

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